<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717</id><updated>2011-04-21T21:27:10.540+01:00</updated><title type='text'>GREGUERIA</title><subtitle type='html'>"Estes romances darão lugar, pouco a pouco, a diários e autobiografias, livros fascinantes, se um homem soubesse escolher entre aquilo a que chama as suas experiências e registar a verdade com a verdade"                                                  
Ralph Waldo Emerson</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>35</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-115825781333299865</id><published>2006-09-14T19:12:00.000+01:00</published><updated>2006-09-14T19:16:53.336+01:00</updated><title type='text'>A Frase</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5157/558/1600/260.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5157/558/320/260.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;Foi&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; uma daquelas frases que se atiram para o ar num daqueles momentos de enfado, sem se pensar muito no sentido, nem sequer no conteúdo, coisa vaga, sem grande ou nenhuma essência: tudo isto é uma grande chatice! Uma frase que não diz nada, absolutamente, mas que não nos cansamos de repetir por dá cá aquela palha. Porquê é que eu francamente não faço a menor ideia. Há quem prefira suspirar, são aqueles que não conseguem dizer duas para a caixa. Três palavras com duas sílabas cada, é o máximo que o seu poder oratório consegue. Também existem aqueles que preferem ficar calados; engolem o enfado e vão consultar o signo para verem se a coisa vai durar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os astros regem o nosso destino e a Lua, Marte e Saturno, lá estão para ditarem as suas leis, exercerem influências e nos atirarem para as revistas e livrinhos da especialidade em leitura atenta e venerada, procurando os positivos, fechando os olhos aos negativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou dos que dizem que não senhor, nunca leio essas coisas, uma treta. Claro que não sou excepção e todas as semanas, de uma forma disfarçada, como toda a gente fingindo que não, é certo e sabido, lá estou a espreitar o meu, Sagitário, para quem estiver interessado. Se lá disser que, por influência do astro tal, em conjunção com não sei o quê, no dia tantos de tal os meus humores são de caixão à cova, assim será, não falha e o melhor que eu tenho a fazer é ficar fechado em casa, o que não deixa de causar transtornos. Mas nestas coisas dos astros não há nada a fazer, as coisas são como são e pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto às frases que se atiram, as tais sem sentido, é mesmo para se não estar calado. Um solta a frase, com a utilização das mais variadas palavras e outras variantes gramaticais, dependendo estas do grau de cultura do fulano, e o outro, que nem sequer ouviu ou se ouviu não entendeu patavina, diz: É o quê? Poderá perguntar, menos avisado, o parceiro do lado. Por pura distracção, já se vê. E alguém vai saber? Nem mesmo o seu autor. O importante é que se tenha expelido um pouco de ar poluído pela chateação. Depois, muita coisa pode acontecer quando a gente está chateada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava sentado com a Leonor, na esplanada do “Pic-Nic”, ali ao Rossio, iam para as cinco horas de uma tarde bem bonita, num princípio de Primavera. Sempre considerei esta estação do ano a mais importante, e não a penas bela, não porque goste de flores e elas nesta altura do ano nos ofereçam o colorido deslumbrante e o inebriador perfume – não sei por quanto tempo ainda, com todos estes constantes ataques à natureza, mas isso pertence a outro filme – é mais por causa das pessoas. Pode ser que não seja mais do que uma ilusão, às vezes acontece vermos aquilo que desejamos ver. O facto é que fico sempre com a sensação de que as pessoas são, como direi?, não, não é alegres, direi antes receptivas, abertas, talvez até mais humanas e, de quando em vez, com um pouco de sorte, ainda se consegue descobrir aqui e além, um sorriso. Mas não procurem demasiado pois pode muito bem acontecer que tudo isto não seja mais do que o fruto duma pontinha de poeta que por vezes me assalta. De qualquer maneira acho giro. E mais acharia se fosse verdade. Mas quem é que tem tempo de sorrir? Meio mundo preocupado em lixar o outro meio...!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-115825781333299865?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/115825781333299865/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=115825781333299865' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/115825781333299865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/115825781333299865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2006/09/frase.html' title='A Frase'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-114072875944215641</id><published>2006-02-23T21:04:00.000Z</published><updated>2006-02-23T21:05:59.460Z</updated><title type='text'>A aldeia</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;V&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;ou, pouco a pouco, sendo absorvida pelo extraordinário fascínio que esta terra irradia. Não é fácil ficar indiferente à beleza rude desta magnifica e sempre surpreendente, paisagem campestre e à simplicidade natural desta gente. Não podes imaginar, minha boa amiga, as mudanças psíquicas e até físicas que se operaram em mim, a partir do momento em que me vi integrada em todo este ambiente. Vejo e sinto as coisas, a própria vida, de uma maneira bem diferente. Foi como se, de repente, abrissem uma janela e todas as coisas, todos os objectos, ganhassem uma nova cor, uma nova luz, uma nova dimensão. Creio que a vida se tornou para mim mais intensa, mais vivida. Lembro-me que, muitas vezes, sentia-me assaltada por terriveis angústias sem que, aparentemente, nada o justificasse. Há muito que não sinto nada disso. Tudo se apresenta aos meus olhos com formas simples e naturais. É como se a inexistência de traumas nesta gente fosse contagiosa.&lt;br /&gt;Sinto que, em cada dia que passa, vou ficando cada vez mais longe da cidade, dos seus caprichos, das suas psicoses. Disfruto de uma vida sã verdadeiramente inebriante. Fiz também uma descoberta interessante: o contacto directo com a natureza é excitante. Faço mais vezes amor. O Jorge até já me disse que tenho de ir passar uns tempos à cidade. Claro que é a brincar porque o malandro também gosta deste meu novo temperamento. Ainda ontem, quando ele chegou a casa, estava eu na cozinha a preparar um magnífico empadão de carne; nem te conto. Quando me foi dar um beijo já não o larguei. A culpa foi do empadão Vê-lo a crescer... a crescer.&lt;br /&gt;- Mulher, trabalhei o dia todo e acabei de conduzir quarenta quilómetros aos trambolhões. Estou todo partido.&lt;br /&gt;- Nem todo – Disse-lhe eu, pondo-lhe a mão entre as pernas. O patife podia estar todo partido, mas aquilo é que não estava, como facilmente comprovei. Não tenho a certeza, mas parece-me que nunca tínhamos experimentado a mesa da cozinha. Agradeci a mim própria o facto de ainda a não ter pronta. Resultado, o raio do empadão queimou-se. Estes ares puros transformam uma pessoa.&lt;br /&gt;Estou irremediavelmente apaixonada por esta terra e por este povo. E pensava eu, nos primeiros tempos, que jamais me adaptaria a esta forma de vida! Toda esta lassidão, toda esta calma, toda esta forma profunda de viver. É, minha boa Isabel, aprendi agora a viver a vida com verdade. Não sou mais obrigada a rir sem vontade e a chorar a cada passo.&lt;br /&gt;Quantas vezes desejo esquecer tudo o que aprendi, toda a cultura adquirida em livros e em intermináveis horas de estudo que me impede, muitas vezes, de absorver toda a pujança de vida que, em cada momento, me é atirada para os braços. Até hoje não consegui ensinar nada a este povo, eu é que tenho aprendido com eles. A verdadeira sabedoria está aqui, neles, onde a maioria não se sentou sequer nos bancos da escola. Li algures que a ignorância é o mais forte aliado da opressão. Que tipo de ignorância? A que é eliminada pelos livros ou a que a experiência da vida destrói? A vida autênticamente vivida é a mais eficiente e sábia escola que existe. Tudo nos ensina. A ignorância não existe. Não aqui.&lt;br /&gt;Esta gente não passa nunca por cima da vida, eles absorvem toda a seiva que ela nos transmite. São eles que, dia a dia, a criam e, em cada hora, a recriam. Ao lançarem a semente terra fazem-no com toda a ternura e a força de um amante apaixonado. Eles derramam, gota a gota, o esperma da sua vontade, num gozo sentido. Puta de terra esta que só recebe e nada dá! Ah, terra bendita que belos são os teus frutos! Eles tratam a terra como tratam as suas mulheres. Com amor ou com raiva, mas nunca com indiferença ou ódio.&lt;br /&gt;Nós, os da cidade, somos olhados como pessoas de um outro mundo, cujos hábitos, que não lembram ao diabo, os confundem. Não compreendem como é que havendo tanta gente na cidade, ninguém se conhece. Tentei uma vez explicar-lhes que era exactamente por isso. Seria quase impossível conhecerem-se uns aos outros. Pode ser, pode ser, mas ninguém olha na cara. Não sabemos se é por vergonha ou por mêdo. Se um está doente ninguém lhe acorre, se morre ninguém chora. Desisti.&lt;br /&gt;Todos os que visitam a cidade, no regresso juram que nunca mais lá voltam. Na cidade tudo é a mais; povo, carros, barulho, loucura e mêdo. Só o sol é que é a menos. Todos aqueles prédios que nunca mais acabam, a gente só de olhar fica de cabeça zonza, não deixam o sol aquecer as pessoas. Ah, as montras são bonitas, sim senhora, lá isso são, só que uma pessoa não consegue descobrir para que servem todas aquelas coisas.&lt;br /&gt;Aqui, tanto a morte como o nascimento, são acontecimentos de extrema importância na vida desta gente. Vivem cada um destes momentos com intensa religiosidade, eu quase que diria que com um paganismo místico, a que ninguém fica indiferente.&lt;br /&gt;Tive, há dias, a extraordinária oportunidade de assistir ao nascimento de uma criança. Pensava eu saber tudo sobre o parto. Talvez devido a um certo sentimento masoquista, li tudo o que há sobre o nascimento de uma criança, desde que é fecundada atá ao momento em que é cortado o cordão umbilical. Sabia de cor todas as alternâncias físicas e emocionais que sofre uma mulher grávida. Mais uma vez os meus doutorados conhecimentos teóricos foram ultrapassados pela realidade.&lt;br /&gt;De início as mulheres, da casa e vizinhas, mostraram-se muito renitentes em me deixarem assistir, mas a parteira com a sua incontestável autoridade intercedeu por mim e eu consegui assistir ao desenrolar de um acontecimento magnífico e divino na vida de uma mulher.&lt;br /&gt;Sei o que estás a pensar, mas acredita que já ultrapassei essa minha mágoa. Do facto dei relevo numa das minhas cartas para ti, se bem estás lembrada.onfesso que, ao mesmo tempo que senti uma enorme ternura, passou por mim uns laivos de inveja.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-114072875944215641?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/114072875944215641/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=114072875944215641' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/114072875944215641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/114072875944215641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2006/02/aldeia.html' title='A aldeia'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-113926296580297873</id><published>2006-02-06T21:36:00.000Z</published><updated>2006-02-06T22:12:28.586Z</updated><title type='text'>As 5 manias</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;Contrariando o firme propósito de jamais falar da minha pessoa nos meus blogs, em consideração à Tmara, pessoa que merece toda a minha amizade e admiração, só por isso, aqui vão as tais ditas cujas, retiradas ao acaso num rol de milhentas.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;img height="360" alt="271b.jpg" src="http://gregueria.blogs.sapo.pt/arquivo/271b.jpg" width="300" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Não consigo escrever nas costas de uma folha de papel escrita e não suporto rasurar uma escrita. Se tenho de riscar uma palavra, rasgo e escrevo de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Gosto dos papeis simetricamente alinhados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Dificilmente resisto à tentação de ler em voz alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Tenho um gozo imenso em construir os meus textos, falando quando passeio na rua. Isto, várias vezes, foi motivo de algum embaraço, pelo meu entusiasmo e, sem querer, elevar a voz. As Cartas Perdidas nasceram assim, numa noite em que passeava o meu cão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Aprecio as coisas simples, mas odeio as fáceis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já agora passo o testemunho para:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Apenas Maria&lt;br /&gt;Adryka&lt;br /&gt;Lazuli&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Silêncio Falado&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Palavras de Ursa&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-113926296580297873?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/113926296580297873/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=113926296580297873' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113926296580297873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113926296580297873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2006/02/as-5-manias.html' title='As 5 manias'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-113907381425469483</id><published>2006-02-04T17:20:00.000Z</published><updated>2006-02-04T17:26:17.296Z</updated><title type='text'>Filomena</title><content type='html'>- &lt;span style="font-family:lucida grande;font-size:180%;color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;R&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;econheço que as crianças são um mundo, mas elas nem sempre fazem eliminar a solidão. Há ainda os amigos, as idas ao cinema, ao teatro, sei lá, monte de coisas que uma pessoa pode fazer para quebrar a solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sei. Claro que vou ao cinema, ao teatro, mas sem pre só. Quanto aos amigos... nao é fácil uma mulher só fazer amigos. São muito raros os casais convidarem-me. Compreendes, uma mulher não gosta de introduzir outra em sua casa, sobretudo sabendo que é uma mulher livre. Se as mulheres não olham para mim como uma inimiga, pelo menos vêem-me como uma concorrente. Quanto aos homens, todas nós sabemos que não são totalmente desinteressados. Mesmo os mais educados e amáveis não conseguem impedir-se de pensar em tirar o melhor proveito. Para eles uma mulher só é sempre uma mulher carente sexualmente. E então, quando o desejo surge, ninguém consegue garantir de se poder conservar sequer um camarada. Quantas vezes apenas isso que nós desejamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Creio que tens razão. - Ainda não estava completamente penetrada no teor toda conversa. A imagem que tinha de Filomena tinha sido totalmente destruída naquele momento e eu fazia esforços para absorver e aceitar a nova. Seguia atentamente o curso do nosso diálogo e fazia tudo para que não se desviasse. - Tens razão. Mas há uma coisa que não compreendo. Tu és uma mulher jovem, bonita, fisicamente agradável, livre. É-te assim tão difícil arranjar uma companhia? Evidentemente que não vou dizer que comeces a levar homens para casa mas, que diabo, com algum podes acertar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não duvido. Já tentei, claro que já tentei. Não tenho uma moral de rigidez monástica. Sou uma mulher perfeitagente normal. Simplesmente a aventura pela aventura é coisa que não me seduz. Durante uma noite, ou até mesmo durante algum tempo, é certo que esqueço a solidão, ou pelo menos se torna menos pesada, só que ele permanece para mim um estranho e a solidão é substituída por uma tremenda insatisfaçao, ao ponto que não não saber qual delas será pior. Não é de um amor de ocasião, se tal coisa existe, de que necessito. Do que sinto falta é de uma presença, de uma ternura que dure. Sobretudo de uma presença. Algo que seja, esteja e fique e eu sinta. A aventura de uma noite pode, é certo, preencher uma carência fisica, só que ao pequeno-almoço eu estarei novamente só. E assim estarei, só, continuamente só. Entrar em casa e vê-la deserta; ouvir apenas o ruído dos meus próprios passos a cortar todo aquele silêncio sepulcral. Ninguém para falar, ninguém para acarinhar. Rodeada de objectos inanimados, frios, distantes. Bonitos, é verdade, escolhidos com garridice, mas mortos. Tudo aquilo não é mais do que um espaço vazio onde flutuo horas infindas. Os móveis, os quadros, os “bibelots”, tudo eu encontro, mas não há ninguém para me acolher, para me falar, para se zangar, para sorrir ou para chorar, ou simplesmente para um proferir um olá. Eu sei que não vou ouvir jamais o ruído de uma chave rodando na fechadura. É como se estivesse no deserto, um deserto muito frio. Olho em volta e procuro encontrar vida, um pouco de calor; é então que falo sózinha para ter a ilusão de não estar ainda morta. O eco, apenas o eco das minhas desesperadas palavras eu obtenho como resposta. E é assim todas as noites, todos anos, durante anos. Deixo-me possuir pelo vazio da minha existência e sinto a inutilidade de tudo. Não sabes o que é não poder sentir o calor de um corpo junto ao meu, não ouvir a respiração de outra pessoa. Quando, alguma noite, de repente, o desejo me assalta, para o satisfazer apenas tenho um objecto frio de plástico que vibra por acção de uma pequena bateria. No meu quarto, durante alguns momentos, ouve-se o zumbido do pequeno motor misturado com os meus fracos gemidos de pálido prazer. É este o amor de uma mulher só. Ah, mas sou livre! Livre e invejada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma liberdade extremamente opressiva. - Disse eu, ainda siderada pelo que ouvira. Jamais tive à minha frente uma pessoa que falasse com tanta franqueza, com uma tal abertura de alma. Sentia-me emocionadíssima e ansiosa por ouvir mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. Mas invejam-me. Tu mesma; há pouco, invejavas a minha sorte de mulher livre. Aparentemente tenho tudo o que maioria das pessoas deseja: uma boa situação económica, uma profissão que gosto e que me realiza, ganho mais do que preciso e não tenho necessidade de me submeter aos desejos e caprichos de ninguém. Sou, numa palavra, livre, magnificamente livre. Mas que terrível e angustiante liberdade esta, Isabel! Livre… mas só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque não casas? - Perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso encarar o casamento como uma solução para um problema de solidão. Não, o casamento nem sempre destroi a solidão. Quantas vezes é ele próprio que o cria. A liberdade de que disfruto implica uma carga tremenda que eu transporto em cada hora do dia. Houve um momento na minha vida em que tive de optar: o casamento não me seduzia e eu tomei a decisão de enfrentar a vida com as minhas próprias armas. Tirei um curso contra a vontade dos meus pais e atirei-me de peito aberto para uma profissão dominada por homens. Durante anos a luta foi terrível, mas creio ter vencido em toda a linha. A falta de tempo para parar e pensar fez com que eu nunca sentisse solidão. Os homens passaram pela minha vida como adversários que teria de vencer ou como amantes de ocasião, simples objectos de uma necessidade. Em qualquer dos casos foi sempre numa situação de luta. Não era apenas a sua competência e experiência que eu tinha de vencer, mas também as suas ancestrais tendências machistas que, mesmo em homens evoluídos, acabava por vir à superfície. Fui sempre obrigada a dispender o triplo das energias para conseguir fosse o que fosse. Quase o mesmo se passava no amor. Quando convidava um homem para vir a minha casa, ele entendia sempre que o único objectivo desse convite era ir para a cama. Claro que muitas vezes era isso que eu queria, mas muitas outras era apenas um pouco de companhia, dois dedos de conversa, beber uns copos. Não podes imaginar os esforços que faziam, os mais educados, para não arrancarem as roupas a toda a velocidade e se atirarem a mim. E o mais engraçado é que todos, sem excepção, ficavam convencidos que, no fundo, me faziam um favor, só que a grande maioria não passavam de apressados, ineptos e egoístas. Quando, ingenuamente, me perguntavam se tinha ficado satisfeita e eu lhes respondia que não, chamavam-me de lésbica. Nunca ouvi um homem confessar que é inábil na cama. É claro que passei sempre a dizer que tinha sido formidável. O que me chocava era que eles o diziam com naturalidade, plenamente convencidos. Para eles uma mulher que vive sozinha, que enfrenta o mundo deles e vence, só pode ser isso. Tantas vezes eu ouvi esse nome que cheguei a duvidar de mim mesma. Teria eu, de facto aversão aos homens? Fiz duas experiências com mulheres e concluí que não. Sou uma fêmea autêntica e só o macho me completa. Esta é que é a pura verdade. Sou mulher e gosto de o ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas toda essa solidão, toda essa angústia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o que eu tenho de pagar pela minha liberdade. Há momentos em que considero um pagamento injusto, demasiado pesado. Por vezes não fácil ser uma mulher livre num mundo de homens. No conceito deles, uma mulher livre depois dos quarenta anos só pode ser uma de duas coisas: beata ou lésbica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;F&lt;/span&gt;ilomena é uma mulher livre apesar de toda a carga, por vezes traumática, que é obrigada a transportar. Eu mesma, muitas vezes, desejei ser uma mulher livre; fazer o que me desse na gana, ir para onde me apetecesse, em qualquer momento, não ter que dár satisfações a ninguém, enfim, sentir-me livre, simplesmente nunca dissociei essa vontade do casamento. Creio que o que custa à mulher é ter de aceitar o casamento como uma prisão e sê-lo na verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconheço as razões que levaram a Filomena a preservar uma liberdade que lhe é tantas vezes pesada e não me atrevo sequer a fazer juízos de valor sobre a sua vida.&lt;br /&gt;Muitas vezes penso como reagiria se, de repente, me visse sozinha. Teria eu forças e coragem para criar uma nova vida, uma nova ambiência, uma nova forma de estar? Sei que sobreviria, pois a nossa vontade de viver é tão grande que nos impede de secumbir, seja em que circunstâncias forem. Mas será isso o suficiente? Sobreviver a uma situação não pode ser nunca uma solução. A vida é demasiada importante para que deixemos escapar um segundo sequer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-113907381425469483?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/113907381425469483/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=113907381425469483' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113907381425469483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113907381425469483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2006/02/filomena.html' title='Filomena'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-113716141556476404</id><published>2006-01-13T14:07:00.000Z</published><updated>2006-01-13T14:10:15.580Z</updated><title type='text'>A luta</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;D&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;epois da triste experiência que tive no tenebroso mundo da droga, a minha vida ganhou uma nova dimensão, transportando-me muito para além das quatro paredes cuidadosamente pintadas da minha casa. Aprendi que a vida não é um ritmado caminhar paralítico entre atapetadas veredas rodeadas de flores artificiais. Ela é feita de tropeções, quedas, altos voos, de merda e de jardins floridos. Eu vivia apenas numa parte da vida, naquela em que artificialmente nos envolvia numa redoma de sorrisos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi sair para a rua, conhecer o lado feio e mau das coisas, fazer parte de tudo isso, sujar os sapatos no vomitado quotidiano das desilusões. Transformei-me numa companheira de minha filha, uma sua camarada na luta quase heróica contra a droga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dias depois de termos visitado aquele pobre rapaz, a Zita foi chamada de urgência. Corremos as duas para lá. Já ali se encontravam um médico e duas amigas. O rapaz estava a morrer. Já nada nem ninguém o conseguiria salvar. Tinha os olhos fechados e respirava com dificuldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não seria melhor levá-lo para um hospital? - Disse minha filha para o médico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vale a pena. Isto é uma questão de minutos. – Disse-o com a naturalidade da sua frieza profissional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas será que não podemos fazer nada? - Perguntou uma das moças que, com um lenço, limpava o rosto do jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Absolutamente nada. Ele já está praticamente morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento entrou um casal que, piscando os olhos procurava ver na semiobscuridade do quarto, o que estava a acontecer. A mulher olhou para o canto onde o pobre rapaz se encontrava deitado e correu para lá. Deixou-se cair de joelhos junto da enxerga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Albertol... Alberto!... Meu filho!... Sou eu, a tua mãe. Olha, meu querido, a tua mãe está aqui! - Ela sacudia o frágil corpo tentando que ele abrisse os olhos, chamá-lo para a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acalme-se, minha senhora. - Disse o médico. - Ele não a ouve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu querido filho! - Gritou a mulher, O pai encontrava-se encostado à parede, de olhos muito abertos, enquanto que pelas faces lhe corriam grossas lágrimas. Desde que chegara ainda não tinha dito uma só palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porquê meu filho?... Porque fizeste isto? Doutor, ele é ainda uma criança. Salve-o, por amor de Deus! Salve o meu filho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém respondeu. Não havia nada para dizer. De repente o rapaz abriu os olhos e fixou-os no tecto. Assim ficou durante alguns segundos. O seu corpo foi sacudido por um leve estremecimento e depois ficou quieto. O médico que se encontrava ajoelhado junto dele, vigiando-lhe o bater do coração, levantou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acabou. - Disse num sussurro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento ouviu-se a sirene de uma ambulância a se aproximar. Era a que tínhamos chamado para o transportar para o hospital, numa desesperada esperança que algo pudesse ser feito. Ao fim de alguns minutos tudo tinha acabado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardou-se a chegada da polícia para que tomasse conta da ocorrência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais seguiram na ambulância acompanhando o filho morto e nós saímos para a rua, tentando respirar um pouco de ar puro. O médico já tinha partido e nenhuma de nós tinha coragem para falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte é sempre triste mas muito mais quando ela ocorre num jovem. E quantos mais estarão neste momento na mesma situação? Tremo só de pensar nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo conceber a droga como solução, nem mesmo como fuga a um ”status” negativo, dos muitos que a vida frequentemente nos atira à cara. Não nego o prazer que ela proporciona, embora eu continue a considerar tratar-se de um prazer de base falsa. A droga para mim é como se fosse um patíbulo: em qualquer momento abre-se o alçapão e nós ficamos a baloiçar com o nó da corda apertado ao pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em conversa com uma amiga, a Filomena; acho que não conheces; falámos sobre este aspecto da sociedade actual, que é a necessidade do recurso droga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, minha querida, o tráfico e o consequente consumo de estupefacientes não é actual, O seu uso remonta de há muitos, muitos anos. Simplesmente ela hoje não está mais apenas nos salões e nas orgias da alta burguesia. Saiu para a rua, proletarizou-se. Na verdade, ela agora pertence ao povo. Tu sabes bem o que acontece a tudo o que cai na rua. O mal não está na droga, mas sim no seu uso excessivo e descontrolado. Tudo aquilo que ultrapassa a nossa vontade, a domina fugindo, assim, de qualquer controle, transformfa-se numa arma permanentemente engatilhada e apontada ao nosso peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu vi aquele rapaz a morrer. Tão jovem, tão criança ainda, com tanta vida para viver! Foi um crime. Um crime nefando! E os criminosos continuam à solta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E vão continuar. Enquanto e onde existir poder de compra eles vão continuar. Enquanto as pessoas não forem esclarecidas eles vão continuar. O mal é eles venderem uma coisa que dá prazer, digam o que disserem, que transporta as pessoas para um mundo melhor, irreal, falso, mas melhor, à medida dos nossos desejos. Sei que é assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes? Sabes como? – Acho que não entendi de imediato o que ela me queria dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Experimentando, claro. Sempre que me encontro mais deprimida, quando a angústia se alia à solidão e tudo se transforma num peso insuportável, a “erva” consegue restabelecer o equilíbrio. Não sou, evidente, uma viciada. Ainda no sou... Pelo menos eu quero acreditar que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei-a não querendo acreditar no que ouvia. De repente foi como se tivesse à minha frente uma desconhecida, pior do que isso, uma criminosa. Foi. Foi exactamente isso que eu senti. Ela adivinhou o que me ía no espírito. Nos seus lábios desenhou-se um sorriso triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Até tu, que te encontras numa campanha de recuperaçao de drogados, olhas para mim como se fosse uma criminosa. Vês como eu tinha razão, quanto ao esclarecer das pessoas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por amor de Deus, não pensei tal coisa! - Menti - Confesso que fiquei surpreendida. Porquê exactamente tu? És uma mulher forte, adulta e, segundo penso, realizada. Calcula que até cheguei a invejar-te muitas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A mim? Pobre Isabel, como estás enganada a meu respeito. Estou muito longe de ser uma mulher por quem se tenha inveja. Muito pelo contrário. - Havia mágoa na sua voz. - Mas a verdade é que não fazes ideia da quantidade de pessoas que me dizem isso. Tu que tens sorte, dizem-me. É, tenho muita sorte. Não tenho um bando de filhos para aturar, um marido machista para suportar, um monte de complicações e trabalho lá em casa. De facto não tenho nada disso. Talvez seja essa, uma das razões porque me desvio sempre dos parques onde há crianças a brincar, ou então, paro numa montra de brinquedos e não consigo refrear as lágrimas. Que sabes tu, minha querida Isabel, da vida de uma mulher que tem como companhia apenas a solidão?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-113716141556476404?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/113716141556476404/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=113716141556476404' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113716141556476404'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113716141556476404'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2006/01/luta.html' title='A luta'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-113511120280282871</id><published>2005-12-20T20:38:00.000Z</published><updated>2005-12-30T15:35:24.683Z</updated><title type='text'>FELIZ ANO NOVO</title><content type='html'>&lt;img alt="f127006.jpg" src="http://gregueria.blogs.sapo.pt/arquivo/f127006.jpg" width="416" height="320" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;color:#ff6600;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Que todos os desejos, mesmo os mais simples e insignificantes, mas sempre tão importantes, se realizem em pleno, em 2006.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-113511120280282871?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/113511120280282871/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=113511120280282871' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113511120280282871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113511120280282871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/12/feliz-ano-novo.html' title='FELIZ ANO NOVO'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-113404645996752595</id><published>2005-12-08T12:52:00.000Z</published><updated>2005-12-08T12:54:19.980Z</updated><title type='text'>Clarisse - A narrativa</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Tinha&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; visto o casamento como uma fuga à tristeza e à solidão da minha vida por culpa dela, só que toda a angústia não estava nas coisas mas em mim mesma, pelo que não havia fuga possível. Ela fizera de mim um farrapo humano. Foram uns miseraveis anos!&lt;br /&gt;Aquele pequenino ser que crescia dentro de mim seria a tábua a que eu me iria agarrar desesperadamente. Na dor do parto eu gritei de esperança. Durante dois anos o meu filho foi todo o meu mundo. Com ele ocupava todos os meus tempos livres que eram, afinal, todo o tempo. Depois veio e segundo e com ele a notícia que não voltaria a ter mais filhos. Pouco me importou porque eu sofri muito com aquele. A minha vida perigou muito durante o parto.&lt;br /&gt;Mas porque estou eu a recordar tudo isto? Será que estou procura de uma justificação? Sentir-se-à a minha consciência culpada tão lá no fundo que eu disso não me aperceba? E depois, porque será que nós, mulheres, temos sempre de nos sentirmos culpadas por sermos felizes e esta necessidade, quase inata, de nos justificar, a nós próprios e aos outros? Só que eu, Teresa, juro, não me sinto culpada.&lt;br /&gt;O destino atirou-me para os braços uma experiência nova, uma experiência violenta, reconheço-o, mas fascinante. Descobri nestes três meses que a vida é suja, pôdre, bela, sublime. Não tenho mais dentro de mim do que a metade; aquela metade que ela moldara a seu bel-prazer. Descobri que a vida está dentro de cada um de nós, mas que só é vida completa quando a transmitimos a outro, quando a partilhamos. E eu, boa amiga, em cada segundo que passo nos seus braços, recebo e dou vida que criamos e recriamos naqueles momentos. Amo o amor e não sinto vergonha. Pela primeira vez na minha vida esqueci a vergonha. Amo o meu corpo nu porque é belo. Bani de dentro de mim a hipocrisia, soltei as correntes que me aprisionavam a falsos conceitos de vida, de estar e ser. Agonio-me quando me vêm dizer que o importante o diálogo entre o homem e a mulher. Estou horas sem dizer uma palavra, ouvindo apenas as nossas respirações serenas e sinto-me transbordante de felicidade. Sinto o corpo docemente cansado e o espírito vogando entre nuvens. Será isto condenável? Pois então que me condenem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu não. Eu não a vou condenar. Clarisse vive uma nova vida e, como a própria vida, não sabemos quanto tempo vai durar. E nós sabemos o quanto importante é o tempo.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-113404645996752595?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/113404645996752595/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=113404645996752595' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113404645996752595'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113404645996752595'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/12/clarisse-narrativa.html' title='Clarisse - A narrativa'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-113390383117837643</id><published>2005-12-06T21:14:00.000Z</published><updated>2005-12-06T21:17:11.190Z</updated><title type='text'>Casada</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:lucida grande;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; peso do seu corpo esmagava o meu e abri ainda mais as pernas, não para lhe facilitar mas apenas porque um dos joelhos me estava a magoar. Tive a sensaçao de que havia algo que não estava certo. Tu tinhas afirmado que todos os meus gestos se iriam processando com naturalidade, sem esforço, sem que eu tivesse sequer necessidade de pensar nisso. Seria tudo instintivo. Creio que falaste em excitação, desejo ou qualquer coisa parecida. Que se estaria a passar de errado? Eu tinha feito esforço para abrir as pernas e tinha feito esforço para o aceitar em cima de mim. Naquele momento tudo o que se passava comigo, dentro de mim, ao redor era apenas puro sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me senti penetrada não aguentei mais e gritei. Gritei de mêdo, de raiva, de nojo e de ódio. Oh, céus, quanto ódio senti naquele momento! As lágrimas corriam-me pelas faces mas ele não parava nem cedia. Ouvi-o dizer palavras desconexas, das quais não apanhei qualquer sentido. Uma dor forte percorreu-me a espinha no preciso momento em que o seu corpo se abateu sobre o meu. E todas as vezes que se seguiram nessa noite a dor se repetiu sempre. Já não gritava, limitando-me a morder os lábios até fazer sangue. De manhã havia sangue no lençol e no travesseiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei a odiar-vos, aos dois, nessa noite. A ti por me teres enganado ao dizeres que tudo seria fácil e a ele por me ter feito sofrer tanto. Uma grande e bela noite de amor, onde o prazer e a ternura se transformariam num sublime extâse que jamais esqueceria. Meu Deus, o quanto a realidade fora diferente! Nos momentos em que a ternura dominava eu sentia-me serena, mas logo que o desejo se apossava dele tudo desaparecia e eu voltava a tremer de terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o dia tudo era maravilhoso. Os longos passeios, as visitas aos museus, as idas ao teatro, tudo era para mim um encanto pois tudo era novidade. Sempre enclausurada eu nada conhecia a não ser igrejas. Mas logo que se aproximava a noite todo o meu corpo começava a ser sacudido pelo medo. Algo me dizia que era estúpido reagir assim; todas as mulheres passaram pelo mesmo, todas as minhas amigas tinham adorado, por que reagia eu de uma forma tão diferente?&lt;br /&gt;Alguns meses depois nada em mim se tinha alterado, O meu marido considerou que era já tempo demais e o melhor seria consultar um médico. Não é possivel depois de vários meses de relações sexuais eu continuar a sentir dores. Recusei de início, dizendo que com um pouco mais de tempo tudo entraria na normalidade, mas ele não aceitou e marcou-me uma consulta com um médico amigo. Que vergonha senti ao ser examinada de uma forma tão intima ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A minha querida amiga é uma mulher perfeitamente normal. Fisicamente não há justificação alguma para sentir as dores que diz ter, nem para qualquer espécie de frigidez. Mas eu, não duvido das suas palavras; sei que diz a verdade. Como também não se tratar de um caso raro.&lt;br /&gt;Acredita, minha amiga, que é muito mais frequente do que imagina. Como sabe, muitos dos transtornos físicos que sofremos têm as suas origens no nosso psíquico. A noite de núpcias é uma experência extremamente importante na vida de uma mulher, sobretudo quando ela é possuida por uma grande sensibilidade e, se não houver da parte do marido um máximo de cuidado, muita ternura e paciência, pode causar profundos traumas, cujas consequências, entre outras, são a frigidez e as dores imaginárias. Em muitos dos casos não exactamente imaginárias, são mesmo reais. A cura não difícil, apenas requer colaboração e paciência da parte da doente. Consulte um psiquiatra. Vera que muito em breve tudo isso vai desaparecer Entretanto, aproveito a oportunidade para a informar, se é que ainda não sabe, que está grávida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A confirmação da minha gravidez, de que eu já desconfiava, deu-me uma grande alegria, mas também um medo tremendo. Eu desejava aquele filho! Tinha casado há sete meses mas o casamento continuava a nada me dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo que regressamos da nossa viagem de núpcias, o meu marido voltou ao trabalho. Eu limitava-me a passar os dias fazendo futilidades, ler livros inúteis, preencher horas perdidas, suspirar e aborrecer-me. Todos os dias ía à igreja. Isso eu não podia falhar. Todos os dias pedia perdão porque na véspera tinha cedido aos desejos pecaminosos de meu marido. É ridiculo, eu sei, mas esta é a verdade. Não era fácil para mim libertar-me do fanatismo religioso em que ela me educou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será que não podes escolher outra hora para fazeres as tuas rezas? — Dizia o meu marido, sempre que me via ajoelhada ao lado da cama, fazendo as minhas orações. Passei a subir mais cedo para o meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tu sabes bem que eu também sou religioso, frequento como tu a igreja, mas acho que tu exageras. Lembra-te que já não vives com a tua mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, eu já não vivia com ela, mas o seu fantasma continuava a povoar a minha vida, omnipresente, dominando com tenazes de ferro a minha vontade. Queria afastá-la do meu pensamento, esquecer tudo o que me tinha injectado mas não conseguia. Depositei todas as esperanças no breve nascimento do meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Via no seu nascimento o preenchimento da minha vida vazia, onde eu tentaria concentrar toda a minha vontade. Por ele eu tinha de modificar a minha maneira ser. Não queria por nada deste mundo que fosse igual a mim. Nunca!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-113390383117837643?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/113390383117837643/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=113390383117837643' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113390383117837643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113390383117837643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/12/casada.html' title='Casada'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-113252314208032660</id><published>2005-11-20T21:42:00.000Z</published><updated>2005-11-20T21:48:34.503Z</updated><title type='text'>Noite de núpcias</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Tinha&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; 26 anos quando namorei pela primeira vez, se é que aquilo se pode chamar namoro, e foi com aquele que hoje é meu marido. Dezasseis anos mais velho, facto que levou à aprovação. Foi como se tivesse aberto um mundo novo. Pelo menos assim o pensei. Namoramos um ano e oito meses, O tempo de trocarmos palavras sem sentido e de tratarmos dos papéis para o casamento. Ela estava sempre presente, uma estátua sem vida, fria, silenciosa, fitando-nos com o seu olhar de aço, frio, acutilante. Sempre considerei absolutamente natural a sua presença junto de nós, não me passando nunca pela cabeça porque é que ele nunca tinha dito nada em contrário e aceitava que ela estivesse sempre nos vigiando. Apesar de desejar que os dias passassem depressa, não existia dentro de mim qualquer espécie de nervosismo ou ansiedade. Durante todos aqueles meses tudo foi calmo e dolente, um deixa andar. Estava consciente que a minha ligação com o Ronaldo não era exactamente um namoro como eu sabia que devia de ser. Uns beijos que mal roçavam os lábios, um aperto de mão um pouco mais demorado e tudo ficava por aí. Tinha um desejo, quase não sentido, e jamais reconhecido, que os dias passassem depressa, apenas porque isso significaria sair daquela casa, que era sinónimo de liberdade. Isso era, para mim, na altura, o mais importante.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na véspera do casamento, fez-me sentar junto a uma imagem da Virgem que uma vela iluminava.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Creio ser minha obrigação ter uma conversa contigo agora que vais entrar numa nova vida. Pouco tenho para dizer porque pouco há para dizer. És uma mulher cristã, devota, temente a Deus, porque foi essa a educação que eu me esforcei por dar. De nada estou arrependida e dou graças a Deus por tanto me ter iluminado. Confesso que gostaria muito mais que tivesses dedicado inteiramente a tua vida a Deus. Estou convencida que serias muito mais feliz e terias a suprema felicidade de seres a esposa do Senhor. Mas Deus decidiu o contrário e eu submeto-me à Sua vontade. Vais entrar no mundo maldito dos homens e que isso sirva como expiação dos teus pecados. É mais uma prova que terás de vencer. Quero que recordes sempre que as alegrias da vida são armadilhas tecidas pelo Diabo e delas deves fugir sempre. As mulheres vieram ao mundo para sofrerem e a isso nos devemos resignar. Que seja tudo para glória de Deus. Deves obedecer a teu marido. Ele é um homem temente a Deus e frequenta a Igreja. Será bom para ti. Mas quero que fixes bem que obediência absoluta só a Deus é devida, não aos homens. Quando algo contrariar a tua consciência cristã deves recusar e ser firme nessa recusa. A carne é a podridão da humanidade e nunca, ouve bem, nunca a ela deves sucumbir. Se tal acontecer lembra-te que as profundezas do inferno esperam por ti e jamais terás paz no resto dos teus dias. Rezemos pela última vez juntas, pedindo à Virgem Maria que ilumine os teus passos e abençoe o teu novo lar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nem mais uma palavra. Rezámosa durante mais de três horas e quando me fui deitar ía com o terror na alma. Na noite seguinte, àquela mesma hora, teria a meu lado um homem de que pouco ou nada conhecia, assim como desconhecia o que me esperava. Não a parte física, mas como iria reagir como mulher.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Recordei a conversa que tivemos as duas, às escondidas, uns dias antes. Ela tinha-me proibido ver-te. Perguntei-te como seria e se ía doer. Ela dizia que era pecado pensar naquilo, mas eu não conseguia tirar isso do pensamento.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Ora, Clarisse, não acredites nessa história da dor, -Respondes-te entao. - Ela é mais psíquica do que física mas, se alguma dor sentires ela se dissipará no prazer que irás sentir. Vais casar com um homem mais velho que é, muito provavelmente, experiente. Ele saberá como agir. Apenas uma coisa terás de fazer: não lutar. Nem com ele nem contigo mesma. Deixa que tudo se passe com naturalidade. Afinal até se trata da coisa mais natural do mundo. E tenho a impressão que também do outro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quantas vezes perguntei a mim mesma porque é que as coisas para mim têm de ser mais difíceis do que para as outras mulheres? Porque hei-de ser diferente?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aquela noite foi muito, muito difícil. Quando chegámos ao hotel era já noite e, depois das formalidades na recepção, que me fizeram sentir bastante embaraçada pois pensava que toda a gente me olhava a sabia o que iria acontecer, subimos para o quarto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Minha querida, vou deixar-te por alguns minutos. Se me dás licença vou lá abaixo ao “bar” comprar cigarros. Entretanto, peço-te, não esperes por mim e deita-te. Não demoro mais do que dez minutos. – Disse-me, logo que ficámos sós. Agradeci-lhe intimamente por aquela delicadeza. Apercebeu-se que eu estava apavorada e quis que me aprontasse sózinha. Esta cena de que eu, então, fiquei tão satisfeita, hoje parece-me extremamente ridícula. Mas naquela altura não sei como reagiria se ele logo me abraçasse e me despisse.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Logo que saíu, desfiz rapidamente as malas e tirei a camisa de noite que ambas tínhamos comprado às escondidas. Tinha levado também as que ela tinha comprado. Eram as coisas mais horrorosas que se possa imaginar. Despi-me e vesti a camisa de noite. Olhei-me ao espelho e fiquei vermelha de vergonha. Ela praticamente não tapava nada do meu corpo. Que iria ele pensar de mim? Senti vontade de a despir e usar uma das outras, mas resisti. Fiquei sentada na cama, pensando se deveria ou não seguir o teu conselho e tirar as cuecas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não sejas parva, rapariga! Porque raio é que tu hásde ficar com elas, não me dirás? Ou será que preferes que seja ele a tirar-tas? Isso às vezes é excitante. Se assim é, então deixa- as ficar. Eu, cá por mim, deixo sempre. Adoro que ele mas tire, e se for com os… pronto, eu calo-me!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acabei por as tirar. Quando, alguns minutos depois ele regressou, já eu me encontrava deitada na cama com as roupas puxadas até ao pescoço e, apesar do calor de uma noite de verão, eu tremia toda. Sorriu, aproximou-se da cama e deu-me um beijo na testa. Ele só me tinha beijado na boca uma única vez e fora frente ao padre no altar, depois do sim. Um beijo leve e rápido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vejo-o dirigir-se para a casa de banho e fechar a porta e ali ficou alguns minutos. Quando reapareceu vinha com o seu pijama de seda vestido. Quando se aproximou da cama eu, sem querer - teria sido mesmo? - olhei para as calças e vi-lhe o volume do sexo. Estava ainda em descanso, mas mesmo assim fez com que eu tremesse mais. Fechei por instantes os olhos. Senti que ele se sentava na beira da cama e apagava a luz. Afastou a roupa e deitou-se a meu lado. Eu estava deitada de costas, com os braços ao longo do corpo, sem fazer o mínimo gesto. Aguardava. Começou por beijar-me as faces, procurando em seguida a boca que eu, continuando a tremer, entreabri. Os seus braços rodearam o meu corpo e eu, depois de vacilar durante alguns segundos, também me abracei a ele. Senti que uma das mãos me percorria muito lentamente todo o meu corpo. Desceu até às coxas, subindo depois até parar, e aí ficar, num dos seios. Eu permanecia abraçada a ele sem fazer nenhum gesto. Os seus movimentos foram-se alterando, sendo agora mais rápidos e precipitados. Atirou com as roupas da cama para trás e despiu-me a camisa de noite. Numa semi-inconsciência soergui um pouco o corpo e facilitei o movimento. Nem sequer a tinha visto. Por uma nesga da janela entrava um fio de luz, vindo da iluminação da rua e dos anúncios luminosos. Embora de uma forma difusa eu via tudo o que se passava. Ao mesmo tempo que fechava os olhos com força, amaldiçoava a janela. Devia tê-la fechado. Esquecimento estúpido! Uma falta que tentaria não repetir na noite seguinte. As suas mãos tinham abandonado o meu corpo e, pelos movimentos, adivinhei, mais do que vi, que despia a pijama. A sua mão direita voltou a percorrer-me o corpo, parando desta vez, no meu sexo. Acariciava-me a púbis e, de quando em vez um dos seus dedos tocava-me nos lábios. Pela primeira vez uma mão que não a minha, acariciava aquele sítio. Estremeci. Naquele momento tentei lembrar-me do que me tinhas dito e abri um pouco as pernas. Logo ele se aproveitou para se deitar em cima de mim. Senti o seu sexo duro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao sentir a sua mão acariciando-me a vagina, recordei uma conversa que tive quando estudantes. Todas vocês tinham-se já masturbado e repetiam amiudadas vezes. Fora uma conversa brejeira, levada muito pouco a sério, onde, cada uma, tinha falado da sua técnica. Perguntaram-me como eu fazia. Corei e não respondi. Todas vocês se riram. Disseram que eu deveria ter inventado uma técnica nova e não a queria divulgar. A verdade que eu nunca tinha feito isso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nessa noite, na solidão do quarto e depois de ter rezado mais de uma hora, reconstrui toda a conversa da tarde. Comecei a sentir o meu coração a trabalhar mais depressa e uma onda de calor a percorrer-me o corpo. Quase sem disso me aperceber a minha mão começou a descer. Toquei-me com a ponta do dedo. Todo o meu corpo estremeceu numa onda de prazer e abri a boca. Cada movimento era uma descoberta e eu já não conseguia parar. A partir de um dado momento tive ganas de gritar e assustei-me. Parei de repente verdadeiramente aterrorizada, esperando ver a porta do meu quarto abrir-se rompante e ela parada na ombreira, fixando-me com os seus olhos frios e maldosos. Meu Deus, que estava eu a fazer?! Todo o meu corpo era percorrido por violentas convulsões. Levantei-me da cama e corri para a casa de banho. Lavei a cara e as mãos com água fria. Logo que regressei ao quarto, ajoelhei-me ao lado da cama e rezei cheia de angustiado fervor, pedindo perdão a Deus por ter cedido à tentaçao do demónio e ter praticado aquele pecado mortal. Convenci-me que Deus não me perdoaria e que iria morrer. As labaredas do inferno esperavam por mim. Tinha nessa altura 17 anos. O resto da noite fora horrivel pois passei-a a acordar alagada em suor. Fora a primeira e a última que fizera tal coisa. Tudo isto me passou pela mente, rapidamente, no momento em que senti a sua mão acariciar-me a púbis, enquanto com movimentos desencontrados procurava penetrar-me.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-113252314208032660?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/113252314208032660/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=113252314208032660' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113252314208032660'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/113252314208032660'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/11/noite-de-npcias.html' title='Noite de núpcias'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-112453880792092252</id><published>2005-08-20T12:48:00.000+01:00</published><updated>2005-08-20T12:53:27.930+01:00</updated><title type='text'>Percorrendo o caminho</title><content type='html'>“&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Ensinaram-me&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt; a não querer nada da vida. Viémos a este mundo como penitência para, através do sofrimento, ganharmos o direito de alcançarmos o reino de Deus. Dela só podemos aceitar o que a nossa consciência concordar e as leis de Deus nâo condenarem. Durante anos e anos não ouvi outra coisa. Agora, volvidos tantos anos, tantos anos perdidos!, descobri que não quero nada da vida, apenas quero fazer parte dela, porque eu sou a vida.”&lt;br /&gt;Estas foram as palavras escritas pela mão de Clarisse na sua última carta.&lt;br /&gt;É pecado, não pecado! Foi a lei que, desde que nasci sempre regeu a minha vida. Só agora reconheço as tentativas que o meu pai fez para me mostrar que o pecado não existe. Pobre pai! Nem isso, ele conseguiu fazer com coragem. Se o fizesse, talvez hoje eu fosse uma mulher feliz, possuir uma felicidade construída por mim própria e não a encontrar num quarto de uma miserável pensão.&lt;br /&gt;O pecado não foi criado por mim, o conceito da sua existência foi-me injectado anos a fio, desde que eu comecei a tomar cousciência das coisas, talvez até antes. Não sei se, neste momento o eliminei, mas a realidade é que não pensei mais nele. Ser a carne mais forte do que o espírito? Ora, pouco me importa! Sou feliz e quero continuar a sê-lo! Tal como meu pai, só muito tarde eu consegui sorver as primeiras gotas da vida. A minha sede grande e eu não vou parar de beber. Não enquanto não ficar saciada. E será que ficarei algum dia? Haverá alguém saciado da vida?&lt;br /&gt;Esta aventura, terrível e fantástica, trans formou-me numa mulher diferente e eu adoro a mulher que hoje sou. Nasceram dentro de mim duas coisas maravilhosas: amor e vida e eu não permitirei que nada neste mundo as consiga destruir. Pouco me importa o que venha acontecer, conquanto eu continue a ter dentro do meu coração e do meu corpo esta tão grande felicidade.&lt;br /&gt;Sabes tu, Teresa, o que é rir? Sim, tu sabes. Para ti o riso é tão natural como o sol nascer todos os dias, como o ar que respiras. Eu nunca soube o que era rir, O riso era pecado em minha casa. Hoje o riso brota de mim como uma fonte de águas cristalinas, como as lavas de um vulcão em permanente actividade. É tão bom rir, Teresa! Um dia, era eu ainda criança, o meu pai fez umas graças que me fizeram rir às gargalhadas. De repente sentimos que o ar gelou na sala. Ela olhava-nos da porta, com a reprovação severa no olhar a nos fulminar. Fez-se um silêncio aterrador. Estávamos ambos sentados no chão.&lt;br /&gt;- Clarisse, vai para o teu quarto. Só de lá sairás quando eu o permitir.&lt;br /&gt;Toda encolhida, tremendo de mêdo, corri para o meu quarto. Sabia que nesse dia ficaria sem jantar e que teria de ficar horas, de joelhos, a rezar, até quase perder a consciência.&lt;br /&gt;- Já disse dezenas de vezes que esta casa é uma casa decente. Sabes perfeitamente que não admito imoralidades aqui dentro. Se é teu desejo viver em pecado, não o posso eu impedir, mas exijo que não conspurques uma inocente criança com as tuas sujas e imorais brincadeiras. Se não és capaz de te respeitar a ti próprio, suplico que faças um esforço e respeites os outros. A tua filha é uma inocente e pura criança e eu não vou permitir que a envolvas em princípios pecaminosos. – Ouvi-a dizer a meu pai com ódio na voz.&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;- Não há nada para dizer. Se não és capaz de viver sem ser em pecado, peço-te que tenhas um mínimo de honestidade e o faças longe desta casa.&lt;br /&gt;Ele não se atreveu a abrir mais a boca. Olhou-a apenas com uma infinita tristeza. A partir desse dia ele não voltou a fazer graças para mim e eu não voltei a rir. Nunca mais.&lt;br /&gt;Nestes três meses eu tenho recordado toda a minha vida. Faço-o sem qualquer esforço, as imagens vão surgindo espontanemente. Nesses momentos choro de pronfunda tristeza por tanta coisa perdida, até mesmo das mais insignificantes.&lt;br /&gt;A adolescência, foi para mim, um autêntico suplicio numa constante angústia. Aprendi a disfarçar todos os traços da minha feminilidade a despontar. Usava blusas e camisolas largas para se não notar os seios, as meias grossas e feias que me deformavam as pernas e as saias muitos centímetros abaixo dos joelhos. Tinha quinze anos quando ela, um dia, veio ter comigo e deu-me um embrulho.&lt;br /&gt;- Toma. Tens aí duas coisas para usares. Recordo-te que serás tu que os terás de lavar, dentro, é claro, dos princípios da decência, já do teu conhecimento. - Queria dizer que os teria de lavar e secar às escondidas. Adivinhei logo que se tratava de roupa íntima. Em minha casa era rigorosamente proibido expor as roupas íntimas. Era o meu pai que lavava as suas cuecas. Começou no dia seguinte em que acabaram as relações sexuais entre eles.&lt;br /&gt;- Eu não volto a colocar as minhas mãos nas tuas porcarias. Nunca mais. Cada um de nós terá de lavar os seus pecados. É a nossa penitência. Espero que o faças com a devida decência. - E o meu pai passou a lavar as suas cuecas e a escondê-las. Uma norma que nunca foi alterada. Um dia ele esqueceu-se delas a secar. Quando ela as descobriu, transformou-as em farrapos e atirou-as ao lixo.&lt;br /&gt;Quando, já sózinha no quarto, desembrulhei o embrulho que me tinha dado, vi dois soutiens. Eram de pano grosso, feitos em casa de maneira bastante grosseira, sem qualquer espécie de forma. Experimentei um. Como já calculava, estava apertado demais.Ela assim os mandara fazer. Eram horrivelmente feios. Chorei em silêncio. A partir desse dia eu já não tinha mais necessidade de camisolas largas; mesmo com as mais justas os seios desapareciam com aqueles panos terrivelmente apertados.&lt;br /&gt;Conversar com rapazes era algo que nem em sonhos me atrevia. Nem podes imaginar a inveja com que olhava as raparigas da minha idade indo a bailes, passeando com rapazes da mesma idade, namorando, rindo. Ela vigiava-me constantemente e, se por qualquer razão me atrazava, um minuto que fosse era submetida a um terrível interrogatório que acabava, inocente ou não - para ela não existia a inocência - em horas seguidas a rezar. Quantas vezes eu fui prejudicada nos meus estudos, por causa dessas horas de oração. Tinha que depois recompensar pela noite dentro com uma luz de quinze velas.&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3366ff;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-112453880792092252?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/112453880792092252/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=112453880792092252' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/112453880792092252'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/112453880792092252'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/08/percorrendo-o-caminho.html' title='Percorrendo o caminho'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-112258276813420308</id><published>2005-07-28T21:30:00.000+01:00</published><updated>2005-07-28T21:32:48.143+01:00</updated><title type='text'>A partida</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Depois&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; de ter saído, a megera continuou a chicotear os ouvidos e a alma da pobre Clarisse com tudo o que de porco, pôdre e peçonhento existia dentro de si, do seu espírito estupidamente retrógrado. Disse-lhe que a mulher tinha nascido imunda e pecadora e a prova estava ali.Só através de muito sofrimento e muita fé em Deus é que a mulher conseguirá limpar todas as impurezas com que nasceu. Deus só cria coisas belas e aquilo que ela agora tem não é obra de Deus. Ela nunca deverá falar naquilo. Nunca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me bem que, todos os meses, durante o período, a Clarisse sofria hornivelmente. Os seus períodos não eram nem regulares nem normais. Tinha dores e enxaquecas terríveis, que muitas vezes a faziam desmaiar e, tudo isso, ela sofria em silêncio e em segredo. Acabou por se convencer que aquilo era obra do Diabo, um pecado. Só muito mais tarde é que se convenceu que era tudo absolutamente natural na vida de uma mulher, mas o mal já tinha sido feito e ela muito dificilmente conseguiria libertar-se dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O enfeudamento familiar aos mais rígidos e tacanhos princípios religiosos, transformados em fanatismos dogmáticos, afastados das realidades mais simples da vida, transformou a Clarisse numa mulher traumatizada, carregada de tabus e medos pueris. Era a mais desprotegida de todas, pois em nada fora preparada para enfrentar as mais variadas ciladas da vida. A sua educação, psiquicamente deformada, não a preparou para enfrentar e receber toda a pujança da vida, do que ela tem de maravilhoso e terrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu pai era um homem fraco. Bom, mas fraco. Subjugado em absoluto à tirania religiosa da mulher, sem forças nem coragem para a enfrentar, refugiava-se no silêncio e no afastamento, criando dentro de si um mundo irreal, onde sempre se mantinha. As coisas passavam e ele não as via. Funcionário medíocre, fazia da sua vida uma constante mediocridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do nascimento de Clarisse, a sua vida como marido alterou-se por completo. A mulher tinha sofrido horrivelmente durante o parto, tendo a sua vida perigado. Fora uma luta titânica contra a morte que os médicos tiveram de travar para que ambas se salvassem, tudo porque ela teimava na recusa em cooperar no parto. Para a salvarem, a ela e à criança tiveram de operar em condições quase trágicas. Os médicos não conseguiram compreender o porquê de tudo aquilo, pois ela era uma mulher perfeitamente normal e poderia ter tido um parto extremamente simples. Ela culpou o marido desse sofrimento e não perdia nunca a oportunidade de lho lembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir desse dia, o seu corpo se fechou e as relações sexuais deixaram de existir naquele casal. Rondavam ambos os 38 anos quando se casaram. Três anos depois nasceu Clarisse. Não foi concebida num acto de amor, mas de um solitário relacionamento sexual. Uma vez por semana, sexta-feira, debaixo das roupas da cama que a tapavam até ao pescoço, ela erguia a espessa e grossa camisa de noite, fechava os olhos, braços estendidos ao longo do corpo, aguardava. O homem tirava o sexo do pijama e servia-se. Em rigoroso silêncio. Não lhe era permitido exteriorizar o prazer que sentia, se é que sentia algum. Uma vez no início, isso aconteceu. Um ligeiro gemido e um respirar mais pesado. Ela atirou com ele de cima de si, levantou-se num rompante da cama e, numa voz fria, chamou-lhe: Porco! Abandonou o quarto e foi dormir no sofá, na sala. No dia seguinte ela antecipou-se-lhe e fechou à chave a porta do quarto. Durante mais de um mês o pobre do homem dormiu na sala. Nem uma única vez as suas bocas se abriram para falarem sobre o incidente. Nunca mais ele gemeu de prazer. Tudo se desenrolava no mais absoluto siêncio, havendo mesmo o extremo cuidado para que a cama não rangesse.&lt;br /&gt;Durante anos, tentando desesperadamente compreender a mulher, ele foi-lhe fiel, sempre dominado pelo sentimento de culpa, embora bem lá no fundo ele não encontrasse razão alguma para a sua existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia conheceu uma mulher que lhe sorriu. Ele, timidamente, correspondeu ao sorriso. Tinha 40 anos e era divorciada. Encontraram-se algumas vezes e um dia ele ganhou coragem para a convidar para uma bebida. As palavras voam e os sentimentos descem. Ele falou. Falou como há muitos anos o não fazia. As palavras saíam em torrentes, imparáveis, as ideias claras, límpidas. Não era mais o funcionário medíocre. Ela escutava sempre sorrindo. Convidou-o a ir a casa dela. Recusou de início, com mêdo, sem saber exactamente de quê. Ela insistiu e ele acabou por aceitar. Tremia como um colegial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltaram a conversar até perderem a noção do tempo. Num dado momento, ela levantou-se, estendeu-lhe a mão e, muito baixinho, diz-lhe, vem! De mãos dadas, em silêncio caminharam para o quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem uma palavra, com o seu eterno sorriso nos lábios, muito lentamente, ela começou a despir-se. Ele tremia sem conseguir desviar os olhos daquele corpo perfeito a desnudar-se. Já nua permaneceu frente a ele para que a pudesse observar bem. O seu corpo era lindo e ela tinha orgulho nele. Sentiu-se feliz ao ver nos olhos dele uma profunda admiraçao, que não era mais do que uma singela e muito sentida homenagem à beleza do seu corpo. Foi ela que o ajudou a despir-se. Deixou-se cair em cima da cama e, estendendo-lhe uma mão, puxou-o para cima dela. De mansinho abriu-se e esperou. Muito lentamente a vida começou a agitar-se dentro dele e inebriado de felicidade penetrou-a. Ela soltou um fraco suspiro de prazer e torneou o corpo dele com as pernas e os braços. O sexo dele ganhou força e ele gritou. Gritou como até então nunca o fizera. Gritou de prazer, nunca sentido, de raiva tanto tempo contida, de imenso amor inexplorado. Pelas suas faces já sulcadas de umas quantas rugas, copiosamente, as lágrimas caíam-lhe, molhando o peito dela. Ele chorou durante todo o acto de amor e continuou a chorar mesmo depois do fim. Assim continuou durante longos minutos, em seus braços, sexo apaziguado ainda dentro dela, ouvindo, entre beijos, palavras sussurradas de amor e carinho.&lt;br /&gt;A partir desse dia, ele dividia a sua vida entre a filha e a companhia daquela mulher. No seu espirito começou a desenhar-se a vontade de partir e só a sua filha, o medo de a deixar só, nas mãos daquela mulher, o impedia. E ele passou longo tempo entre alguns momentos de vida nos braços de uma mulher de eterno sorriso e a morte gelada da sua casa sombria. Até que um dia, enquanto a mulher se encontrava na igreja, atirou com os poucos trapos que tinha para uma velha mala e partiu. Só muitos anos mais tarde que Clarisse soube dele. Trabalhava em electrónica, o seu sonho, e era um homem feliz. Deixara de ser um funcionário medíocre numa mediocridade de vida. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-112258276813420308?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/112258276813420308/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=112258276813420308' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/112258276813420308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/112258276813420308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/07/partida.html' title='A partida'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-112219786323994507</id><published>2005-07-24T10:34:00.000+01:00</published><updated>2005-07-24T10:40:10.433+01:00</updated><title type='text'>Explicar o inexplicável</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:lucida grande;font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Prometi&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; a mim própria não fazer juízos de valor sobre Clarisse. Creio que o fundo da questão não é saber se está errado ou certo. Ela foi envolvida por uma onda que, a par e passo, a vida nos arremessa. Clarisse foi, desde sempre, uma frustrada e nós não podemos saber a que paradoxismos uma frustração nos pode levar. Ela diz que alcançou uma liberdade interior com que jamais tinha sonhado. Se assim é, não vamos pôr em perigo essa liberdade com juízos subjectivos, ou expecular sentimentos que não vivemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A situação que enfrenta abala por completo os alicerces de uma mentalidade a que foi submetida durante toda a sua vida. Talvez por isso ela não consiga ver com clareza e objectividade o que se está a passar dentro de si e ao seu redor. Não existe apenas um choque psíquico mas também um forte abalo emocional físico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarisse tem a nossa idade e casou mais tarde do que qualquer uma de nós com um homem mais velho quinze anos, procurando encontrar nele a continuidade da protecção e do carinho que seu pai sempre lhe dedicara. No fundo, talvez Clarisse não quisesse um marido, mas um pai que estivesse afastado das influências fanaticamente beatas da mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se fosse só eu e o meu pai, eu seria uma rapariga muito feliz. - Desabafou ela centenas de vezes, quando éramos jovens. Sempre que o dizia olhava para o lado com medo que a mãe a pudesse ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrou no marido um homem já realizado e completamente absorvido pelos seus negócios, uma vida preenchida e dominada pela sua profissão. Um homem permanentemente ocupado, com a cabeça lotada de negócios, lucros, reuniões, trabalhando doze ou mais horas por dia, O casamento foi para ele mais um negócio bem sucedido. Ele tinha necessidade de uma mulher bonita, culta, que não fizesse má figura nas inúmeras recepções a que tinha de comparecer e que soubesse receber com a fina elegância da mulher de um homem tão importante. Nio lhe era permitido, na sua posição, ser solteiro. Não era bom para os negócios. Encontrou na Clarisse a mulher ideal para os fins em vista. Mais um negócio levado a efeito com êxito não esquecendo, claro, o respectivo lucro. Se a somar a tudo isto, ter a possibilidade de expor uma mulher bonita e, com isso, provocar inveja, podia afirmar que ganhara em todas as frentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada existe de extraordinário neste fenómeno familiar. Ele uma constante em casais pertencentes a um elevado extracto social, sobretudo quando este é mantido através de uma violenta actividade profissional do marido. Nasce e cresce o abandono. A participaçao da mulher confina-se a ser o elemento decorativo na promoção social do marido, a máscara da respeitabilidade que ele necessita. Que recebe em troca? Uma independência económica e a satisfaçao dos seus caprichos femininos. Um bom investimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cá fora, ele encontra sempre uma jovem bonita e fácil sempre pronta a fazer aquilo que as esposas recusam, ou o que eles pensam que assim será. É nesses breves encontros que conseguem a restituição do equilíbrio psíquico, saciado que foi o apetite sexual, pelo que, em casa, não sentem essa necessidade. Transformam toda a actividade amorosa no lar em esporádicos e fastidiosos cumprimentos do dever. Tudo isto tem fundamental importância no desenvolvimento de uma frustração profunda numa mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarisse, além da decepção já existir dentro de si, é uma mulher extremamente sensível, romântica e muito religiosa. Sempre o foi. Creio que ela se refugiava na religião por urna questão de fuga e não por sentida fé. Talvez por isso ela se tenha deixado sempre ultrapassar, mantendo-se à margem de tudo o que a vida nos oferecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deves estar recordada, minha querida Isabel, da tremenda tragédia no dia em que, pela primeira vez, lhe veio a menstruação. Em qualquer uma de nós isso já tinha acontecido e muito tínhamos conversado sobre isso, pelo que ela estava inteirada de como tudo se passava. É engraçado que até nisso ela foi atrasada. Santo Deus, que tragédia! Fomos nós que tivémos de a acalmar e tratar. Mas a sua verdadeira tragédia não era o acontecimente em si, mas o mêdo da mãe descobrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tu és doida, rapariga! A tua mãe é uma mulher e sabe muito bem o que isso é. Aliás ela já devia ter conversado contigo sobre este assunto. - Disse eu, achando estúpido e exagerado todo aquele pavor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não vou para casa! - Exclamou ela, entre lágrimas. Todo aquele terror era mesmo verdadeiro, não se tratava de nenhuma pieguice de menina histérica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso é a maior parvoíce que ouvi até hoje! - Tentava através de uma certa agressividade, fazê-la esquecer aquele mêdo. - Claro que vais para casa. Ninguém foge pelo simples facto de lhe vir a menstruação. Isso absolutamente natural e até devias ficar contente. Mas se queres, se isso te dá coragem, eu não me importo de te acompanhar a casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por favor! - Implorou. Senti pena dela, embora continuasse a não compreender a razão de todo aquele terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei fazer o meu melhor para conseguir que se acalmasse e acredita que não foi nada nada fácil, principalmente quando nos aproximávamos de casa. Ela tremia como varas verdes.&lt;br /&gt;Fui eu que tive de contar mãe o que se passava, pois ela não conseguiu abrir a boca. Escutou-me em silêncio. Principiava já a sentir-me incomodada, pois ela não falava nem se mexia. Sentada de costas muito direita, olhos fitos em frente, mais parecia uma estátua. E depois aquela quase escuridão da sala, a dar-nos uma sensação terrifica de um cenário de um filme de terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acabei de falar, esperei o que seria natural numa mãe: um gesto de carinho. Nada. Daquela mulher mumificada não saíu absolutamente nada. Nem um único som. Nem sequer os olhos se desviaram do vazio. Só ao fim de alguns segundos, que me pareceram uma eternidade, desviou os olhos para a filha, que se mantivera de cabeça baixa, encostada ao móvel escuro. Para mim não se dignou a olhar uma única vez. Numa voz metálica e rouca ao mesmo tempo, que me deixou gelada, tive a sensa ção que a voz lhe saía por entre os dentes, não da garganta. No seu rosto de mármore não se viu o mais pequeno sorriso, o mais leve sinal de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entras neste momento no mundo miserável da mulher. A partir de agora não és mais uma criança e, como tal, mais do que nunca terás de te proteger das diabólicas tentações do Diabo, se não queres ir parar às profundezas do inferno. O passo que deste foi, infelizmente, contra a minha vontade, mas não se pode contrariar as leis da natureza. Deus as criou para nos colocar à prova e a elas nos devemos submeter com a devida humildade e resignação. Em cada segundo da nossa vida de pecadoras devemos erguer os olhos ao céu e elevar o nosso coração numa permanente oração para que Ele nos perdoe e nos dê as forças necessárias para derrotarmos as tentações demoníacas, em Sua honra e glória. Àmanhã vais comigo à Igreja da Nossa Senhora do Sagrado coração para que o senhor padre te ouça em confissão e te dê a penitência devida, não só pelo que agora aconteceu em ti, como para te livrar de maus pensamentos. Falarei logo com o teu pai para que arranje uma pessoa de extrema confiança para te levar e trazer do liceu. É nosso dever como cristãos devotos e como pais proteger os nossos filhos das maldades dos homens, e das más companhias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive a sensação que a última frase era mais dirigida a mim do que á filha. Em que século é que o estupor da velha pensava que vivia? Senti uma enorme vontade de lhe dizer das quentes e boas, mas quem iria sofrer seria a Clarisse e resolvi manter-me calada, com bastante sacrifício diga-se. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-112219786323994507?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/112219786323994507/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=112219786323994507' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/112219786323994507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/112219786323994507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/07/explicar-o-inexplicvel.html' title='Explicar o inexplicável'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-112163189050701465</id><published>2005-07-17T21:23:00.000+01:00</published><updated>2005-07-17T21:24:50.520+01:00</updated><title type='text'>A conversa final</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;- Jesus&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;! Como tu estás! Sentes-te mal? — Não tive tempo de responder. Vomitei ali mesmo.&lt;br /&gt;Para que me pudesse recompor, caminhámos durante algum tempo ao ar livre. Quando, finalmente, entrei no carro, eu quase não tinha forças para conduzir. Seguimos em silêncio cada uma de nós mergulhada nos mais desencontrados pensamentos. Zita sugeriu que fossemos tomar um chá.&lt;br /&gt;- Foi terrível, não foi? - Comentou a minha filha, enquanto lentamente sorviamos o chá aromático. Nunca este me soube tão bem como naquele momento. - Felizmente que aquele é o único caso grave que temos.&lt;br /&gt;- Mas porque não o levam para o hospital? Ele vai morrer ali.&lt;br /&gt;- Esta a fazer todos os possíveis para o salvar. Ele recusa-se em ir para o hospital. Se o levássemos força, além de se tornar ainda mais difícil salvá-lo não conseguiríamos uma eficaz desabituaçao, sobretudo psicológica.&lt;br /&gt;- Meu Deus, mas no meio de toda aquela imundíde, ele não tem hipótese alguma de se salvar!&lt;br /&gt;- Nós estamos a tentar. Aquilo que lhe levei é morfina, mas preparada. Ele não deixa que nenhum médico se aproxime, mas nós estamos a tratá-lo com a ajuda de especialistas. Não tem sido nada fácil, porque ele recusa tudo que não seja a sua dose. Ele não sabe mas as doses que lhe damos são cada vez mais fracas e com substitutos. Mas é impossível como será o dia de amanhã. Lutamos, mas tenho receio que não exista futuro.&lt;br /&gt;- Mas o rapaz não tem família?&lt;br /&gt;- Tem, mas também se recusa a recebê-la. Tem perfeita consciência do estado em que se encontra e tem vergonha. Ou raiva, ainda não tenho a certeza. Nós conseguimos convencer os pais a manterem-se afastados. Qualquer alteração emocional pode-lhe ser fatal.&lt;br /&gt;- Que idade tem ele?&lt;br /&gt;- A minha idade. É muito jovem. Não levou um ano a chegar àquele estado. Começou no haxixe e passou rapidamente para as pesadas. Nós trazíamo-lo vigiado e quando ele deixou de aparecer, nao foi difícil descobri-lo. Aquela cave tem sido o lugar onde alguns grupos de jovens se refugiam. Do grupo, o Berto é o único que ainda não conseguimos recuperar. Três deles estão internados num centro de recuperaçao e os outros quatro frequentam a consulta externa. O Alberto tem-nos escapado sempre. Eu creio que sei das razões que o levam a afundar-se cada vez mais. Simplesmente não consegui ainda entrar dentro dele, fazer uma profunda análise das razões que o levam à recusa. Ele sabe perfeitamente que está a auto-destruir, sabe que não tem hipóteses de salvação se se mantiver numa recusa sistemática de internamento. Nós podemos eliminar a dependência física através de uma diminuição gradual das doses, mas isso não significa que o salvemos. Tem de ser desenvolvido um profundo trabalho de no campo psicológico para que seja ele próprio a expulsar a necessidade psíquica. É um trabalho que sócom a colaboração activa e voluntária dele se pode realizar. O psicólogo nada pode fazer se o doente não ajudar. Sem isso nada feito.&lt;br /&gt;- Ainda me custa a acreditar! Tao jovem ainda!&lt;br /&gt;- Sabes o que que me apetecia fazer? Era passeá-lo por todas as ruas desta cidade, por todas as cidades deste país. Ir a todas as escolas, a todas as fábricas, a todo o lado e colocá-lo frente dos olhos de toda a gente e principalmente em cima das secretárias dos ministros. Isto é uma luta terrível que não pode ser travada por pequenos grupos isolados. Não apenas. Chego muitas vezes a ficar desesperada de tanto remar contra a maré.&lt;br /&gt;- Até dá a impressão que não há interesse em acabar com a droga! – Disse eu, num desabafo.&lt;br /&gt;- Não é impressão, é certeza! As fontes de receita que a droga proporciona são incalculáveis. Quem é que pode ter interesse em acabar com uma tão fabulosa mina de oiro?&lt;br /&gt;- Também não devemos ser assim tao radicais, O governo não se tem poupado a esforços para tentar debelar este flagelo. E isto não apenas no nosso País. – Respondi eu com uma enorme e santa ingenuidade.&lt;br /&gt;- Estás a brincar comigo? Não vou dizer que seja uma tarefa de fácil controlo, assim como seria utópico pensar na eliminaçao pura e simples do tráfico de estupefacientes. Ninguém é tão ingénuo assim. Simplesmente nós temos perfeita consciência que nada de sério e profundo é levado a cabo. Os tipos que estão metidos neste negócio são indivíduos com um extraordinário poder económico e fabulosamente imaginativos. Lutam com muitas armas e a que mais utilizam por ser, no fundo, a mais barata e fácil, é a corrupção. A corrupção, mãe, existe em todo o lado. Ela faz parte integrante do género humano. Todos nós temos um preço. Esta é a verdade. Não existem excepções em parte alguma. Quantos são os que estão neste momento na prisão. Nem sequer a arraia miúda, os paus mandados, aquecem o lugar. Todos sabemos o que é a política e o que são os políticos. Actualmente ninguém tem tempo para ser idealista, e na política todos os meios são bons. Até o fechar de olhos. Até a abertura de uma conta bancária. O importante mesmo é a caça ao voto e isso custa dinheiro.&lt;br /&gt;- Há políticos honestos.&lt;br /&gt;- Claro que sim. Indique-me um.&lt;br /&gt;- És demasiado pessimista.&lt;br /&gt;- Não, mãe, sou apenas realista e não vejo apenas aquilo que eles querem que eu veja. Houve um tempo que era assim, mas os tempos mudaram e nós evoluímos. Uma evolução bem contrária do gosto da maioria dos nossos políticos, que gostariam muito mais de nos verem a aplaudir de boca aberta e olhos fechados. Nós já não acreditamos em ídolos nem em super-homens.&lt;br /&gt;- Deixemos a política para eles. - Disse eu, tentando mudar o rumo da conversa.&lt;br /&gt;- Isso foi o que nós fizemos durante muitos anos. Eles sempre falaram por nós e, em boa verdade, ainda hoje continuam a tentar fazê-lo. As guerras que existem por esse mundo fora, foram os políticos que as fizeram em nome do povo, repara bem, em nome do povo, mas sem que o povo tivesse manifestado uma única vez a sua opiniao.&lt;br /&gt;- Não sabia que tinha uma filha comunista.&lt;br /&gt;- Só me faltava ouvir esta! Comunista? Comunista porquê? Porque falei no povo? Meu Deus, mas isso é o que nós somos! Todos nós. Haverá alguém melhor do que nós mesmos para falarmos dos nossos próprios interersses? O ser-se pela justiça social, pela paz, pelo amor, pela liberdade, pela cultura, pela igualdade entre homens e mulheres, é ser comunista? Não sou comunista, mas estou cansada da justiça do funil.&lt;br /&gt;Não me atemoriza discutir política, mas confesso que ela nunca foi do meu agrado. Sempre a considerei demasiado falsa, demasiado febril. Este divórcio talvez se deva a um certo desencanto, a um sentimento de impotência perante aquilo que nos dizem e aquilo que é feito. Os políticos lutam pelo poder e depois lutam para o manter. Como é que eles vão ter tempo para cumprirem o que prometeram? Esta realidade temo-la nós à frente dos olhos, todos os dias e continuamos a não querer vê-la. Depois foram muitos anos de forçada ignorância.Ora, desculpas esfarrapadas, eu sei, minha boa amiga.&lt;br /&gt;A luta contra a droga é uma luta titânica e, muitas vezes, inglória. Quando uma doença se transforma em fonte de lucro é quase impossível a sua cura. De qualquer maneira, naquele preciso momento decidi entrar na luta. Não sei o que vou fazer ou o que posso fazer, mas sei que tenho de fazer qualquer coisa. Disso eu tenho a certeza. A imagem daquele farrapo humano não me sai do pensamento.&lt;br /&gt;Minha boa amiga, foi colocada perante os meus olhos uma nova visão da vida, que me fez envergonhar da minha condição de burguesa cómoda e egoísta. Nunca, até hoje, tive consciência do vazio da minha vida. Pela mão de minha filha aprendi um novo conceito de sociedade. Uma sociedade furiosamente indiferente e cega a tudo que possa ameaçar a rítmica ondulação da sua existência e dos valores por ela defendidos. Ela precisa do indivíduo para se firmar e manter, explora-lhe as fraquezas e aproveita-se das qualidades, mas nao o considera nunca como tal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-112163189050701465?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/112163189050701465/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=112163189050701465' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/112163189050701465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/112163189050701465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/07/conversa-final.html' title='A conversa final'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111886949423785511</id><published>2005-06-15T21:56:00.000+01:00</published><updated>2005-06-15T22:06:18.016+01:00</updated><title type='text'>Descida aos infernos</title><content type='html'>- &lt;span style="font-family:lucida grande;font-size:180%;color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;C&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;ovardia? Será que os loucos internados no manicómio são covardes? Não, mãe, os drogados não são covardes. Doentes. São apenas doentes que precisam de tratamento. Não podemos fazer uma análise tão superficial do problema. Seria simples de mais e extremamente cómodo dividir a humanidade em heróis e covardes. No fundo talvez seja isso que se pretenda. Encontramo-nos inseridos numa sociedade extremamente exigente, fazendo com que a nossa capacidade de resposta se esgote muitas vezes. Se uns têm acesso a fontes de reabastecimento temos de reconhecer que o mesmo não acontece com muitos outros. Quando um jovem, de repente, descobre que não tem qualquer objectivo, que sente o chão a fu gir-lhe debaixo dos pés e, o que é mais grave, ao olhar em volta depara com uma sociedade decadente e egoísta, nada mais lhe res ta do que refugiar-se num mundo de ilusão onde ele tem a certeza de que todas as suas dúvidas e problemas se irão dissipar numa onda de prazer. Quando, ao tentarem o diálogo com os pais estes ou não se encontram em casa ou se estão é sem paciência para os escutar, ou então a discutirem enntre si, que lhes resta? Não tem sido nada fácil o nosso trabalho. São muitas as frentes de luta e qual delas a mais difícil!... Não se trata apenas de recuperar um drogado, é preciso também tentar eliminar a ignorância dos pais. O nosso pequeno grupo é ajudado por professores, médicos e psicólogos, mas só recorremos a eles quando os nossos amigos assim o desejam. Quando tal acontece é sinal que o nosso esforço foi recompensado, pois se inicia o percurso final na recuperação. Inicialmente procuro interessá-los pelos estudos e faço com que participem no máximo de actividades desportivas. Depois procuro falar com os pais, tentando obter deles uma racional colaboração. Aliás é aí que se desenvolve com mais intensidade a minha actividade. Esta experiência tem-me ensinado o quanto é difícil dialogar com os mais velhos. É como se de repente eles erguessem uma muralha na defesa das suas posições de mais velhos. É visível o medo que sentem em perderem uma cómoda estabilidade, embora falsa, que a idade, e só isso, lhes concedeu. Depois vem a recusa, cega e irracional. Impossível acontecer-lhes! Aos seus filhos nunca! Essas coisas só acontecem aos filhos dos outros! São sempre agressivos no início, mas depois acabam por se acalmarem e perguntam porquê. Colocam-me à frente dos olhos as suas consciências puras. Jesus Cristo, nós fizemos tudo, nunca lhe faltou nada. Depois vem o ataque de paradoxismo, para se seguirem as ameaças de morte, pancada e cadeia. Só depois de acusarem meio mundo e tentarem destruir o outro meio é que ganham a calma necessária para me ouvirem e reconhecerem que não é nada disso que se pretende. Na generalidade acabam todos por colaborarem connosco, embora com uma certa dificuldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuámos a conversar durante horas. A redescoberta que eu fazia de minha filha enchia-me de felicidade. Sentia-me possuída por uma gigantesca onda de ternura e a minha vontade era cobri-la de beijos. Meu Deus, como a amava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós estamos sendo absorvidos por uma onda de insegurança colectiva. Ninguém sabe o que lhe vai acontecer no dia de amanhã. Se nós, os mais velhos, tentamos lutar contra essa insegurança com as armas que a experiência dos anos nos deu; um jovem, por desarmado, facilmente poderá sucumbir a qualquer um dos infindáveis ardis que os chacais dos lucros tão habilidosamente tecem. Nao é fácil resistir à promessa de um mundo maravilhoso. A curiosidade cresce, a experiência nasce, a prova é feita e são perdidas as forças para retroceder caminho. Quando a consciência atira com um grito de alerta já é tarde demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois daquela conversa, eu ofereci-me para a ajudar em tudo o que fosse preciso e de que eu fosse capaz. A minha filha sorriu-me, respondendo-me que teria nisso muito prazer. Seria uma maneira de colocar à prova a minha coragem. Só mais tarde é que compreendi o que ela queria dizer com aquilo. Santo Deus, como é possível que um ser humano possa descer tanto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não podes imaginar, querida amiga, o pavoroso espectáculo que se oferece aos nossos olhos, um jovem, que nem disso temos a certeza, deitado numa imunda enxerga, sem forças sequer para abrir os olhos, o corpo sacudido por espasmos, gemendo por mais uma dose. Uma dose que tem de lhe ser administrada senão ele sofrerá dores horríveis. Terrível, simplesmente terrivel!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zita levou-me à cave de um prédio a ameaçar ruína. O cheiro a urina e a excrementos era tão forte que, logo que entrámos, senti-me agoniada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Respira devagar que logo te habituas. – Disse minha filha. - A alfazema não chega a todo o lado.&lt;br /&gt;- Naquele instante não liguei à ironia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mora aqui muita gente? - Perguntei, tapando a boca e o nariz com um lenço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Várias famílias em cada andar. É um prédio degradado. Não existem esgotos, nem qualquer espécie de instalações sanitárias, nem luz eléctrica. As pessoas fazem as suas necessidades em baldes que despejam num baldio aqui perto. Isto que aqui vês é a outra face da medalha, aquela que toda a gente burguesa procura não ver. Mas ela existe e vai continuar a existir enquanto o egoísmo for maioritário na terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Afinal que viémos aqui fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vim trazer a dose do Alberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como?!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Depois de sairmos conto tudo. Agora peço-te que permaneças calada e quieta, vejas o que vires. Observa apenas e faz todos os possiveis para que a tua presença se não faça notada. É muito importante. É preciso que ele se mantenha calmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descemos por umas escadas escuras com cuidado para não escorregarmos na porcaria pegajosa de cada degrau. O cheiro era nauseabundo. Entramos num pequeno cubículo, onde a luz do dia mal entrava por uma pequena janela de vidros partidos. No principio no consegui ver nada, de tão escuro. Depois, já habituada, vi a um canto, a forma encolhida de um corpo, deitado numa enxerga. Não se moveu quando entramos e eu fiquei com a certeza que estava morto. Minha filha aproximou-se, ajoelhando-se junto do vulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Berto... Berto, sou eu, a Zita. - Eu quase a não consegui ouvir de tão baixinho ela falou. Daquela forma escura saiu uma espécie de estertor. - Queres agora? Eu preparo-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zita afastou-se um pouco e procurou algo junto da enxerga. Da sua bolsa tirou um frasco. Quando a vi com uma seringa na mão estremeci. Com uma calma impressionante, espetou a agulha na borracha do frasco e extraiu uma pequena quantidade de liquido esbranquiçado. Premiu o êmbolo e tirou o ar da seringa. Ajoelhou-se novamente e estendeu-a ao vulto. Adivinhei mais do que vi, ele mexer-se e uma mão esquelética agarrar na seringa. Quando ele se virou, levei a mâo à boca para abafar um grito de horror, ao mesmo tempo que mordia nos lábios até os sentir sangrar. Aquilo não era um rosto de um ser humano, quanto mais de um jovem! Indescritível, minha que querida amiga, indescritível! Os olhos encovados e sem vida, os ossos espetados na pele de uma cor violácea. Horroroso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto ele, com a mão trémula, segurava a seringa, Zita levantou-lhe a manga da camisola, deixando ver aquilo que outrora fora um braço de um jovem. Desde o punho e até onde a camisola permitia ver, era tudo uma autêntica chaga, coberta de crostas. O pobre desgraçado tentava espetar a seringa, mas ela resvalava na dureza das crostas. Aquilo devia-lhe provocar dores horríveis. Começou a gemer de desespero por não conseguir encontrar um milímetro para espetar a agulha. Num movimento de raiva lá conseguiu que ela penetrasse através da chaga endurecida. Não conseguiu ver bem, mas creio que ele entortou a agulha. Muito lentamente começou a premir o êmbolo e injectou todo o líquido que estava na seringa. Foi Zita que lha retirou do braço pois ele já não teve forças para o fazer. A viagem tinha começado. Ela tapou-o com o cobertor imundo. Levantou-se, olhando-o com infinita tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos. – Disse-me. - Já não fazemos aqui nada. Dentro de algumas horas, virá outra pessoa dar-lhe mais uma dose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não respirei até que alcancei a rua e sentir o sol da primavera aquecer-me os ossos. Eu tinha acabado de regressar do inferno. Se existe inferno, tenho a certeza que devera ser exactamente como aquilo. Eu devia estar de uma palidez cadavérica.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111886949423785511?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111886949423785511/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111886949423785511' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111886949423785511'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111886949423785511'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/06/descida-aos-infernos.html' title='Descida aos infernos'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111817842526633422</id><published>2005-06-07T22:05:00.000+01:00</published><updated>2005-06-07T22:07:05.276+01:00</updated><title type='text'>A procura continua</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:180%;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Que&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; podia eu dizer? A conversa levara um rumo com o qual eu não contara. Senti-me esmagada pela lógica calma dela, mas ao mesmo tempo feliz por tal acontecer. Ao ouvi-la senti dentro de mim uma onda de orgulho. Tive a certeza que não havia razão para sentimentos de culpa. A minha missão de mãe e educadora não fora um fracasso. Foi exactamente isso que lho confessei. Ela sorriu e atirou-se para os meus braços. Durante largos minutos ficamos as duas abraçadas, chorando e rindo ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tu és uma tonta, mãe! Todas as mães são umas tontas quando perdem a confiança nos filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Adoro-te, minha querida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Também eu te adoro, apesar de me sentir um pouco desgostosa. Eu não merecia essa tua falta de confiança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Perdoa-me, minha querida. Não quero justificar-me, mas tenta colocar-te por um momento no meu lugar. Não é fácil a uma mãe admitir que tenha errado, em relação aos filhos. Por vezes é tão difícil compreender os jovens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Apenas porque vocês já esqueceram o tempo da vossa juventude. Das vossas incertezas e frustrações. Nem sempre o fosso que existe entre as gerações é cavado pelos jovens. A insegurança é uma coisa terrível, mãe, e ela não existe apenas em nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diz-me, querida…tu não... quer dizer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fala, mãe. Queres saber se eu me drogo? Descansa a tua consciência que eu não me drogo. Não me drogo nem nunca me droguei. Mas posso dizer-te que sou quase uma perita em estupefacientes. Pertenço a um grupo de estudantes que resolveu iniciar uma campanha activa anti-droga. Tentamos recuperar aqueles cuja recuperação ainda é possivel. Tem sido um trabalho árduo, muito difícil, mas que me tem apaixonado vivamente. Têm sido experiências terríveis as que tenho vivido nestes últimos meses. Odeio a droga, mãe! Odeio-a com todas as forças da minha alma! É inimaginável a degradação física e moral a que a viciação pode levar. Gostaria que tudos pudessem ver com os seus próprios olhos o estado a que um ser humano pode chegar por causa da droga. Tem sido um trabalho terrível, um desafio constante.&lt;br /&gt;Inebriada de felicidade, esquecida da razão principal daquela conversa, mas com uma pontinha de remorso no coração, eu escutava com religiosa atenção. Sentia-me orgulhosa de ser mãe daquela maravilhosa criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela falava com quente entusiasmo. Com todo aquele entusiasmo tão habitual nela, que sempre imprime em tudo o que faz. Enquanto existirem jovens como ela a esperança de um mundo melhor continuará acesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A vida, mãe, não é aquilo que nós vimos no nosso vai e vém quotidiano, rápido e rotineiro. A vida não é apenas o desabrochar de uma flor, o sorriso simpático, uma ida ao cinema ou o conforto da nossa casa. A vida, mãe, também é o chafurdar na merda, de que nós, burgueses perfumados procuramos sempre nos afastar. Eu mergulhei nesses excrementos da vida até ao pescoço. Vomitei muitas vezes. Ainda hoje, sempre que tenho de enfrentar a podre realidade me sinto agoniada. Todas as vezes que submerjo das catacumbas da degradante miséria em que esses jovens vivem, ou, se preferires, se encontram, eu sinto uma raiva muito forte cá dentro. Lá em baixo, tento deitar cá para fora todo o amor de que sou capaz e com tal intensidade o faço que, quando regresso à superfície venho completamente vazia, esgotada, com uma única excepção: o ódio. É verdade, o ódio ressurge com toda a sua violência e força. Ódio por toda esta desumanização em que todos nós nos encontramos. Pela nossa indiferença, pela nossa falta de amor. Já não somos humanos, somos umas bestas a quem alguém afivelou a canga do egoísmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não somos tão desumanos assim. A acção que desenvolves é prova evidente do contrário. Não pretendo culpar nem desculpar ninguém mas parece-me que não podemos arcar com as culpas pela covardia de uns quantos. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111817842526633422?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111817842526633422/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111817842526633422' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111817842526633422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111817842526633422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/06/procura-continua.html' title='A procura continua'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111645018839344677</id><published>2005-05-18T21:59:00.000+01:00</published><updated>2005-05-18T22:03:08.403+01:00</updated><title type='text'>Onde está a verdade?</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:lucida grande;font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;presso-me a escrever-te, minha querida Teresa, para dissipar da tua mente tão tristes e desesperadas palavras que, num momento de angústia terrível, escrevi na última carta. Durante alguns dias vivi as torturas do inferno, para fui atirada por um sentimento de impotência. É muito importante que experimentermos uma sensação de perda para darmos valor ao que possuÍmos. A felicidade que voltou a brilhar dentro desta casa é bem mais quente e reconfortante. Creio mesmo que mais autêntica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi boa, apesar de tudo, a experiência que vivi nestes dias, pois ela ensinou-me que apesar das lições adquiridas ao longo dos anos e que enriquecem o nosso saber continuamos pobres e sem nada conhecer. É quase patética a nossa ignorância perante problemas que nos atingem directamente. Acho óptimo que tomemos essa consciência para que o nosso espírito se encontre sempre receptivo a todas as lições que o nosso quotidiano nos oferece. E tantas elas são sem que disso nos apercebamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como um pintor maquiavélico, eu pintei na minha mente, derrotismos e tragédias sem fim, sem que utilizasse um pouco que fosse as cores do raciocínio, da objectividade e da ponderação, cores que um adulto tem por obrigação sempre utilizar. O resultado foi um absoluto descontrole psíquico. Não foi fácil convencer-me que tinha de tomar urna acção, fosse ela qual fosse. Houve momentos em que pensei fazer de conta de que nada sabia. Que tremenda covardia de que hoje me envergonho. Era da minha filha que se tratava, da sua saúde e até da sua vida. E eu para ali deixando-me dominar por congeminações trágicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte ao ter-te escrito, logo que ela chegou do liceu, chamei-a e fechámo-nos no escritório. Durante todo o dia eu tinha ensaiado o que lhe havia de dizer. Agora, que a tinha ali minha frente, com um sorriso nos lábios, eu não sabia sequer como começar. Olhei-a demoradamente num exame atento. Além da sua irradiosa beleza eu nada via. Não era possível que aqueles lindos olhos cheios de vida perdessem um dia a sua luz. Que o seu corpo esbelto e feminino fosse definhando até se transformar num esqueleto. Era difícil, ao olhar para ela, acreditar que se estivesse a destruir com a maldita droga. Impossível! Pensei em desistir. Um sentimento que sempre me assaltava quando iniciava a tradução de um autor desconhecido e de prosa complicada. No fim, o livro acabava sempre de ser entregue à editora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Passa-se alguma coisa de grave, mãe? - Notei que ela estava a ficar um pouco inquieta, ao ver-me olhar para si sem dizer palavra. Respirei fundo e ganhei coragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espero bem que não, filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso então perguntar para que é toda esta solenidade? Estou a começar a ficar assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vejo, por enquanto, razões para isso. Apenas preciso de ter uma conversa muito séria contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já não a tivemos quando fiz onze anos? -Disse ela, tentando brincar. Se desconfiava de alguma coisa não o demonstrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não se trata disso. Sobre esse assunto creio ter-te dado todos os esclarecimentos necessários. Seria absurdo ir repetir tudo com a tua idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Continuo sem compreender o que se passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dá-me tempo. Já deves ter percebido que não está a ser nada fácil para mim esta conversa. Nem mesmo sei por onde começar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É a primeira vez que te vejo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Também é a primeira vez que estou perante um problema destes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que, com toda a franqueza, eu não faço a mínima ideia de qual seja, embora sinta que estou envolvida nele. Parece-me importante dizeres já o que se passa. Nós sempre fomos muito directas uma com a outra. Porque não o és agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que fiquei impressionada com a sua calma e com a sua determinação. Ou ela continuava a não desconfiar de nada, o que a fazia inocente; ou então representava como uma actriz consumada. De acordo com as minhas leituras, sobre esta matéria, os drogados têm uma tendência nata para a mentira, raras vezes reconhecem que se drogam, isto devido a um tremendo sentimento de culpa com que jamais se identificam. Têm perfeita consciéncia da marginalizaçao que, infelizmente, lhes é imposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tomei conhecimento que acompanhas um grupo de jovens drogados. - Aguardei quase sem respirar. Fitei-a numa angustiante espectativa. Ela olhou para mim, de olhos muito abertos, com o espanto estampado no rosto. Respirou fundo várias vezes, antes de me responder. Depois, com toda a calma, vincando bem cada palavra, respondeu-me. À minha frente eu não tinha mais uma jovem adolescente. Era uma mulher adulta, magoada, que me falava. Senti-me horrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que queres, na verdade, saber é se me drogo. Agora compreendo a tua estranha atitude nestes últimos dias. Lamento, mãe, a tua falta de coragem e, ainda mais, a tua falta de confiança; não apenas em mim, mas em ti própria. Tanto uma como outra me surpreende e me desgosta. Tens sido para mim um exemplo de coragem, exemplo que tenho procurado seguir. Poucos filhos se podem gabar disso. Desde criança que sinto ter da tua parte uma grande confiança e tenho procurado, em cada um dos meus actos, não atraiçoar nunca essa confiança. E acredita que não é apenas por ti que o faço, mas também por mim própria, pela minha própria dignidade. Tu sabes isso perfeitamente. Pergunto, mãe, de que é que tu te culpas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Culpo-me de quê? – Senti-me estúpida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Presumo que tenhas lido muito sobre a droga. Deves, pois, saber que quando um jovem se droga, o pode fazer por duas razões: curiosidade ou agressão. Estas duas causas estão tao ligadas que muitas vezes é bem difícil saber qual foi a primeira. Mas, partindo do princípio que a curiosidade é o primeiro passo, fica apenas a agressão. Assim sendo eu pergunto quais as razões que tu pensas que me levaram a agredir-te?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pretendes atirar para cima dos pais a culpa dos filhos se auto destruirem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não pretendo coisa alguma! Mas não posso deixar de te dizer que ninguém é inocente, O que eu pretendo é que raciociones como uma pessoa inteligente que és. As dúvidas que tens são tuas, nasceram em ti e és tu que terás de as esclarecer. Sabes perfeitamente que cresceu dentro de ti um sentimento de culpa, para o qual não encontras justificação. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111645018839344677?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111645018839344677/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111645018839344677' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111645018839344677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111645018839344677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/05/onde-est-verdade.html' title='Onde está a verdade?'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111558378114041423</id><published>2005-05-08T21:20:00.000+01:00</published><updated>2005-05-08T21:23:01.146+01:00</updated><title type='text'>A dúvida</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;Perdi&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; completamente a noção do tempo a olhar para esta folha de papel, sem saber o que escrever. Não sou mulher de perder facilmente o controle, mas confesso que me encontro absolutamente aterrorizada. Não sei o que pensar nem o que fazer. É como se de repente tivesse ficado com a cabeça completamente vazia, como se tudo tivesse perdido o sentido, como se à minha volta o mundo se desmoronasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginei muitas vezes como é que eu reagiria em determinadas situações, se elas um dia me viessem a acontecer. Agora aconteceu e eu não sei como reagir. Mas o melhor, minha boa amiga, será contar-te o que se está a passar no reduto que eu pensava protegido e inexpugnável.&lt;br /&gt;Descobri, por um mero acaso, que a minha filha acompanha um grupo de jovens, publicamente conhecidos como drogados. Desconheço em absoluto se ela também se droga ou não. Deves imaginar a aflição em que me encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho lido exaustivamente tudo o que existe sobre o assunto, na tentativa de encontrar o meio mais adequado para resolver esta infeliz e desgraçada situação. Disfarçadamente vou analisando-a, a ver se descubro algum indício que me indique se ela também se droga, ao mesmo tempo cheia de terror pela descoberta. Até agora ainda nada consegui descobrir. Continua a ser a mesma jovem de sempre, alegre, jovial, consciente e, o que eu considero importante, comendo com apetite. Continua a agir dentro da máxima normalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha dúvida é se devo ou não falar-lhe. Sempre existiu entre nós um relacionamento baseado na confiança e, até hoje, nunca tive razão alguma para duvidar dessa confiança. Tenho medo de a destruir com uma irreflectida acção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é verdade que ela mergulhou no mundo da droga, o que interessa descobrir é o porquê. Pode muito bem ser que tenha sido curiosidade a razão que a tenha levado a experimentar novas sensações e que haja um recuo a tempo. Neste caso se eu lhe falar, trairia uma confiança que ela pensa que existe da minha parte e ver-me-ia como um polícia a vigiar os seus movimentos. Por outro lado pode ser um pretexto de fuga e então o retrocesso será extremamente difícil. Mas fuga a quê? Errámos onde? Não sei o que pensar. É muito difícil a nós, pais, reconhecer os erros que cometemos com os nossos filhos. Céus, quanto somos eruditos quando nos encontramos fora dos problemas, ou quando se trata de resolver os dos outros! Que simples que tudo é então. E depois esta sensação de assumir uma culpa que, bem no meu íntimo, sei que não existe razão para tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei em falar com o meu marido, ruas tenho receio de estar a empolar algo que na realidade talvez nao exista. Talvez seja efeitos de uma super protecçao mal dominada a influenciar todo o meu raciocínio. O melhor talvez seja investigar um pouco mais e fazer aquilo que, neste momento, eu mais receio: ter uma conversa com ela. Tenho de vencer uma distância que eu pensava não existir e que foi criada por mim própria. Santo Deus, como tudo isto terrível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre procurei aceitar todas as loucuras que uma juventude sedenta de viver e de participar possa fazer. A vida é curta e terrivelmente difícil e a juventude esfuma-se a uma velocidade incrível. Quando menos nos apercebemos estamos cansados, desiludidos e fartos de tudo. A juventude tem de viver a sua vida, fazer asneiras, ganhar experiência mas o que eu não posso aceitar é que ela se auto destrua diante da nossa própria indeferença. O futuro da humanidade depende deles e o que acontecerá se apenas a podridão e a morte subsistirem? Sei bem que, apesar de tudo, a droga existe numa minoria, só que, de dia para dia, ela cresce, sem que ninguém consiga pôr cobro a uma tal situação. Existe como que uma apatia colectiva a este dramático cancro social. É uma coisa que sempre acontece aos filhos dos outros. Como se pode ser tão estúpido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, os pais, não somos totalmente inocentes. A vida que levamos, a permanente falta de tempo, os nervos sempre à flor de pele, a nossa fuga ao diálogo, a nossa covardia em enfrentarmos uma juventude evoluída sedenta de amor, afasta-nos dos nossos filhos, transformando-os nuns desconhecidos que vivem em nossa casa e a quem pontualmente damos a mesada; o pagamento da nossa paz. As barreiras surgem, crescem e deixamos de falar a mesma linguagem.&lt;br /&gt;Não quero ser derrotista, mas confesso que é exactamente assim que eu me estou sentindo. Uma sensaçao muito desagradável. Só que eu não posso ficar indiferente a ver a minha filha, tão jovem e bonita, a caminhar a passos largos para a destruição. Preferia vê-la na rua, transformada na mais reles prostituta, do que... Oh, meu Deus, mas que digo eu!! Já não consigo raciocinar direito. A minha impotência faz-me sentir miserável. Tenho de fazer alguma coisa, seja lá o que for. Tem de haver alguma coisa que eu possa fazer para salvar a minha filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desculpa minha boa amiga, mas nao consigo continuar a escrever. Sinto as forças a faltarem-me. É urgente que resolva esta situação antes que seja tarde demais. Não vou esperar mais tempo; hoje mesmo falarei oom ela, e seja o que Deus quizer. Reza por mim, minha boa amiga. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111558378114041423?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111558378114041423/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111558378114041423' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111558378114041423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111558378114041423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/05/dvida.html' title='A dúvida'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111496906056205874</id><published>2005-05-01T18:35:00.000+01:00</published><updated>2005-05-05T17:20:16.220+01:00</updated><title type='text'>Padre Mateus</title><content type='html'>- Uma exposição brilhante de um não menos brilhante naturalista, o que muito lhe agradeço. Simplesmente, minha filha, isso é, em todo caso, uma definição, digamos, clínica. Devemos é associar a virgindade a uma situação moral. Uma moral que deve despertar a nossa atenção. É óbvio que não vou refutar a conclusão de Cuvier, por si só irrefutável, mas psicologicamente, toda a sociedade, cujas regras e princípios temos por obrigação respeitar, associa, com muita verdade, diga-se, a falta da virgindade à existência de uma grande dose de libertinagem e devassidão.&lt;br /&gt;- Lá vem o senhor com extremismos! A que sociedade o senhor se refere? À sociedade machista? Quando essas regras foram impostas, a mulher foi ouvida? Não, padre Mateus, a virgindade não é sinónimo de libertinagem; ela não é mais do que uma forma de obrigar a mulher a praticar a dissimulação e a hipocrisia. Ser forçada a fingir, a mentir, a ter que se rebaixar a um ardil. Estes são os resultados do preconceito da virgindade. Não seria muito mais importante, mais moral e sadio, que os homens, em vez de darem tanta importância a um tão infimo pormenor anatómico, se preocupassem mais com as qualidades que dão valor à mulher, como ser humano?&lt;br /&gt;- E não estarão essas qualidades implícitas?&lt;br /&gt;- Não brinque, padre Mateus! À mulher pode-se exigir uma rigorosa castidade até ao casamento, mas ninguém faz o mesmo ao homem.&lt;br /&gt;- Creio que já estou velho demais para compreender essas suas teorias revolucionárias. A minha querida amiga pretende apenas destruir os sagrados alicerces da família, simplesmente eu sei que não sente realmente o que diz. Quer apenas confundir um pobre velho padre. É jovem e a juventude sempre gostou de irritar os mais velhos. No fundo uma mulher maravilhosa e uma esposa amantíssima, temente a Deus embora pouco devota. Agora, minha filha, se me dá licença, creio que vou indo. Os meus ossos já estão sentindo o frio da noite.&lt;br /&gt;- Tem razão. Apesar do senhor ser um velho rabugento, as horas passam depressa conversando consigo. Vamos para dentro, O senhor padre vai ficar para jantar connosco.&lt;br /&gt;- Não vou incomodar?&lt;br /&gt;- Claro que não. Mas deixe-me dizer-lhe, senhor padre, que não dou por finda a nossa conversa. Nós vamos continuar. Mas antes, deixe-me fazer-lhe uma pergunta: saberá o senhor quantas virgens o padre Mateus celebrou o casamento?&lt;br /&gt;- Que pergunta mais descabida.&lt;br /&gt;- Acredite que não é, padre. Pode crer que nem uma sequer. Agora, será um prazer tê-lo como companhia ao jantar.&lt;br /&gt;- Fico-lhe muito grato pelo convite. Mas olhe que ainda não perdi as esperanças, minha filha, de fazer de si uma boa cristã. Quanta a essa última observação vou fazer de conta que não ouvi.&lt;br /&gt;Claro que ele nao desistiu, assim como eu nao desisti de o transportar para uma realidade mais autêntica. Simplesmente os factos que mais tarde se passaram, convenceram-me que jamais o conseguiria. O padre Mateus pertence a um tipo de clero que eu julgava já ultrapassado, só que o tempo não passa pelo clero.&lt;strong&gt;&lt;em&gt; (Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111496906056205874?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111496906056205874/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111496906056205874' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111496906056205874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111496906056205874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/05/padre-mateus.html' title='Padre Mateus'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111472080106261910</id><published>2005-04-28T21:35:00.000+01:00</published><updated>2005-04-28T21:40:01.066+01:00</updated><title type='text'>Padre Mateus (5)</title><content type='html'>- Acabamos sempre por cair nelas, padre Mateus, quer queiramos ou não. Mas descanse que voltarei aos factos históricos, só que agora gostaria de me deliciar um pouco com o fascínio da mitologia. Génesis, por exemplo. Ali vamos encontrar a descrição de como o homem foi criado por Deus, belo, perfeito e feliz. Todo o seu passado é-nos retratado como sublime perfeição e encanto. Depois é o caos, a destruição provocada pelo pecado da mulher ao comer a maçã proibida. Pandora, de quem falamos à pouco, formada por Hefesto, foi imposta a Epimeteu por ordem de Zeus, para que fosse bom e feliz. Segundo parece ele não o era. Atena dotou-a de todas as graças e talentos, depois de lhe ter dado vida. Veio habitar a terra e a sua bagagem era constituída por uma boceta onde estavam encerrados todos os males, oferta de Zeus. Aqui vemos, seja qual for a origem, que o fim é sempre o mesmo: mostrar a mulher como um ser fatal da qual vieram todos os males do homem. No fundo, talvez resida aqui a fontade que o homem possui de dominar, apenas por vingança. Este sentimento de vingança, sempre alicerçado em antigas crenças, recebeu toda a força que as leis e as religiões emprestaram desde séculos. Não é fácil tirar de cima de nós esta ancestral canga.&lt;br /&gt;- A minha boa amiga entrou no campo das lendas e da mitologia grega para defender os seus pontos de vista, pretendendo demonstrar que a mulher é uma eterna mártir incompreendida.&lt;br /&gt;- Nada disso, padre Mateus! Mártir, nunca! Se assim fosse ela seria, mais tarde ou mais cedo, glorificada. Nós não queremos, nem desejamos, ser glorificadas! Queremos apenas que o homem reconheça a nossa condição de ser humano, a nossa condição de mulher, colocada exactamente np mesmo degrau do homem na escada da vida.&lt;br /&gt;- Não vou dizer que não. Entretanto, deixe-me recor dar-lhe que, desde os tempos mais remotos foi a mulher julgada divindade. Se a isto faço referência é apenas para utilizar as mesmas armas que a minha amiga. Se está recordada, o símbolo completo do Egipto era Ísis, personificada sob os traços de uma mulher que representava as duas grandes virtudes da mulher primitiva: a fidelidade conjugal e o trabalho manual.&lt;br /&gt;- Claro! Que outros traços poderia representar?&lt;br /&gt;- Na Grécia - continuou sem ter ligado nenhuma à minha interrupção -  encontramos Cibele, também conhecida por Mãe dos Deuses; Ceres, deusa latina das searas, da agricultura; Vénus, deusa da Formosura, do Amor, da Geraçao e da Vida Universal. Os Fenícios e os Babilónios adoravam Vénus sob o nome de Astarteia. Os romanos rendiam homenagens a Vesta, sÏmbolo da castidade, gozando as suas discípulas dos maiores privilégios. As Nove Virgens do Pindo simbolizavam a Arte. Acima de todas elas, Minerva, símbolo da sabedoria eterna. Por aqui podemos ver o quanto os tipos se repetem, multiplicando-se até ao infinito, representando sempre as concepções mais elevadas da imaginaçao ou da razão humana. Não quero deixar de chamar a sua atençao, minha filha, para o facto de não ter referido uma única vez o número quase infinito de mulheres a que a Biblia faz alusão.&lt;br /&gt;- Agradeço-lhe o cuidado, padre Mateus, mas também eu li a Bíblia. Simplesmente e apesar de tudo, a velha fatalidade que pesa sobre a mulher deixou demasiados traços. Traços que ainda hoje são visíveis. Quando há pouco falámos de cristianismo, eu fiz referência ao ascetismo e à virgindade. Já trocámos os nossos pontos de vista, embora de uma forma muito rápida, sobre o ascetismo, mas não abordámos a virgindade. O tema não o choca, pois não senhor padre Mateus?&lt;br /&gt;— Não sou, minha filha, um asceta místico. A vida para mim não tem segredos. Se tivesse como é que eu poderia guiar estes pobres de Cristo? Pode falar à vontade, embora não possa aceitar algumas das suas sacrílegas ideias, assim como não posso deixar de exercer a minha missão de padre e aconselhar-lhe meditação, moderação e penitência.&lt;br /&gt;- Penitência, padre, é já o nosso dia a dia, mas prometo moderação, em atenção sua idade. Vou dispensar-me de definir-lhe o que, “oficialmente” se entende por virgindade. O aspecto físico da questão é, concerteza, do seu conhecimento. Se nos debruçarmos sobre tudo o que já foi escrito sobre a virgindade, seja qual for a base, histórica, socióloga, ficcionista, sei lá que mais, chegamos sempre mesma conclusão: trata-se de um tenaz e estranho preconceito em que se fez repousar a honra da família. Na realidade não passa de um feiticismo, criado pelo homem, para seu lúbrico prazer. Com a sua permissão, recordo o que a Bíblia nos diz: “&lt;em&gt;Se o facto é verdadeiro, se a jovem esposa não estava virgem far-se-à com que saia o umbral da porta de casa do pai; ser lapidada pelos habitantes da cidade e morrerá, visto que cometeu uma infamia a Israel&lt;/em&gt;.” Este horroroso princípio fez com que um sem número de jovens fossem supliciadas. A boa parte delas nunca tinham conhecido um homem. O hímem, aquela membrana aparentemente frágil tinha, por acidente, desaparecido. Ou, por ser elástica, não se ter rompido. Por outro lado, há zonas do Globo, em que a existência de tal membrana é indesejável. Serão as mulheres desses países menos honestas? Não vou estar aqui a citar exemplos: nunca mais acabaria. Recordo apenas uma amiga minha que teve de sofrer uma intervenção cirúrgica para rompimento da membrana, assim como outra que, ao andar a cavalo, o hímen rompeu-se. Esta útima teve de ir ao médico para que este lhe passasse um atestado, provando que nunca tinha tido relaç6es sexuais para descansar a consciência do futuro marido. Que podemos nós concluir destes dois casos? Georges Cuvier, extraordinário naturalista e académico francês, um dos criadores da anatomia comparada e da paleontologia, depois de inúmeras observações, resumiu a questão do seguinte modo: “&lt;em&gt;A presença do hímem não prova nem a pureza nem mesmo a virgindade da que o possui, assim como a sua ausência não pode provar uma conduta leviana; há mulheres que o conservam depois de vários partos e raparigas que nunca o tiveram e, com efeito, é fácil conceber que uma membrana tão frágil possa nalguns casos, esticar, ceder a pressões enérgicas e retomar a seguir o seu primitivo estado e, noutras ocasiões, rasgar-se devido a um movimento ligeiro ou atenuar-se e confundir-se com as outras pregas menos evidentes que existem por cima e por baixo dele&lt;/em&gt;”. Como vê padre Mateus, está aqui tudo escrito. Tive o cuidado de ter à mão este livro, para lhe fazer esta leitura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111472080106261910?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111472080106261910/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111472080106261910' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111472080106261910'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111472080106261910'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/padre-mateus-5.html' title='Padre Mateus (5)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111446273216822703</id><published>2005-04-25T21:55:00.000+01:00</published><updated>2005-04-25T21:58:52.173+01:00</updated><title type='text'>Padre Mateus (4)</title><content type='html'>- O que para aí vai, senhor pároco! - Repliquei sorrindo. - Mais um pouco de chá? Prove daqueles bolos. Fui eu que os fiz. O senhor padre tem uma tendência nata para deformar as minhas palavras. Eu nao defendo, nem ataco, as depravações nem as poucas vergonhas. Nem tal coisa me passou pela cabeça. Alíás, se tal acontecesse, eu falar-lhe-ía, por exemplo, na inquisiçao, ou ainda da vida dissoluta de alguns Papas, e dos negócios pouco claros da Igreja, mas descanse que não o farei. Nós estamos apenas a analisar e comentar factos históricos comparando-os, em certa medida, ao momento actual. O cristianismo mudou formas de vida e criou outras. Foi uma força impar que galvanizou o mundo inteiro, numa época em que o homem tinha uma necessida de imperiosa de acreditar em qualquer coisa. Disso é prova o número infindável de deuses. Simplesmente nós estamos a falar da mulher e no joguete que ela sempre foi através da história. Falei há pouco de ascetismo e virgindade. Haverá alguém que hoje aceite o culto ascético ou até o compreenda?&lt;br /&gt;- Eu compreendo-o! A perfeição moral tem de ser conseguida e só é possivel dominando em absoluto os instintos e as paixões, obras do diabo, que residem no nosso corpo. Só através de uma mística autêntica é possivel estar em perfeita comunhão com Deus.&lt;br /&gt;- Fuga, senhor padre Mateus, fuga à realidade. Covardia. Morreram milhões por causa do misticismo. Que ganhou a humanidade com isso? Milhões de mortos! Nuvens de cinzas! Sabe, por acaso, que ainda hoje se pratica uma certa forma de ascetismo? Tem outro nome: chama-se masoquismo. E não seriam os ascéticos de então, no fundo, uns masoquistas? A dor, senhor abade, também é uma forma de prazer. Sabia? Prazer físico. Há muito homem e mulher que só consegue ter prazer, através da dor, infligida a si próprio ou a outrem. Sabia disso, senhor padre?&lt;br /&gt;- Senhora D. Teresa, a minha dignidade de padre e de cristão impede-me de continuar a ouvi-la. Recomendo, minha senhora, como penitência pelas suas sacrílegas palavras, algum tempo de meditaçao na nossa igreja. Temo pela sua salvação.&lt;br /&gt;Deixei que se acalmasse um pouco. Eu sabia que ele não ía embora. Ainda não tinha acabado os bolos.&lt;br /&gt;- Moisés - recomeçou ele, após alguns minutos de silêncio que eu respeitei, - poetizou a mulher pela sua pureza e conseguiu torná-la querida e sagrada. Ele quis que a mulher fosse casta e honrada. Via nela o ideal para construir um lar que fosse um imalucado santuário. Ela era uma escrava, vivia uma primitiva humilhação e podia ser comprada. Muitos foram os santos que enalteceram as virtudes das mulheres.&lt;br /&gt;- As virtudes, nao a igualdade de capacidades. E as virtudes quando ao serviço do homem.&lt;br /&gt;- A mulher é um ser frágil, Deus a fez frágil e o homem a responsabilidade de a proteger.&lt;br /&gt;- Já alguma vez percorreu os campos desta aldeia? Que fazem as mulheres desta terra? Trabalham tantas horas e no mesmo trabalho que os homens, com a única diferença de ganharem menos. Depois da faina, vão para casa tratar da ceia, dos filhos e, muitas vezes, o resto da noite, aturam a bebedeira dos homens. Frágeis, senhor padre? Faz o senhor ideia do que custa ter um filho? Ainda não nasceu o dia e elas já estão na lida da casa. Lavando a roupa, arrumando a cozinha, aprontando o almoço que ambos levam para o campo, limpando o vomitado da véspera. Frágeis? Não senhor padre Mateus, a mulher não é um ser frágil. A fragilidade da mulher é um mito criado pelo homem, para continuar a negar o lugar a que ela tem direito. É nas desgraças, na dor, na guerra, no sofrimento que a mulher se encontra ao lado do homem, porque é nestas ocasiões que ele necessita mais, que ele toma consciência que a mulher nao é tão fraca quanto isso. A inteligência, a capacidade criativa, não são propriedades exclusivas do homem. Onde é que nasceu o conceito ridículo da fragilidade da mulher e, o que é ainda pior, a associar à fatalidade e ao pecado? Perde-se no tempo. Desde o início dos tempos que a mulher foi concebida para levar a humanidade à perdição Esta concepção é tão antiga como a própria ideia de Deus.&lt;br /&gt;Apaixonei-me pelo tema e continuei a falar sem parar.&lt;br /&gt;- Porque tinha de ser uma mulher, de nome Pandora, a abrir a caixa de todos os males do mundo, imputando desta forma a responsabilidade a todas as mulheres por haver desencadeado todo o tipo de desgraças. Eva não é mais do que a Pandora judaico-cristã. Isso o prova o relato da expulsão do Paraíso. Recorde-lhe o doutor Cabanis, médico e filódofo, que fundamentava o não reconhecimento aos direitos políticos como o voto, com a sua teoria da debilidade cerebral da mulher.&lt;br /&gt;- Não vou discutir esse tema com a senhora doutora. Permita-me apena fazer um pequeno realce que o doutor Georges Cabanis, apesar de agnóstico, não se coibiu de advetir que o materialismo e o espiritualismo, como distinções metafísicas, não se podem decidir a partir de factos.&lt;br /&gt;- O senhor padre está a brincar comigo. O que tem essa afirmação com a posição misógina de Cabanis?&lt;br /&gt;O padre Mateus, talvez um pouco contra a sua própria vontade, ouvia-me deliciado. No fundo ele adorava, quanto eu, aquelas nossas discussões. Elas significavam uma quebra na rotina de quase cinquenta anos. No sei porquê desconfiei que o padre me enganava. Ele era muito mais culto e evoluído do que demonstrava e os seus argumentos serviam apenas para me espicaçar. De qualquer maneira eu gostava e entrei na jogada.Ainda hoje o faço. Se quebro a rotina do padre, tarnbém ele altera a minha. Ficamos pagos.&lt;br /&gt;Entretanto, será bom salientar que a cultura do padre Mateus se trata de uma cultura, como direi?, burocrática, administrativa, ou se preferirmos, académica, mas nada empírica, diga-se em verdade. Ele não utiliza o seu saber no quotidiano, muito pelo contrário, serve-se dela para se afastar, ou simplesmente para transformar a sua verdade como única. Os factos que mais tarde se passaram, assim o demonstram.&lt;br /&gt;- Não é dificil verificarmos que essa “fatalidade” se encontra na essência de todas as mitologias.  - Disse eu, retomando a conversa.&lt;br /&gt;- Verdades, minha filha, só verdades históricas nos interessam. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111446273216822703?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111446273216822703/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111446273216822703' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111446273216822703'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111446273216822703'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/padre-mateus-4.html' title='Padre Mateus (4)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111420814937611761</id><published>2005-04-22T23:09:00.000+01:00</published><updated>2005-04-22T23:15:49.380+01:00</updated><title type='text'>Padre Mateus (3)</title><content type='html'>O padre Mateus tem 74 anos mas, como homem do campo, é rijo como um pero. É um homem da terra. Aqui nasceu e para aqui veio logo após ter terminado o seminário. Raras vezes daqui saíu, a não ser quando o seu bispo o chamava. Tanto resmungava nessas deslocações que deixou de ser chamado ao Bispado. Tenho a impressão que nesta altura já se esqueceram dele, o que no fundo o deixa bastante feliz.&lt;br /&gt;Para ele, a sociedade é a mesma de há quarenta anos, quando saíu do seminário. Mesmo nessa altura ele pouco viu. A religião foi como que uma concha onde se encerrou e onde se procurou manter, não com misticismo mas com indiferença das coisas.&lt;br /&gt;Ele foi fruto de um nascimento tardio, quando todas as esperanças já se tinham perdido. Os seus pais tinham feito uma promessa: se tivessem um filho ele seria oferecido a Deus. Um ano depois nasceu um rapaz e eles cumpriram a promessa. A sua meninice foi dividida entre os bancos da escola e a catequese. Acabada a instrução primária foi enviado para o seminário. Ao fim de dois anos tentou desistir. O pai amaldiçoou, a mãe chorou e ele continuou. No dia em que disse a primeira missa, os pais ergueram os olhos ao céu e choraram de alegria.&lt;br /&gt;A sua vida passou a ser regida pelos ensinamentos que recebera no seminário, pelos escassos livros da sua biblioteca e pelo amanho da terra que os seus pais deixaram. O que o tinha levado ao sacerdócio fora uma promessa dos pais que não tivera a coragem de quebrar e não uma vocação, mas ele cumprira, primeiro com resignaçao, depois com a convicção nascida na vontade de vencer. Ele não tinha outra alternativa. Muito severo, mas um santo homem, assim o classificavam os da aldeia. Para mim é apenas um padre, um velho padre e um homem carregado de frustrações.&lt;br /&gt;Assisti aos seus sermões, todos eles com a tónica dos horrores do inferno para os que não respeitassem as leis de Deus. Intransigente nas suas convicç6es, dominava a paróquia com mão de ferro. Mas não se podia deixar de gostar dele, tinha a bondade que a idade confere. Era um retrógado, mas um retrógado honesto. Estou convencida de que se lhe dessem uma paróquia numa grande cidade, ele morreria pouco tempo depois. Não resistiria à velocidade das coisas.&lt;br /&gt;Se o padre Mateus é um santo homem, como o povo o considera, eu francamente não sei. Penso que é fácil ser-se santo aos 74 anos de idade. Pouco conheço da sua vida quando novo, mas confesso: que me interessaria descobrir.Tanto que já iniciei, de uma maneira discreta, claro, algumas investigações nesse sentido. Um padre pode ser muito padre, mas nunca deixa de ser homem. Nao engulo essa da castidade. Nao sei porquê mas algo me diz que vou descobrir algo de interessante.&lt;br /&gt;O padre tornou-se visita regular de nossa casa, assim como as nossas infindáveis discussões sobre feminismo, igualdades, direitos e coisas assim. Creio que ele utiliza esses momentos para recordar os velhos tempos da morgadia, tão do agrado do clero, com a diferença que ele nao encontra cá em casa a beatude apoiante de outrora, O bom do abade não se conforma com a minha maneira de pensar e já não é a primeira vez que sai daqui zangado. Mas volta sempre. Por via dos dois dedos de conversa, do chá e dos bolos.&lt;br /&gt;Ao fim da tarde, quando os trabalhadores começam a abandonar os campos, é a hora escolhida pelo padre para sair de casa com o seu breviário aberto e caminhar lentamente pelas estreitas ruas de terra batida da aldeia. Apesar de ir de olhos postos no seu inseparável livrinho de capas pretas e sebento, nada lhe escapa. Ai daquele que o não cumprimentar! Estou convencida que ele nunca passa da primeira página.&lt;br /&gt;Sentada na alpendre, vejo-o ao longe. Sei que vem para o chá e os bolos e logo me apresso a mandar preparar. Quando chega estende-me a mão para que a beije, mas eu agarro-a e sacudo-a num enérgico cumprimento. Sempre faço esse gesto e ele sempre se surpreende. Ou finge se surpreender. Sei que é um hábito da aldeia. Toda a gente beija a mão do padre, num gesto que eu considero de submissão e ele também e, como tal o aceita. Talvez seja uma idiotice da minha parte, uma fútil rebeldia mas eu continuo a agir assim. Creio que ele já se diverte com isso.&lt;br /&gt;Alguns minutos depois de ter chegado, instalado na que já considera a sua cadeira favorita e saboreando guloso o chá e os bolos, a nossa conversa toma o mesmo rumo de sempre. É como se estivessemos sempre ali, sem que tivesse havido interrupção. Como se o ontem não tivesse existido. Esta interessante faculdade ele a utilizava nos sermões de domingo. Tenho que reconhecer que me fascinava.&lt;br /&gt;- Sabe, minha filha, que estive a ler a história de Moisés para relembrar, claro? Uma leitura deveras interessante e que lhe recomendo vivamente.&lt;br /&gt;- E posso saber porquê, senhor abade? - Como se eu não soubesse outra coisa! Se o bom do velho andava a documentar-se para me fazer frente nas nossas discussões, claro que, pelo meu lado, eu fazia outro tanto.&lt;br /&gt;- Verificará que as suas ideias sobre o cristianismo não têm fundamento à luz da verdade histórica. Direi mesmo que estão erradas. Depois de ler não poderá negar a evidência de que o cristianismo concedeu à mulher uma grande consideração, que até então não possuía, conferindo-lhe uma certa influência além, é claro, de desenvolver o seu verdadeiro papel, que foi o de purificar os costumes. Recordo-lhe que tudo isto foi obra dos patriarcas da igreja.&lt;br /&gt;- Longe de mim discutir teologia com o senhor, padre Mateus, mas tenho a impressão que Moisés é muito anterior ao Cristianismo. Na verdade ele era judeu. Lembra, o tal de povo escolhido por Deus. Esta afirmação consta do Velho Testamento. Certo que ele se preocupou com a mulher mas não estará o senhor padre Mateus a esquecer-se de algo?&lt;br /&gt;- Esquecer-me?... Esquecer-me de quê?&lt;br /&gt;- Não nego que a Igreja, dentro de determinados princípios reabilitou o sexo, só que se tratou de uma reabilitação espiritual que, como tal, se situa bem longe da realidade. Aliás, se me permite, esse distanciamento da realidade é uma constante na Igreja. Não podemos esquecer o empenhamento utilizado em reprovar-lhe as alegrias mais simples da vida, o prazer como um estigma, num quase aviltamento da parte física. Lembro-lhe, padre Mateus, que foi a partir daqui que se desenvolveu o culto do ascetismo e da virgindade.&lt;br /&gt;- Quererá a senhora D. Teresa convencer-me que é a favor da depravação e das poucas vergonhices? - Sempre que qualquer afirmação minha o chocava e para me mostrar a sua desaprovação, tratava-me por senhora dona, ou por senhora doutora, o que francamente me divertia. Sabia que nesses momentos marcava um ponto a meu favor. Só que eu tinha que fazer um esforço danado para não me desmanchar a rir, de tão cómico que era. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111420814937611761?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111420814937611761/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111420814937611761' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111420814937611761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111420814937611761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/padre-mateus-3.html' title='Padre Mateus (3)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111417197180837170</id><published>2005-04-22T13:10:00.000+01:00</published><updated>2005-04-22T13:12:51.810+01:00</updated><title type='text'>Padre Mateus (2)</title><content type='html'>- Se Cristo foi um homem, porque há-de ser a mulher a dár o exemplo? — Nos meus lábios o sorriso mais cândido que me foi possível arranjar. - Ou será que as leis de Deus são diferentes para o homem e para a mulher?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não podemos esquecer, senhora D. Teresa, que a mulher é muito mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- …Sensível?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então a igreja aproveita-se dessa sensibilidade e abusa dela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que para aí vai! A senhora uma mulher inteligente, culta, pelo que devo entender as suas palavras como uma brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Engana-se, senhor padre Mateus. Nunca brinco com coisas sérias e eu considero a religião uma coisa séria. Exactamente por isso é que eu não frequento a igreja. Para entrar em diálogo com Deus não preciso ir lá. E muito menos aqui, nesta aldeia, em que nos encontramos permanentemente em contacto directo com a natureza. Conhece melhor lugar para falar com Deus do que a natureza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nesta aldeia não há apenas natureza; existem também pessoas. Gente simples, de pureza de alma e eles comentam. Nós aqui formamos uma comunidade e a senhora pretende fazer parte dela. Não é assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro, mas sem que isso signifique a perda da minha liberdade individual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Haverá alguém que tenha maior liberdade do que esta gente? E depois, senhora D. Teresa, é-lhe assim tão difícil assistir à Santa Missa, apenas uma vez por semana? Acredite que seria bastante apreciado por esta gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encolhi os ombros. De facto não era difícil e eu acabei por compreender o velho. Ele tinha todo o rebanho na mão e não admitia a existência de uma ovelha tresmalhada. Podia ser perigoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naque altura senti-me irritada com ele e a minha vontade era pô-lo no olho da rua, ainda mais porque eu sentia em cima de mim o olhar divertido e gozão do Jorge. Se não fosse o ter de respeitar as regras elementares da hospitalidade, palavra que descompunha o padre. E pensava eu que a fauna retrógada já não tinha voto na matéria. Ai não que não tinha! E quando ele referiu a liberdade desta gente? Será liberdade o terem de ir para terras estrangeiras procurar o pão que lhes negado na sua própria terra? Será liberdade as crianças terem de percorrer mais de cinco quilómetros para irem para a escola? Será liberdade... merda, toda a gente sabe qual o conceito de liberdade que um padre de aldeia tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor abade, claro que não me é dificil assistir à Missa ao domingo. Só que eu entendo que tudo o que fazemos na vida, seja lá o que for, temos de acreditar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quererá dizer-me, minha filha, que não acredita em Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma coisa nada tem a ver com a outra. Mas já agora deixe-me dizer-lhe que muitas vezes bem duvido da Sua existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso é um sacrilégio, minha filha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor há pouco considerou-me uma mulher inteligente, peço-lhe pois que me poupe esse tipo de lugares comuns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Teresa, parece-me que estás a ser rude com o senhor padre Mateus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tem importãncia, senhor engenheiro. A senhora sua esposa está um pouco nervosa.&lt;br /&gt;Nervosa a tia dele! Eu estava era simplesmente furiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peço-lhe desculpa, senhor padre, não pretendia ser mal educada. Confesso que me irritou a descriminação que o senhor fez, no início da nossa conversa, entre mim e o meu marido. Para lhe provar a minha boa vontade, prometo-lhe que faremos todos os possíveis para frequentar a sua igreja. Pela minha parte, sempre que o meu marido for à missa, eu não faltarei. - Pelo canto do olho vi o Jorge olhar para mim espantado e a mexer-se, nervoso, no sofá. Ora toma lá, espertinho! Senti-me vingada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Terei o maior prazer em lhes reservar um lugar todos os domingos. - Foi um remate final muito inteligente. O padre apercebeu-se da jogada e entrou nela. Ao termos lugares reservados a nossa falta será ainda mais notada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seremos tantos como as areias do deserto e a nossa fé abalará o mundo. Maometanos, budistas, católicos e quantos mais; todos disseram o mesmo. A fé destruiu as defesas de Jericó e moverá montanhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, todos os domingos, pontualmente às onze horas da manhã, faça sol ou chuva, a tua amiga vai à missa, acompanhada pelo seu excelso e sempre aborrecido esposo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém falta. Com os seus melhores fatos, a roupa de ir ver a Deus (frase que continua a ser utilizada.), toda a gente vai àigreja ao domingo. Quando, por qualquer razão desconhecida do padre, alguém falta, ele não deixa de, do púlpito, perguntar pelo faltoso. É certo e sabido que ele irá mais tarde saber do próprio as razões, e ai se estas não o satisfazerem! Ainda não perdi a esperança de ver o padre Mateus puxar de um papél e fazer a chamada dos fiéis e a gente responder presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que, aquela hora, no início, me aborreceu bastante. Era muito dificil para mim concentrar-me e vi muitas vezes o padre Mateus, lá do altar olhar para mim com um ar bastante reprovador. Bolas, o que é que ele queria? Eu estava ali, não estava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas primeiras vezes havia algo no meu subconsciente que lutava contra tudo aquilo. Pela minha frente, com todas aquelas imagens religiosas que me rodeavam, passaram imagens da minha primeira comunhão e daquele maravilhoso vestido branco que me fez encher de orgulho e vaidade. É a única coisa que tenho bem presente: o vestido branco. Depois fiz parte do coro da igreja e ensinei catecismo. Ouvia na igreja a falarem de amor, de paz, de bondade, de perdão. Mais tarde vi um dos padres desancar um miúdo que, na brincadeira de um corrida, pisara uma das flores do adro da igreja. Deixem vir a mim as criancinhas! Foi o primeiro passo para o afastamento. Depois veio o Eça e nunca mais voltei. Só no dia do meu casamento. Por imposição da família. Ninguém admitia a ideia de perder uma cerimónia tão bonita. Só por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos fui tomando consciencia da diferença. Aqui, na aldeia, ninguém vai à missa por snobismo, para dar nas vistas, para mostrar o vestido novo. Vão porque têm fé, porque a igreja faz parte das suas vidas, porque identificam o padre como um deles, apesar de todo o seu autoritarismo. Homens e mulheres ajoelham e rezam sem uma fanática devoção mas com uma fé autêntica e pura. Já não faço sacrifício em assistir missa. Não sei porquê mas acho isso importante. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111417197180837170?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111417197180837170/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111417197180837170' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111417197180837170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111417197180837170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/padre-mateus-2.html' title='Padre Mateus (2)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111399779982919758</id><published>2005-04-20T12:48:00.000+01:00</published><updated>2005-04-20T12:52:03.576+01:00</updated><title type='text'>Padre Mateus</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;A&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;s casas importadas ofendem a beleza rude da paisagem aldeã. Não, elas jamais se integrarão. Mas têm um profundo significado, de que ninguém ignora; talvez por isso as aceitem. Cada uma daquelas casas significa uma velhice calma na terra natal, conquistada à custa de muito sacrifício, de muito suor, de muita lágrima, de muita saudade, em terras estranhas. Eles trouxeram o desenho e o gosto estrangeiro para não esquecerem das privações terríveis que por lá sofreram durante tantos anos. Simplesmente será difícil que aquelas casas ganhem risos e vida, porque não serão mais do que asilos coloridos de velhos reformados, cansados e gastos de tantos sacrifícios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, apesar de toda esta explosao de gosto arquitectónico muito variado e vincadamente estrangeiro, de os velhos habitantes desta aldeia serem, todos os anos, colocados perante novas ideias, novas formas de vida, consideradas por eles como estranhas, por desconhecidas; são mantidas intactas as suas ancestrais maneiras de ser e pensar. Acho isso admirável! Eles aceitam de braços abertos, os seus filhos e netos falarem um língua estrangeira arrevessada, vestirem de uma forma diferente, na maioria parte das vezes só para impressionarem os velhos, de demonstrarem uma evoluçao que muitas vezes não possuem nem sequer a sentem como autêntica; a gente lá é assim!, e todos ficam de boca aberta pelos costumes doidos dos estrangeiros. Nos rostos dos jovens, risos de puro gozo. É a vingança pelo desterro. Só que tudo isso dura apenas alguns dias, só tempo de férias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de eles partirem, recordam ao serão, junto à lareira, tudo o que ouviram contar e que os impressionou e depois rezam para que todos regressem são e salvos e sem aqueles hábitos estranhos. E depois esquecem. Não os filhos e netos, mas tudo aquilo que eles disseram. O raio da porca que não há maneira de parir, a vaca está doente, as chuvas não vêm e há um mal qualquer que atacou as galinhas. Isto é que são problemas importantes. Eles olham as casas fechadas; gosto mais estuporado!, exclamam entre dentes, e logo cumprimentam a vizinha; Salve-a Deus, comadre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou, para esta gente simples e maravilhosa, a senhora do senhor engenheiro. Não que esta identificação me agrade, mas que fazer? Gostam de mim. Creio que gostam de mim, não apenas por mim própria, mas pela casa cujo desenho eles reconhecem como sendo deles, fazendo parte perfeita da paisagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que, apesar de toda a simplicidade, de toda a pureza das suas maneiras de ser, durante os primeiros tempos, não houve uma aceitação fácil. Era uma estranha, uma senhora da cidade. Quando falavam comigo, faziam-no com muita cerimónia, com exagerada deferência. Às vezes isso irritava-me. Por fim, aos poucos, lá fui sendo aceite, em parte com a ajuda do pároco, o velho padre Mateus. Claro que não era totalmente desinteressada a ajuda do padre à nossa integração na comunidade, como o poderás verificar um pouco mais adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o padre Mateus, acontecia-me uma coisa muito estranha, sempre que falava com ele. Não sei porque raio de coisa o associava ao padre Amaro do Eça. Não me perguntes porquê. Não faço a mínima ideia. Era uma ideia muito esquisita que me confundia e para a qual eu não encontrava a mínima justificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha 15 anos quando li o Eça às escondidas. Naquela altura Eça não era leitura aconselhável para uma menina de 15 anos. Creio que “O Crime do Padre Amaro” influenciou bastante a minha devoção religiosa futura. Para mim todos os padres se chamavam Amaros. Sabia que era asneira, mas era assim que eu pensava. A partir de então nunca mais me ajoelhei a um confessionário e quanto às minhas idas à igreja elas foram sendo cada vez mais espaçadas, até que acabei por estar vários anos sem lá pôr os pés. Quando voltei a entrar numa igreja foi aqui na aldeia, O não ir à missa ao domingo, sem que se tenha uma boa justificação, tem foros de escândalo e é-se apontado a dedo. Não que esta gente tenha um fanatismo religioso exagerado, muito pelo contrário; é mais uma questão de princípio, um hábito social enraizado e, pronto, também admito, alguma fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fé, não é para mim, um rígido princípio a que me terei de submeter cegamente. Umas vezes tenho fé, outras não; tudo depende do meu estado de espírito; mas nunca uma fé absoluta. A partir do dia em que soube que jamais seria mãe, durante anos não pensei sequer em Deus. Dúvidei mesmo da Sua existência. Hoje não sei, a fé é fraca, as dúvidas são muitas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vou à missa todos os domingos. Afinal trata-se do único acontecimento social digno de relevo que por cá acontece. Não o ía perder, além de que me proporciona alguns momentos de reflexão e paz interior, devo confessar. Além de que o bom do padre Mateus se encarregou de me pregar um sermão especialmente dedicado à minha pessoa. Procurou salientar que a nossa falta na igreja seria bastante notada e se nós pretendIamos integrar-nos na comunidade, seria bom que passássemos a frequentá-la. Éramos católicos, não éramos? Especialmente a senhora dona Teresa deverá dár o exemplo. O abade Mateus estava a ver-me no papel de uma velha e devota morgada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porquê, especialmente eu, senhor padre? — Perguntei sorrindo, para disfarçar o quanto o “especialmente” me tinha desagradado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso compreender; - embora não aceite, é claro; - que o senhor engenheiro, como homem, tenha os seus afazeres e até um pouco de cepticismo, mas a mulher; sendo ela o exemplo da fé em Deus e do respeito pelas Suas Leis, tem a obrigação moral de frequentar a igreja e levar o seu marido a fazê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o padre. Estaria ele a falar a sério? Disso não restava a menor dúvida! De que século é que o raio do padre era? Desviei o olhar para o Jorge e vi-o a tentar disfarçar o grande gozo que estava a sentir. O safado estava a divertir-se à grande. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111399779982919758?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111399779982919758/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111399779982919758' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111399779982919758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111399779982919758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/padre-mateus.html' title='Padre Mateus'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111333948943882403</id><published>2005-04-12T21:56:00.000+01:00</published><updated>2005-04-12T21:58:09.440+01:00</updated><title type='text'>Jorge (2)</title><content type='html'>- Porque não vamos à Suiça? Dizem que há lá um médico estupendo, que tem realizado autênticos milagres. Talvez com um tratamento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lamento, Jorge, mas não há nada a fazer. Também eu levantei essa hipótese ao médico. Respondeu que se eu quisesse ir à Suiça que fosse, mas ele tinha a certeza que era impossível. Mostrou mesmo disponibilidade em enviar um relçatório ao médico suíço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sei que muitos dos tratamentos para estes casos são extremamentes difíceis e até dolorosos e eu não quero que te submetas a eles, contra a tua vontade. De qualquer maneira acho que devíamos ir Suíça. Se não formos ficaremos sempre com essa dúvida. Uma viagem nesta altura até nos fazia bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cedi. Partimos alguns dias depois. Era bem visível o nosso nervosismo, enquanto aguardávamos ser recebidos pelo especialista. Observou-me detalhadamente, leu com atenão o relatório do meu médico, examinou com cuidado todos os exames que levei e mandou-me fazer novos e diferentes. Quatro dias foi o tempo que levaria a obter os resultados. Pediu-nos para voltar findo esse tempo. Foram mais quatro dias de ansiedade e sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lamento, minha senhora. É impossível. - Foi o veredicto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não cheguei a dizer em casa, disse-lhe ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Jorge, o melhor será encararmos o problema bem de frente. Tu desejas muito um filho, o que acho perfeitamente natural, e eu, por infelicidade, não to posso dar. Acredita que compreenderia muito bem se decidires seguir um outro caminho e procurares noutra mulher aquilo que eu não sou capaz de te dár.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Propões o divórcio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. Casei por amor e continuo a amar-te, mas eu sei que não se pode construir uma vida conjugal numa frustração. Mais tarde ou mais cedo acabarias por me culpar. Seria terrível, tanto para ti como para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- És uma tonta! Entre milhentas soluções escolhes a pior. Claro que desejo muito um filho! É um facto que não vou negar, nem hoje nem amanhã, assim como também nao vou negar o meu desgosto por não ser possível. Um desgosto igual ao teu por não seres mãe. Só que eu desejo ter um filho teu. Compreendes? Um filho teu! Vamos deixar passar um pouco de tempo e reflectir maduramente em tudo isto. Utilizemos a nossa inteligência para encontrarmos a melhor solução. Bolas, não somos o único casal que se encontra impossibilitado de ter filhos. O importante é não perdermos o controle. Agora vamos visitar a cidade e divertirmo-nos. É disso que neste momento mais precisamos. Passear e um pouco de diversão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa noite, quando regressamos fizémos amor como dois doidos. Gritei, numa mistura de raiva e prazer as maiores obscenidades de que fui capaz. Quando a válvula se abriu e a onda se soltou, eu deixei-me abandonar desfalecida e completamente esgotada. Repetimos até não termos mais forças, numa mistura de amor e ódio. Nunca tive tanto prazer como naquela noite. Afastamos do espírito a ideia de fazermos um filho e concentrámos toda a nossa vontade numa furiosa procura do prazer. Jesus, como é possível um homem e uma mulher se amarem tanto e com tanta fúria e raiva, numa só noite! Foi o que fizémos. E nas noites que se seguiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não falou naquilo que eu esperava: adopção. Já me tinha ocorrido a ideia de adoptar uma criança, ou até mais, mas não tive a coragem de a expor ao Jorge. Não sei porquê mas desejaria que fosse ele a tomar a iniciativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora que aqui estou, longe da minha familia, dos meus amigos, nesta casa enorme, sinto a falta dos risos de crianças. É a nuvem negra que ensombra o meu casamento e a minha vida. Sei que o Jorge, apesar de não o demonstrar, continua a sofrer. Pela minha parte creio que não vou esperar muito tempo para lhe falar sobre a ideia de adoptarmos uma criança. Sinto que a força do meu amor como mulher e como esposa não me é suficiente: preciso também de sentir o amor de mãe, mesmo que seja por uma criança que não tenha nascido do meu ventre. É claro que não somos um casal perfeito, mas tenho a certeza que uma ou duas crianças seriam felizes connosco.&lt;br /&gt;As minhas deambulações pela aldeia levam-me ao encontro de muitas crianças. Como em todas as nossas aldeias só há praticamente crianças e velhos. Não existe no presente um futuro a curto prazo nas nossas aldeias, O fenónemo emigratório, para o estrangeiro e para as grandes cidades, levou todos os que nasceram agricultores, transformando-os em empregados de armazém, serralheiros, motoristas e sei lá que mais. Onde estão e o que fazem pouco ou nada lhes dizem da terra que aprenderam a amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As nossas aldeias ganham, ano após ano, novas formas, novos coloridos. As casas construídas pedra a pedra pelos avós vão desaparecendo, sendo substituídas por moradias cheias de cor, mas a maior parte delas ainda sem vida. São casas cujo desenho arquitectónico faz sorrir de tristeza e uma pontinha de nostalgia todos aqueles que nunca de cá saíram. São casas de gosto importado, estrangeiro. São casas que gritam a sua presença e que jamais se integrarão na paisagem. Falta-lhes esforço, lágrimas, amor, em cada uma das pedras. Nas pedras que nelas não existem. Sobretudo amor. Nas casas antigas cada pedra significava um esforço, um sonho e muito amor. Os homens e mulheres, lado a lado, qual passarinhos construindo o seu ninho, faziam as suas casas, com a ajuda dos bois que transportavam as pedras e dos vizinhos que, depois do amanho da terra, davam uma ajuda. Havia canções e suor. Todos eram arquitectos, construtores, pedreiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que bonitas, que nada! - Exclama o velho Joaquim que, entre muitas coisas, é o sacristao cá da terra. - Veja a senhora, onde é que eles vão pôr os porcos, as galinhas, os bois. Diga-me lá, onde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era verdade. Não havia espaço para os animais, nas novas casas. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111333948943882403?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111333948943882403/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111333948943882403' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111333948943882403'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111333948943882403'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/jorge-2.html' title='Jorge (2)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111325219291516117</id><published>2005-04-11T21:40:00.000+01:00</published><updated>2005-04-11T21:43:12.916+01:00</updated><title type='text'>Jorge</title><content type='html'>- Não seria muito mais lógico arranjares qualquer outra coisa para fazeres bem diferente da tua actividade normal?&lt;br /&gt;A questão foi-me colocada pelo meu marido, referindo-se à nossa correspondência. Disse-lhe que encontrava nestas cartas um certo repouso. Riu-se. Eu passava o dia a escrever e, para descansar, voltava a escrever. Mas é verdade. Readquiro a calma nos momentos em que vou escrevendo estas cartas. Sabes porquê? Porque eu tenho a certeza que alguém me vai ler, e não o fará com um olhar crítico. No momento em que trabalho no meu livro, penso se algum dia será lido e essa dúvida põe-me nervosa. Um nervosismo que me cansa. Talvez seja o medo de enfrentar um público desconhecido, da sua reacção. Ou então é simplesmente uma estupidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha actividade literária dá-me prazer, mas é um trabalho e eu assumo inteiramente essa responsabilidade. Bom, chego à conclusão que para me sentir bem tenho de escrever, O Jorge goza comigo, mas sabe que tenho razão e tenho nele um admirador atento, apesar de critico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que devo agradecer à sorte o meu casamento com o Jorge. Ele é um homem maravilhoso. Nunca tive medo das dificuldades e quantas vezes eu própria as provocava. Fui sempre uma rapariga arrojada que se atirava para a frente em todas as situações. Mas confesso que o casamento aterrorizava-me. Uma incógnita demasiado grande para mim. Partindo do princípio de que ninguém conhece ninguém, eu ia ficar presa para toda a vida a um desconhecido. Naquela altura interrogava-me quanto tempo era toda a vida. E ainda hoje continuo fazendo essa pergunta, sem saber se é muito ou pouco tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhava em volta, ouvia as minhas amigas e nada encontrava que me dissesse que o casamento era uma coisa maravilhosa. Só ouvia queixas, só via desilusões, só encontrava pessoas afogadas em rotinas. Nunca consegui compreender muito bem todo aquele desencanto. Seria porque as pessoas exigiam demasiado de um relacionamento entre dois seres humanos? Foi com um monte de interrogações que eu caminhei para o altar. Amava-o e foi por amor que casei, mas por muito amor que eu sentisse não conseguia destruir a pontinha de medo que estava dentro de mim. Dezoito anos depois continuo com o mesmo amor e com os primeiros passos na estrada da rotina o mesmo medo persiste. Talvez seja este o lenitivo que causa o equilíbrio. Só que continuo sem saber quanto tempo é toda a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca devemos exigir demasiado da capacidade do outro, seja a nossa inferior ou superior. - Diz-me muitas vezes, o Jorge. - Não podemos medir os outros pela nossa própria tabela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tem razão. Talvez esteja aqui o segredo do nosso bom relacionamento durante todos estes anos. Aprendemos a exigir mais de nós próprios do que do outro, tentamos descobrir até onde o outro pode ir e esforçamo-nos para não ultrapassar esse limite. O Jorge é um homem muito pouco romântico. É muito raro ouvir dele uma palavra bonita. Mesmo quando me chama de querida, eu noto que o faz com esforço. No início isso desgostava-me, levava isso conta de que ele já não gostava de mim, ou pelo menos, não o suficiente. Agora já não penso o mesmo. É certo que não me diz palavras doces, mas a sua permanente atenção para comigo, as pequeninas coisas do dia a dia substituem na perfeição os mais sofisticados adjectivos amorosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os muitos anos de casados não significam que exista um perfeito conhecimento entre o casal. Em cada dia descobrimos coisas novas um no outro. É o que transforma o casamento numa aventura maravilhosa. Calcula tu que só ao fim de não sei quantos anos de casados é que o Jorge começou a falar durante os momentos em que fazíamos amor. No princípio não conseguia perceber o que ele dizia, até que me esforcei em prestar atenção. Fiquei chocada e tive vontade de o tirar de cima de mim. As palavras que proferia, desconexas, eram as mais obscenas que possas imaginar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na primeira vez não quis acreditar no que ouvia, a voz saía surda, por vezes inaudível. O meu esforço em perceber bem era tanto que até me esquecia de participar e de receber a parte a que tinha direito. Estaríamos nós a transformar o acto de amor em algo de obsceno? Puxa, nós somos pessoas educadas! Nunca, nenhum de nós proferiu, fosse em que situação fosse, palavra menos conveniente. Porque então toda aquela liberdade naquelas ocasiões Resolvi abordar o problema e, como habitualmente, de frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se na verdade isso te choca, tentarei dominar-me de futuro. - Respondeu-me sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é aí que está o problema. Tudo o que é novo nos choca, seja lá o que for. Quero apenas saber porquê. Deve ter alguma explicação. Recordo-te que estamos casados há quatro anos e nunca tal aconteceu. Depois, em abono da verdade, eu não gosto de ser colocada de lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A forma como fazemos amor agora é diferente da como fazíamos no principio. Tanto os nossos corpos como os nossos espíritos encontram-se agora numa mais profunda comunhão. Em cada dia que passa nós vamos descobrindo que vamos tendo mais prazer. Tu sabes que assim é. Ao proferir aquelas palavras descobri que elas além de me excitarem ainda mais, provocam-me uma grande euforia, uma profunda liberdade. Desculpa, mas creio que não sou capaz de explicar muito bem o que sinto nesses momentos. Mas volto a repetir que se não é do teu agrado, tentarei dominar-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dominar? Seria um absurdo. Ou nos libertamos ou então vale mais estarmos quietos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continuou e eu, pouco a pouco, fui alinhando de tal forma que não lhe fico atrás. Pode parecer-te uma situação um tanto animalesca, o que não é verdade pois os animais não falam, mas a verdade é que eu sinto um prazer mais intenso. E não será para isso que nós fazemos amor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo-o e é engraçado como me sinto orgulhosa desse amor. Não fiz do Jorge a razão da minha vida mas ele é muito importante nela, como o sou na dele. Isso chega para nos fazer felizes, só que não é uma felicidade completa. Somos felizes como marido e mulher, mas não o somos completamente como casal. Aqui reside o meu profundo desgosto, a minha grande angústia; o de não conseguir dar-lhe o que ele mais deseja: um filho. Não tem sido nada fácil para mim suportar essa ideia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia em que tive a confirmação de que jamais poderia ser mãe, chorei sózinha, fechada no meu quarto durante horas. Embora nunca o tivesse manifestado abertamente, eu sabia do grande desejo que ele tinha de ter filhos. E não apenas ele o desejava, como eu própria. Adoro crianças e gostaria de ter algumas que fossem minhas. Mais uma vez resolvi encarar o problema de frente e ter uma conversa séria e decisiva com o Jorge. Nesse mesmo dia contei-lhe da certeza do médico. Não há mínima esperança de eu vir a ser mãe. Reagiu prontamente. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111325219291516117?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111325219291516117/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111325219291516117' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111325219291516117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111325219291516117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/jorge.html' title='Jorge'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111290283799023356</id><published>2005-04-07T20:39:00.000+01:00</published><updated>2005-04-07T20:46:35.060+01:00</updated><title type='text'>Beatriz</title><content type='html'>- A vida é cheia de pequenas coisas, de pequenos nadas. Se sou possessiva? Creio que sim. Mas eu também dou tudo. Por minha parte a entrega total. Também exijo tudo. Tudo ou nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preconceitos? Oh, Deus, muitos! Preconceitos, complexos, traumas, têm tudo isso. Sempre fizeram parte da minha vida. Ninguém se liberta facilmente dos princípios e da educação que teve. Mas eu creio que o que se passa comigo não é uma questão de educação. Nasci assim. Sou assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes que uma mulher como tu, Beatriz, é, geralmente, uma destas duas coisas: uma amante extraordinária na cama ou uma excepcional profissional. Tu encontras-te no segundo caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estarás a exagerar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Tu és uma mulher cheia de vitalidade, aguerrida, carregada de iniciativa. Tens uma necessidade grande de participar activamente em tudo o que te rodeia. Tens dentro de ti uma energia enorme que tens necessidade de soltar. A isso se deve o teres reconstruído toda a tua vida ta rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estás a fazer de mim uma mulher frígida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E não és? – Perguntei um tanto precipitadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meus Deus, não! É certo que os desejos não me assaltam por dá cá aquela palha, que o sexo só por si não me diz nada e que não lhe dou tão relevante importância que domine os meus sentidos. Mas estou muito longe de ser uma mulher frígida. Foram muitas as vezes que tive prazer. Só que eu continuo a pensar que o sexo não é tudo e muitas vezes não nada. Não passa de escassos minutos entre tantas horas que o dia tem. Ele deixa de ter existência válida e importante, quando o companheirismo desaparece. Uma mulher precisa de muito mais do que alguns minutos de união física, do que a simples satisfação de um desejo em que apenas é utilizada, mesmo que tenha prazer. Nos últimos anos era essa a sensação que eu tinha: a de ser utilizada. Mesmo nas ocasiões em que ele se esforçava para me dar prazer. E sabes porque o fazia? Porque assim aumentava o seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Concordo que estejas desiludida, mas acho que, nesse ponto exageras. Nunca me senti usada pelo meu marido, nem mesmo nas muitas ocasiões em que não tive prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Também assim aconteceu comigo, de início. Nessa altura, quando acabávamos de fazer amor, ele não me virava as costas de imediato e dormia ou fingia dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me atrevi a dizer nada. Continuei a não considerar nem culpada nem inocente. Neste momento ela encontrava-se enfileirada no infinito batalhão das mulheres vazias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não sou uma mulher vazia. Tenho uma profissão que gosto, tu sabes da minha paixão pelo ensino, tive filhos que me realizaram como mulher e que exigem agora de mim toda a minha potencialidade de mãe; tenho uma vida reconstruída que devo manter e solidificar; tenho liberdade e tempo para pensar em mim. Não posso considerar-me uma mulher vazia, pela simples razão de ter conseguido sublimar o que de mais instintivo, de mais animal existia em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teriam as amarguras da vida, as desilusões sofridas, a transformado numa mulher pura, perfeita, toda espiritual, toda etérea? Se não fora as suas necessidades fisiológicas que, diariamente tem de satisfazer, ela seria a perfeita mulher espírito. Nada a ligaria terra, humanidade, nada a faria igual aos outros seres humanos. Ela fala de sublimação dos instintos. Interrogo-me se, alguma vez teria havido instintos na sua vida. Teria ela, quando jovem adolescente, se colocado nua frente ao espelho, tentando descobrir no seu corpo os pequenos nadas da sua feminilidade? Teria ela perguntado o que seria aquilo que a fazia estremecer e sentir calor por todo o corpo? E teria ela estremecido alguma vez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca, até casar, o sexo teve para mim o mínimo significado. O seu despertar deu-se muito mais tarde. Claro que durante o namoro tínhamos as nossas brincadeiras, que não passavam de beijos e algumas carícias. Lembra-te que casei com 17 anos e não foi muito o tempo de namoro. As suas mãos não passavam além dos seios, e mesmo aí eram muitas vezes contrariadas por mim. Nessas ocasiões reagia com uma certa passividade. Sabia que era normal entre namoros, como também sabia que isso lhe dava prazer, embora eu não compreendesse muito bem porquê. Gostava de me apalpar os seios e eu deixava. Mas nada mais do que isso. Fui sempre uma acérrima defensora da minha intimidade, da decência. Havia qualquer coisa dentro de mim que me impedia de entregar. Não era ingénua. Nunca o fui. Mas já nessa altura eu considerava as conversas cochichadas sobre sexo absolutamente sem sentido. Afastava-me sempre. Não, não era um excesso de pudícia. Não me agradavam apenas. Talvez fosse um instinto de auto-defesa. Auto-defesa de quê? Não sei. Uma questão de educação ou simplesmente uma indiferença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca me preocupei em analisar isso com profundidade. Eram reacções que nasciam com naturalidade e eu aceitava-as sem me preocupar com elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ouvi-la, não sei porque, recordei-me da Clara. Lembras-te da Clara? Aposto que sim. A Clara marcou-nos de uma forma bem profunda. Ninguém gostava dela. Só os professores. Ela tinha um jeitinho multo especial para os cativar. Ainda hoje me faz confusão como é que pessoas adultas, cultas e experientes se deixavam levar tão estupidamente por uma garota. A sua voz doce, os seus olhos sempre baixos, o seu ar inocente, não havia professor algum que lhe conseguisse escapar. Era a aluna que mais ajudas tinha e nunca era castigada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, nos intervalos das aulas, os nossos grupinhos se juntavam e as histórias brejeiras passavam de boca em boca, a Clara gritava, escandalizada, a sua pudícia, a sua inocência e a sua fragilidade de menina virgem e sempre se retirava com gritinhos histéricos, logo que as nossas conversas se tornavam mais quentes. Lembro-me que muitas vezes fazíamos de propósito, só para nos vermos livres dela. Nós só sabíamos falar de porcarias, dizia ela. O que nós ríamos com toda aquela parvoíce! Só que mais tarde deixámos de o fazer. Descobrimos o que ela fazia com os rapazes do liceu vizinho. Como também descobrimos que não eram apenas os rapazes da nossa idade, que usufruíam dos seus favores. Foi a nossa vez de ficarmos escandalizadas. Lá que as nossas conversas tivessem uma certa tónica brejeira, era uma coisa, agora que isso fosse uma prática ía uma infinita distância. Ali as nossas conversas eram motivadas pela nossa ignorância e a nossa impossibilidade de falarmos sobre assuntos considerados tabus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que eu não pretendo fazer qualquer espécie de comparação. Seria uma completa estupidez se o fizesse, pois existe entre ambas diferenças enormes de ideias e princípios, embora com iguais reacções a uma mesma situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Consegui o domínio, a sublimação completa, sem que da minha parte houvesse grande esforço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu desejo que os anos passem depressa. Não encaro a velhice com angústia, mas sim como a paz finalmente alcançada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal a indiferença não é assim tão grande. Ela teme que um dia possa ceder. Talvez seja uma experiência interessante ver a Beatriz ceder.Estou a trabalhar numa obra muito atraente. Um escritor colombiano, 40 anos mais novo que o Gabriel Garcia Marques, mas com uma força de escrita fascinante. Estou a adorar este trabalho. &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111290283799023356?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111290283799023356/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111290283799023356' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111290283799023356'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111290283799023356'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/beatriz.html' title='Beatriz'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111273250666701289</id><published>2005-04-05T21:21:00.000+01:00</published><updated>2005-04-05T21:21:46.670+01:00</updated><title type='text'>Beatriz (3)</title><content type='html'>Beatriz e o marido visitavam frequentes vezes nossa casa. Ela própria continuou a fazê-lo, mas já há muitos meses que deixou de aparecer, tendo perdido o contacto com ela durante todo este tempo. Encontrei-a uma vez na Baixa e refugiei-me com ela numa “Cafetaria”, preparada para lhe fazer montes de perguntas. Chamei-lhe a atenção para o seu desaparecimento, para a sua falta de notícias.&lt;br /&gt;- Bem vês, a minha vida agora diferente. Os meus tempos livres de agora são diferentes dos teus. Não existe nada em comum entre uma divorciada e uma mulher casada. Antes era uma família que visitava outra família. Agora tudo diferente. É preferível assim. Acabaria por me sentir urna intrusa.&lt;br /&gt;- De maneira alguma! Não podes pensar isso. Jamais serás uma intrusa em minha casa.&lt;br /&gt;- Talvez não no início, mas mais tarde seria. Acredita que não pretendo acabar com tudo o que me possa unir ao passado, mas é bom que me vá habituando ideia de que tenho uma nova vida.&lt;br /&gt;- Compreendo-te. Que pensas fazer? Casar novamente?&lt;br /&gt;- Nem pensar. O casamento é algo que me está absolutamente interdito. Tenho 46 anos e quatro filhos. Haverá por aí algum homem que aceite de imediato receber nos braços quatro crianças? Os bons samaritanos já não se encontram por aí aos pontapés. Além do mais eu já não tenho paciência, nem idade, para fazer novas tentativas. Umas quantas horas de boa cama, por vezes ainda se consegue, apesar de isso pouco ou nada me dizer.&lt;br /&gt;- És uma mulher ainda nova e uma longa solidão nem sempre é boa conselheira. De vez em quando temos necessidade de uma carícia, de uns braços que nos envolvam, de amor.&lt;br /&gt;- De amor?... Que tipo de amor?&lt;br /&gt;- Bem sabes a que me refiro. Afinal tu continuas a ser uma mulher normal.&lt;br /&gt;- Sexo?&lt;br /&gt;- Claro. Porque não? Não tiveste durante treze anos uma vida normal no campo sexual?&lt;br /&gt;- Queres saber? Nem durante todos os anos que estive casada, apesar dos filhos que tive, nem agora, o sexo me diz seja o que for. Não é, para mim, o factor mais importante na vida de uma pessoa. Há mais de um ano que isso acabou e, até hoje, não lhe senti a falta. Ainda bem que é assim, pois não me estou a ver andar por aí caça de homem para o levar para a cama. Não sou mulher para aventuras.&lt;br /&gt;- Bem sei que não e nem em tal tinha pensado. Creio conhecer-te o suficiente para o reconhecer. Só que não posso conceber que tenhas decidido fechar-te numa redoma ascética para o resto da vida.&lt;br /&gt;- Quase que podia afirmar que sim. Sabes, Isabel, eu sou muito exigente e quero muito das coisas, das pessoas, de tudo que faz parte da minha vida. Talvez tenha sido devido ao&lt;br /&gt;Meu constante exigir que o meu casamento fracassou. Eu sempre entendi que o relacionamento de um casal, tem de ser construído na base da compreensão, do diálogo e alicerçar-se no respeito pela personalidade e dignidade de cada um. Foi exactamente na defesa deste princípio que eu, um dia, agarrei nos meus filhos, fiz as malas e parti. Se nos últimos tempos havia sexo? Claro que sim. O desejo vinha, eu estava ali mesmo ao lado, era cómodo, simples e higiénico e ele servia-se. Sentia-me vazia, usada e com as ilusões desfeitas como um castelo de cartas&lt;br /&gt;- Realmente o que falhou?&lt;br /&gt;- Tudo. Quando as horas deixam de ter sessenta minutos e as palavras sentido, nada mais resta. Quando a agressão física substitui a compreensão e o raciocínio é chegado o final.&lt;br /&gt;A violência sempre me chocou, esteja ela onde estiver. Não posso aceitar que duas pessoas adultas, civilizadas se possam agredir de forma tão obscena, destruindo toda a dignidade de ser humano. Eu própria já mantive com o meu marido discussões vivas, gladiando-nos na defesa de um ponto de vista, mas nunca esquecemos, em tempo algum, o discernimento, assim como nunca perdemos a faculdade de reconhecer a razão quando ela surge. A discussão não pode ser apenas um processo de tentativa de um dominar o outro. Claro que desconheço os pormenores íntimos que levaram à derrocada daquele casamento. As razões apresentadas por Beatriz são importantes, longe de mim o negar, mas, não são o suficiente para destruir um relacionamento de tantos anos. Algo mais deve existir do que um desencanto. Creio mesmo que foi esse algo que motivou a violência. Bem sabemos quanta violência o homem tem praticado para conquistar a sua razão, fomentando guerras e morticínios, através dos tempos, mas verdadeiramente abomina que ele transporte essa violência para sua própria casa, para junto dos seus filhos.&lt;br /&gt;Acredita, querida Teresa, que desde o início tenho procurado não ser juiz. Não gostaria de o ser. Para descobrir o culpado eu teria de entrar bem dentro de cada um deles. Mas haverá na realidade, algum culpado? Ou algum inocente? &lt;strong&gt;&lt;em&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111273250666701289?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111273250666701289/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111273250666701289' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111273250666701289'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111273250666701289'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/beatriz-3.html' title='Beatriz (3)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111252311360169509</id><published>2005-04-03T11:05:00.000+01:00</published><updated>2005-04-03T11:12:27.120+01:00</updated><title type='text'>Beatriz (2)</title><content type='html'>Sempre à noite, quando o silêncio invadia por fim a casa, quando as luzes se apagavam e deixava cair o corpo cansado numa cadeira, sentia o peso da solidão. Durante o dia, com o trabalho, os miúdos, os pequenos nadas que sempre ocupam, não tinha tempo para pensar. Mas à noite, quando sentia vontade de ter alguém a seu lado, quando a sua mão se movia à procura de uma outra, quando os seus ouvidos atentos procuravam uma voz amiga, quando os seus lábios buscavam a carícia de um beijo, quando as suas coxas se abriam à procura de um amor, o seu corpo ía-se vergando ao peso da solidão e do silêncio. Os móveis, as paredes, a lâmpada do tecto, o quadro fora da simetria, a carpete ligeiramente desbotada e depois os móveis outra vez, num rodopio sem parar, até ficar tonta, sempre à procura de uma voz, de um gesto, de alguém. Há quanto tempo durava essa solidão? Perdera já a noção do tempo.&lt;br /&gt;Lentamente passou a escova pelos cabelos num gesto sem consciência, cansado. Um cansaço muito para além do físico. Um cansaço muito lá de dentro, muito grande, muito profundo.&lt;br /&gt;- Coitada da Beatriz, com todos aqueles filhos e ficar assim, tão só — Eram as amigas, as colegas, a família. Coitada da Beatriz! Começou a odiar as palavras falsas e então ria, ria sempre para apagar a pena, a compaixão dos outros e disfarçar a sua. A vontade louca que tinha de as estrangular quando vinham oferecer os préstimos! Se precisares de algo, é só dizeres. Apita que a gente vem correndo. Bem sabia o que lhe apetecia dizer.&lt;br /&gt;- Mãe! Ó mãe!... Quero água!.. - Ouviu, vindo do quarto ao lado. Levantou-se, foi à cozinha, encheu um copo com água e levou-o ao quarto dos filhos. O mais novito, sentado na cama, de olhos semiabertos esperava. Aguardou que bebesse e depois de ele se deitar, aconchegou-lhe a roupa, passando a mão pelos seus cabelos num gesto de carinho. Quando, de mansinho, saíu do quarto, o pequeno já dormia.&lt;br /&gt;Regressou ao seu quarto, despiu o robe e deitou-se. Apanhou um livro e começou a ler. Ao fim de alguns minutos verificou que não conseguia chegar ao fim da página; as letras saltavam-lhe à frente dos olhos e não conseguia apanhar o sentido das frases. Abandonou o livro e apagou a luz. Ouviu ao longe o silvo de um combóio. Ela apanhava todos os dias o combóio quando ía para as aulas. Fora há uma eternidade!&lt;br /&gt;Beatriz casara jovem, cheia de ilusões e amor, como todas as jovens, afinal. Nos primeiros tempos tudo fora simples, fácil. Foram anos cheios de todas aquelas banalidades que enchem a vida de um casal. Saída apressada de manhã, regresso cansado a casa, jantar, deitar os miúdos, uma ou outra palavra atirada ao acaso, cama, amor. No outro dia o mesmo. Depois outra vez. Até que um dia, o cansaço passou a ser maior, as palavras faltaram e não mais vieram. Quando deram pela falta era já tarde demais.&lt;br /&gt;- O diálogo sempre foi para mim o elo mais importante na união de um casal. Quando ele deixa de existir nada mais resta.&lt;br /&gt;- Olha que as palavras, muitas vezes, podem não dizer nada. - Disse eu, uma vez, muito pouco convencida.&lt;br /&gt;- Podem não dizer nada, mas quebram o silêncio e não deixam de ser palavras, não deixam de ser comunicação. Ninguém consegue viver sem comunicação. Quando ela nos falha na nossa própria casa... Tu estás casada há cerca de 18 anos e continuas a conversar com o teu marido. Isso significa, Isabel, que vocês continuam unidos. Essa união deixou de existir entre nós.&lt;br /&gt;Não soube o que dizer. É certo que eu e o Carlos, conversamos muito e quantas vezes autênticas palermices. Tem graça como eu não tinha notado o quanto essas conversas, mesmo idiotas, nos mantém unidos, o quanto elas são importantes. Entre Beatriz e o marido, o diálogo um dia acabou, talvez sem que ambos disso se apercebessem. Quando o verificaram era já tarde demais. Ela tentou impor o seu recomeço numa tentativa vã de salvar o que já nada havia para salvar. Veio a violência. Depois irremediavelmente a separação.&lt;br /&gt;Vive agora só, com os filhos, lutando desesperadamente para reconstruir tudo de novo. Ambos se destruiram e seguiram caminhos que não mais se cruzam. Num tempo extremamente rápido, a união de dois seres de tantos anos evaporou-se no ar. Nem as cinzas restaram.&lt;br /&gt;A reconstrução de uma nova vida a partir do nada, não é uma tarefa fácil, sobretudo para uma mulher só que não foi preparada, psicologicamente para o fazer.&lt;br /&gt;- Confesso que não foi fácil e continua a não ser, e não me refiro apenas ao lado financeiro da nova situação. A sociedade onde directamente nos encontramos integrados não gosta que um dos seus membros se tresmalhe. Sente que a sua instabilidade fica em perigo e então luta para que não haja desvios. A degradação do nosso relacionamento já tem anos. Além da esperança de novas tentivas, existia a pressão da familia e dos amigos que nos impediam de tomar uma decisão; e isto apesar de todos reconhecerem o quanto tudo já estava destruído. O balão rebenta e isso acontece de repente. O nosso balão acabou por rebentar. Há muito que tinha deixado de haver qualquer válvula de escape. Cansei-me, deixei de lutar e afastei-me. Ele?... Foi fácil. Reconstruiu a sua vida. É homem. Para eles é mais fácil. Não entendo muito bem porquê, mas é isso que acontece. A nós apenas nos resta tentativas e experiências e esperar que a sorte nos sorria.&lt;strong&gt;&lt;em&gt; (Vidas Cruzadas)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111252311360169509?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111252311360169509/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111252311360169509' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111252311360169509'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111252311360169509'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/04/beatriz-2.html' title='Beatriz (2)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111204161126318274</id><published>2005-03-28T21:23:00.000+01:00</published><updated>2005-03-28T21:26:51.270+01:00</updated><title type='text'>Beatriz</title><content type='html'>Existe em cada um de nós um mundo e, em cada dia, floresce uma esperança, cresce um desejo, morre uma dor, agoniza uma alegria. Todos os dias somos sempre diferentes e sempre iguais. Em cada descoberta que fazemos, vimos que nada de novo nos surge: não que sejamos imutáveis, mas as mutações são tão lentas que, mil vidas tivéssemos, delas não nos daríamos conta. Apenas no cômputo da História poderemos ter consciência das transformações que o homem e a sociedade sofreram no decorrer dos séculos. Mas teria, de facto, o homem sofrido transformações? Será o homem de hoje diferente daquele que vivia da caça e habitava uma caverna? O amor, o ódio, a alegria, a tristeza, a fome, a dor, não se manteve tudo isto imutável dentro do homem? Se tudo se repete, se nós somos os outros e sempre o seremos, para que temer o desconhecido?&lt;br /&gt;O homem nasceu da vida, ou do amor, ou de Deus ou de todos juntos; nao foi a sociedade que o criou mas, a partir do segundo exacto em que ele passou a respirar por si próprio, o absorveu, para nunca mais o libertar. A sociedade algemou aos seus princfpios o homem destruindo-lhe todas as ambições de individualidade, fazendo-o sentir a angustia quando se desvia. O indivíduo na sua individualidade não existe e jamais lhe será permitido existir. Impossível fugir ao sistema. Seria a queda e a morte. Irremediável!&lt;br /&gt;Logo que damos os primeiros passos na consciência das coisas é-nos metralhado ininterruptamente que o eu é uma invenção dos falhados, não existe: somos nós. Eu sou nós. Tu não és nada além de uma ínfima partícula de um todo que somos nós. O teu eu não nos diz nada, não existe simplesmente. Para que falar de coisas que não existem? Individualidade? Mas que loucura! Sem nós não és nada. Desiste de lutar. Não tens a mínima hipótese de ganhar, tendo apenas como arma o teu eu. Que podes tu fazer com isso? Nada. Absolutamente nada. Desiste. Depois, está tudo previsto. Sempre esteve. Impossível sair. Os que conseguem voltam. Voltam sempre. Acredita que não existe fuga possível.&lt;br /&gt;Beatriz, um dia, resolveu ser ela, cansada já da constante negação de si mesma. Enfeudada a uma vida conjugal alienante, um dia quebrou as grilhetas e partiu só para um mundo então desconhecido. O sentimento que, durante alguns anos, alimentou a chama de uma vida em comum extinguiu-se e a escuridão, o silêncio, a solidão desceu sobre ela e ficou. Nos ultimos tempos as palavras não eram mais palavras mas balas que feriam e faziam sofrer. Como em qualquer guerra, as armas foram ficando cada vez mais eficazes, mais terríveis e umas substituem as outras. Das palavras à agressão foio curto passo e foi o fim. Ou talvez o princípio. A violencia sempre o fim ou o princípio de qualquer coisa.&lt;br /&gt;Beatriz!... Nunca te falei de Beatriz, pois não? Trata-se de uma amiga cá de casa, uma mulher interessante. Em certa medida uma mulher corajosa. Uma amiga confidente com quem passei longas horas a conversar. A sua vida talvez não nos ofereça grandes variantes, mas creio que nos proporcionará alguns momentos de meditação. Se a nossa experiência é importante, a dos ou tros não o é menos e do conjunto nasce o nosso conhecimento e o seu enriquecimento. Eu pelo menos assim o penso.&lt;br /&gt;Gostaria de contar a história de Beatriz, mas tenho receio de a retratar como uma mulher angustiada na sua forçada liberdade. Quando penso nela tenho por vezes essa certeza, só que está absolutamente errado. Sei que está errado mas continuo a pensar nisso. Beatriz é uma mulher que aprendeu viver com a sua solidão, com os seus traumas, ganhando em cada dia forças para vencer e continuar a ser ela mesma. Não é uma luta fácil, sobretudo à noite, quando apenas tem como companhia o vazio.&lt;br /&gt;Cada cor que o pincel lança na tela branca é a partícula que irá formar a imagem perfeita da mulher no seu contínuo caminhar. São novas experiências que ela absorve e que fará com que um dia descubra que na vida não existem apenas mortos e moribundos. Transporta na sua bagagem imensas interrogações, procurando em cada curva do caminho a resposta exacta para cada uma delas e vai atenta ao correr tranquilo das águas do rio. Um dia vai chegar o barco vazio e ela não o tai perder. Vai descobrir que o destino desse barco vazio é um porto seguro lá muito escondido dentro de si. Deixará então de ouvir palavras ocas e vazias de sentido.&lt;br /&gt;Sentada em frente ao espelho mirou as faces e descobriu nas comissuras dos olhos umas pequenas rugas e nos cabelos curtos alguns fios prateados. Deixou que nos lábios sem pintura se desenhasse um leve sorriso triste. Aquelas rugas, aqueles cabelos brancos, tanta coisa significavam. Tanta vida vivida, tantas horas vazias, tanta coisa perdida e ganha. Há quanto tempo se nao via ao espelho, foi a pergunta que fez a si própria, olhando-se nos olhos. Os olhos! Os seus olhos continuavam sempre verdes e belos, talvez um pouco magoados, tristes, mas sempre belos. Ele próprio o dissera um dia, que fora a beleza dos seus olhos que o atraíra. Se não fora os teus olhos bonitos... Mais tarde descobrira por si própria o quanto de verdade existia naquela frase. Apenas a cor dos seus olhos...&lt;br /&gt;Apoiou o queixo nas palmas das mãos e assim ficou, durante largos minutos. Atrás de si uma cama de casal vazia. Viu-a através do espelho. Nesse momento sentiu-se só. Terrivelmente só! &lt;strong&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111204161126318274?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111204161126318274/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111204161126318274' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111204161126318274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111204161126318274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/03/beatriz.html' title='Beatriz'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111161341753013471</id><published>2005-03-23T21:27:00.000Z</published><updated>2005-03-23T21:30:17.536Z</updated><title type='text'>Clarisse</title><content type='html'>Num dos poucos momentos de repouso, passou-me pela mente que, quando saísse dali iria sentir horríveis remorsos pela depravação que estava vivendo naquele momento. Mas quando tal acontecia afastava do pensamento, resolutamente, tais ideias. Seria por cobardia, por medo ao terror da consciência que teria de enfrentar mais tarde, que eu os afastava? Não, creio que não. Era apenas porque, pela primeira vez na minha vida, sentia-me feliz e, muito mais do que isso, liberta. É verdade, boa amiga, a maravilhosa sensação de intensa liberdade fazia com que o meu espírito vogasse em paragens distantes e o meu corpo fosse sacudido pelo suave vibrar de uma melodia. Eram deliciosas as vertigens que sentia. Vertigens de uma entrega total a uma desenfreada volúpia.&lt;br /&gt;Houve momentos em que as lágrimas me corriam pelas faces, incontroláveis.&lt;br /&gt;- Choras? Porque choras, meu amor? - Perguntou ele, preocupado. Sorri por entre as lágrimas e respondi com a frase mais banal que naquele momento me ocorreu.&lt;br /&gt;- Choro de felicidade! - Mas não lhe disse o que significava para mim essa frase tão banal. Creio mesmo que não me compreenderia. Não era apenas de felicidade que eu chorava; era porque eu me sentia viva. Posso jurar que eu não sabia que era assim. Chorava por isso; pela descoberta.&lt;br /&gt;Nem os livros, nem as experiências sussurradas entre risinhos estúpidos das amigas, nos conseguem transmitir a profunda realidade física do amor. Não foram ainda inventadas as palavras certas que consigam definir com toda a verdade do sentir, o que é o amor entre um homem e uma mulher. É preciso viver esses momentos como se fossem os últimos, todas as vezes como se fossem as derradeiras, para que se realize a comunhão perfeita entre dois corpos e dois espíritos. Eu vi, a meus pés, feito em farrapos, todas as crenças, todos os tabus, todas as histórias que me enfiaram pela cabeça abaixo sobre o pecado do sexo. As minhas lágrimas eram gritos a uma liberdade que eu jamais tinha sentido.&lt;br /&gt;Ao olhar em volta e ver as paredes que me rodeavam sujas e nalgumas partes com o estuque caído; ao ver a cama de ferro toda cheia de ferrugem; ao ver a colcha feita de farrapos multicolores já desbotadas pelo uso e pelo suor dos corpos nus; ao ver o bidé de esmalte pintalgado de mossas pretas; ao olhar para o tecto e ver nele pendurado uma fita caça moscas com cinco moscas e três mosquitos; ao olhar para um rectângulo brilhante que outrora fora um espelho, onde as nossas caras disformes mais pareciam seres de outro mundo; eu pensava que era necessário ter de ir a lugares onde a repulsa se mistura com o fascínio do estranho para se conseguir ter dentro do nosso corpo a liberdade do sentir e a força da vida.&lt;br /&gt;Há pouco mais de vinte e quatro horas eu não sabia sequer da existência daquele rapaz; agora ele estava, todo nu, deitado a meu lado. Nada conhecia dele, mas não era mais um desconhecido. E foi assim que nos despedimos com um até à próxima, sem sabermos exactamente quando seria essa próxima. No nosso intimo a urgência crescia.&lt;br /&gt;Eu temia, como disse, o meu regresso a casa. Receava que, longe das horas loucas passadas e logo que envolvida pelo meu próprio ambiente, eu soçobraria e iria sentir terríveis remorsos, que todos iriam descobrir o que acontecera e que eu me sentiria a mais reles e depravada prostituta. Como eu estava enganada! Nada disso aconteceu e cheguei até a assustar-me por isso. Seria eu, no fundo, tão depravada, tão sem moral que, ao beijar os meus filhos, ao dar as ordens à criada, ao receber o meu marido, ao dar um toque num “bibelot” fora do lugar, que continuasse a sentir dentro de mim esta tão intensa liberdade? Recordei uma frase que li e nesse momento senti meu corpo estremecer; mas ainda não de remorsos: “&lt;em&gt;A mulher está tão vontade na perfídia como a serpente nas sarças e se move aí com uma facilidade que o homem jamais atinge”.&lt;/em&gt; Sei que naquele momento não acreditei: era mais um misógino de um falhado. Mas haverá alguma verdade naquela afirmação? Tudo em mim diz que não, que é impossível. Bem sei que nunca faltaram misóginos para vilipendiar a mulher em nome da sua velhacaria, da sua tendência compulsiva para a mentira e para a dilapidarem em nome da sua ingratidão. Mas o pior, ou o melhor, não sei bem, é que não encontro em mim, neste momento, nenhuma identificação com esse tipo de afirmações. Não me sinto uma mulher má. Tenho a certeza que não sou uma má mulher. Consegui, numas horas, o que em toda a minha vida julgava impossível. E não me refiro apenas ao aspecto físico.&lt;br /&gt;Teresa querida, vai longa a minha carta e eu sinto-me cansada. Maravilhosamente cansada! Em breve voltarei a escrever. É muito importante para mim que o faça. Estou a dar os primeiros passos numa estrada que não sei onde vai ter, nem mesmo se será a estrada certa: o que importa é que eu descubra se esta é a minha estrada, certa ou errada. Descobri que sou mulher, que o meu corpo deixou de ser um recipiente de esperma em dias e horas certas, que sinto frio, fome e desejos. Que quero dar muito e muito receber. E, santo Deus, eu tenho um espaço infinito para receber e incontáveis toneladas de amor para dar. “&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Depois de acabar de ler fiquei durante longos minutos sem saber o que pensar. Não me foi fácil aceitar esta surpreendente revelação de Clarisse. Não nela. É demasiado insólito, demasiado violento para se poder acreditar em tudo que ela escreveu. Não consigo ver a Clarisse, aquela doce e ingénua Clarisse que nós tão bem conhecemos, numa tal depravada situação. Não, não pretendo fazer juízos de valor. Ela funcionou durante 44 anos como uma mola comprimida que de repente se soltou e foi projectada num voo, por enquanto, descontrolado. Nasceu e viveu numa atmosfera onde os tabus eram o guia de todas as acções onde os princípios religiosos eram elevados ao fanatismo, O próprio casamento, que a poderia elevar a uma consciência e liberdade de mulher adulta, foi a mortalha que ainda mais a amordaçou.&lt;/em&gt; &lt;strong&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111161341753013471?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111161341753013471/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111161341753013471' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111161341753013471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111161341753013471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/03/clarisse_23.html' title='Clarisse'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111152362510649609</id><published>2005-03-22T20:30:00.000Z</published><updated>2005-03-22T20:33:45.110Z</updated><title type='text'>Clarisse (2)</title><content type='html'>Não é fácil neste momento, conseguir encontrar uma plausível explicação para tudo isto. Tudo o que me rodeava: os retratos, os móveis, os objectos, as sombras, tudo, tudo o que silenciosamente fazia parte da minha vida, me acusava. Juro que eu via tudo isso e então fechava os olhos. Repetia vezes sem conta que era uma mulher honesta, casada com um homem maravilhoso, mãe de dois filhos encantadores, temente a Deus. Não podia, de repente, atirar para a lama com tudo isso, apenas porque um rapazinho de 28 anos se atrevera a convidar-me para um encontro. E afinal que iria eu fazer a esse encontro? Que lhe diria? Santo Deus, porque haveria de eu estar tão preocupada? Já decidi que não vou a esse encontro. Faltam vinte minutos. Tolice!&lt;br /&gt;Quantos convites é que eu já recebi? Nenhum. Nem a sério nem por brincadeira. Nunca me marcaram um encontro. É engraçado como nunca pensei nisso até hoje. Sei que não sou feia, mas quantos galanteios é que eu já ouvi? Nenhum. Nem mesmo do meu marido. Mas que estupidez estes pensamentos! Sou uma mulher honesta, religiosa, fiel a meu marido; não ando pelas esquinas procura de galanteios. Devia era ter vergonha por estes pensamentos. Só que eu não senti nenhuma espécie de vergonha quando ele me disse que era bonita. Nesse momento senti o meu coração dar um pulo dentro do meu peito e corei de felicidade. Essa é que é a verdade. Faltam dez minutos... Se fosse agora ainda, conseguia chegar a tempo.&lt;br /&gt; Num repente, fazendo com que todos os meus movimentos ocupassem por completo os meus sentidos, impedindo que a razão me fizesse mudar de ideias, mudei de roupa e corri pela porta fora. Entrei no carro e disparei pela avenida abaixo até ao local do encontro. Se não encontrar estacionamento logo à primeira volto para casa, ía pensando, atirando assim para as mãos da sorte a decisão final do meu encontro. Ficasse, pois, nas mãos do destino. Aconteceu o que muito raras vezes acontece: arranjei estacionamento logo que cheguei. A sorte tinha decidido.&lt;br /&gt;Durante todos aqueles tensos minutos eu não tinha conseguido pensar em nada, mas agora, que caminhava para a pastelaria, começava a ficar nervosa. Decidi que tomaria um café com ele e depois me despedia. Disfarçadamente olhei para o relógio passava meia hora da hora combinada. E se ele já lá não estivesse? Então tudo ficaria resolvido por si mesmo. Mas ao pensar nisso, estremeci de receio que tal acontecesse.&lt;br /&gt;Não o vi quando entrei na pastelaria. Pedi um café e enquanto esperava ouvi um olá atrás de mim. Olhei e vi-o sorrir para mim. Estremeci da cabeça aos pés e não consegui dizer uma palavra. Serviram-me e enquanto bebia não tive a coragem de o olhar uma única vez. Quando acabei ele colocou as moedas em cima do balcão e, tocando-me no braço disse baixinho: vamos. Nem sequer me lembrei de lhe perguntar para onde: segui-o docilmente.&lt;br /&gt;Talvez toda esta sequência de acontecimentos te pareça muito estranhos, sem sentido, estúpidos e até inacreditáveis. Hoje mesmo eu não consigo explicar a mim própria como é que tudo isto aconteceu, tudo tão estupidamente simples, sem que, da minha parte tenha havido a mais pequena reacção. No espaço de horas dei um violento pontapé em toda a minha vida e aniquilei por completo toda a estrutura moral que, desde que me conheço, foi a minha fortaleza e o padrão da minha vida. As aventuras, e tu, sabe-lo bem, nunca existiram na minha vida. Sei hoje que a inexistência de aventuras não se deve minha falta de vontade de as ter, mas apenas porque elas não aconteceram. Elas têm que surgir como fruto exclusivo do acaso. As aventuras são as surpresas da vida, o seu lenitivo, e elas surgem de minuto em minuto, só que nós não temos nunca tempo para as agarrar. E quanta coisa maravilhosa deixamos escapar.&lt;br /&gt;Saímos da pastelaria e caminhámos alguns metros até que metemos por uma transversal, O seu Seat encontrava-se ali estacionado. Durante todo o tempo ele ía falando de banalidades que me faziam sorrir. Apercebeu-se perfeitamente do meu nervosismo e fazia todos os possíveis para que eu o esquecesse.&lt;br /&gt;Alguns minutos depois encontrávamos fora da cidade. Depois de termos estacionado o carro numa ruela, encaminhámo-nos para um prédio já bastante antigo, cujas escadas eram um pouco escuras. Subimos ao segundo andar e ele tocou uma campainha: alguns segundos depois uma mulher abriu a porta. Sem uma palavra franqueou-nos a entrada. Eu tremia toda e procurava não pensar. Creio mesmo que não necessitava de qualquer esforço, pois nada existia dentro de mim. Era como se de repente se formasse um vazio dentro de mim e eu fosse só corpo, um autómato.&lt;br /&gt;Trocou algumas palavras com a mulher, que eu não cheguei a entender e, agarrando-me por um braço, levou-me para um quarto. Ao relancear o olhar senti uma louca vontade de fugir. Mas que estava eu ali a fazer? Que coisa terrível, Santo Deus! A partir daí tudo se passou vertiginosamente, pelo que, segundos depois esqueci por completo onde me encontrava. Puxou-me para si e, enquanto me beijava cheio de fúria carregada de ternura e desejo, ía despindo-me. Que fiz eu? Nada. Deixei-me apenas dominar pelo seu Ímpeto. Tudo se passava a uma velocidade incrível. Quando, já nus nos deixámos cair sobre a cama, esta estremeceu toda que temi ficasse desfeita.&lt;br /&gt;Meu Deus! Meu Deus! Cada vez se torna mais difícil continuar a escrever. Que imagem terrível estou a pintar de mim mesma. Talvez duvides de tudo isto. Eu própria ainda não consigo acreditar. É tudo tão fantástico, tão irreal!&lt;br /&gt;Sabes bem a educação que tive, os rígidos princípios morais e religiosos a que, durante toda a minha vida estive submetida e que sempre influenciaram profundamente minha maneira de ser: O sexo foi para mim, desde sempre, uma consequência naturalmente inevitável do casamento, um preço a pagar. Fui educada a reprimir os desejos e a considerá-los pecaminosos. Deus deu-me dois filhos, mostrando-me a experiência dolorosa da vida sexual da mulher.&lt;br /&gt;A experiência que vivi naquela tarde foi o início de uma intensa metamorfose que, ainda hoje, volvidos três meses, se encontra em ascensão. Eu, a pacata, a ingénua, a honesta, a temente aos mandamentos de Deus, a terrivelmente inibida Clarisse, rebolei num absoluto descontrole furioso, em posições totalmente obscenas, toda nua, com um, então, desconhecido. Cedi todo o meu corpo a todos os seus desejos e exigências. Eu própria me apossei dele e o domei à minha vontade. Fiz e deixei fazer coisas que nem pensar me atrevia. Dominei e fui dominada. Fui escrava e rainha. Naquelas horas que me pareceram minutos, desci e subi aos céus vezes sem conta. Vagueei entre nuvens, rastejei na lama, fiquei limpa e suja. Fui, naquela tarde, terrivelmente feliz, como eu jamais pensaria que isso fosse possível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111152362510649609?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111152362510649609/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111152362510649609' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111152362510649609'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111152362510649609'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/03/clarisse-2.html' title='Clarisse (2)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111126961515366553</id><published>2005-03-19T21:57:00.000Z</published><updated>2005-03-19T22:00:15.156Z</updated><title type='text'>Clarisse</title><content type='html'>&lt;i&gt;Reconheço solenemente a minha incapacidade de julgar as pessoas. Podemos viver uma vida inteira com uma pessoa que jamais a conheceremos. Clarisse ensinou-me que assim é. Aquela doce, frágil e cândida criaturinha provou-me que dentro de nós há sempre um eu desconhecido que aguarda apenas uma oportunidade para saltar cá para fora.&lt;br /&gt;Que a Clarisse não era a mesma, isso verifiquei eu, mas até que ponto ía essa modificação é que não fazia a mínima ideia e nem mesmo me atrevia a adivinhar. Mas deixemos para ela, minha querida Isabel, a narração dos factos.&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que vais pensar de mim? Foi esta a interrogação que, durante longos dias, ocupou a minha mente. E continuo ainda, neste preciso momento em que decidi escrever, sem saber como começar, nem o que dizer, tal o medo do que irás pensar de mim.&lt;br /&gt;Tenho um amante! É verdade, eu a ingénua, a furiosamente honesta - como já alguém me chamou - Clarisse tem um amante. Tenho um amante com metade da minha idade. Como que foi isso possível? Não sei. Mil vezes fiz a pergunta a mim mesma e continuo sem encontrar a resposta. Respostas? E estarei eu mesmo interessada nelas?&lt;br /&gt;Vivo momentos de autêntica loucura onde todos os meus sentidos, até a própria razão, estão completamente subjugados. Tudo começou com a terrível simplicidade das coisas importantes. Um choque à saída de uma pastelaria, as habituais desculpas, sorrisos e quase sem me dar conta, encontrava-me ao balcão a beber um café na companhia de um desconhecido. Muito jovem, 28 anos vim a saber mais tarde, tinha conversa fácil, despreocupada, alegre. A técnica de nunca parar de falar deu resultado, pois eu não conseguia arranjar coragem, nem tempo, e no fundo, nem vontade, para o mandar passear.&lt;br /&gt;Quando nos propúnhamos a sair, ele desejou acompanhar-me, mas aí fui firme e recusei. Marcou-me um encontro para o dia seguinte àquela hora e naquele mesmo local.&lt;br /&gt;- Creio que está a fazer uma terrível confusão a meu respeito. - Respondi, sorrindo.&lt;br /&gt;- Porque havia de estar? — Perguntou ele, fazendo uma cómica cara de espanto.&lt;br /&gt;- Não sou uma qualquer a quem, no primeiro segundo se marca um encontro. Além do mais, meu caro jovem, eu sou uma mulher casada, honesta e com dois filhos quase da sua idade. - Quando acabei de falar, senti-me ridícula por todo aquele arremesso de palavras, sem mesmo saber porquê.&lt;br /&gt;- Em primeiro lugar permita-me recordar-lhe que já nos encontramos a conversar há mais de meia hora o que, como sabe, é muito mais do que um segundo. Reconheço que sou jovem, mas bom rapaz, acredite, além de que não a aconselho a acreditar na idade aparente das pessoas: na maioria das vezes elas não significam nada. Durante todo este tempo em que tive o grande prazer de conversar consigo nunca me passou pela mente em duvidar da sua honestidade e, precisamente por essa razão, que cometi a ousadia de lhe marcar um encontro. Não se marcam encontros a mulheres desonestas; acredite que não há necessidade disso. Lamento que seja casada. Sempre achei que uma mulher bonita não devia ser nunca propriedade exclusiva de um só homem. Quanto aos seus filhos sou obrigado a felicitá-los pela felicidade de terem uma mãe tão maravilhosa. Ditosos filhos os seus, já dizia o poeta. Posto isto, amanhã a esta mesma hora estarei aqui à sua espera. Pode acreditar que, o tempo que a partir de agora nos vai separar, vai-me parecer uma eternidade.&lt;br /&gt;- Faça como entender. Eu não virei.&lt;br /&gt;- Como se chama?&lt;br /&gt;- Clarisse. - Mal mencionei o nome, logo me arrependi. Que louca eu estava a ser! Dizer o meu nome a um rapazola desconhecido. Mas que estupidez!&lt;br /&gt;- Até amanhã a esta hora, Clarisse! - Sorriu, virou-me as costas e desapareceu por entre as pessoas. Durante alguns segundos fiquei ali, especada, sem saber o que fazer.&lt;br /&gt;De regresso a casa, ía pensando naquele estranho e cómico encontro. Foi a primeira vez que tal me aconteceu. Rapaz bonito. E como ele falava, Santo Deus! Estupidez! Tenho quase o dobro da sua idade. Podia ser sua mãe. Mas que coisa mais doida! Claro que não vou aparecer.&lt;br /&gt;Durante o resto do dia não voltei a pensar no encontro. No dia seguinte conforme iam passando as horas, as palavras do jovem desconhecido começaram a insinuarem-se e quanto mais ía passando o tempo mais fortemente elas me martelavam a cabeça. Tentei afastar dentro de mim tais pensamentos e procurei por todos os cantos da casa algo para fazer. De segundo em segundo repetia a mim mesma que não iria; só que os meus olhos não se conseguiam afastar do relógio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111126961515366553?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111126961515366553/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111126961515366553' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111126961515366553'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111126961515366553'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/03/clarisse.html' title='Clarisse'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111091985709245779</id><published>2005-03-15T20:49:00.000Z</published><updated>2005-03-15T20:50:57.096Z</updated><title type='text'>A Resposta</title><content type='html'>Puxa vida, nem imaginas a grande alegria que senti ao receber a tua carta! Desde que abandonaste a cidade, nunca mais nos tornámos a ver e as notícias entre nós têm sido bastante vagas. Achei a ideia estupenda e nela alinho inteiramente. Talvez venha a ser interessante esta troca de correspondência. Tu, nessa longínqua e escondida aldeia, a Clarisse naquela super cosmopolita cidade e eu nesta aterradora e medonha selva de cimento armado.&lt;br /&gt;O trabalho, minha querida Teresa, não deve ser apenas um processo de assegurar a nossa subsistência ou com ele adquirirmos uma certa independência económica, ou até mesmo como pretexto para uma fuga da prisão doméstica. Ele tem que ser a razão da nossa realização, ele tem que nos dar muito mais do que dinheiro. Eu sei que tudo não passa de uma utopia, pois são bem poucos os que se realizam no seu trabalho, que encontram nele uma satisfação interior. Creio que sou uma privilegiada, pois faço exactamente o que escolhi. Sempre considerei as traduções um trabalho interessante. È certo que continuo em casa mas a sensação de inutilidade desapareceu. Tenho um cantinho só meu e durante várias horas por dia, mergulho entre montanhas de papeis, livros e dicionários. Sabes da minha paixão pela literatura e da minha tremenda falta de criatividade. Já que não consigo escrever os meus próprios livros, trabalho nos dos outros. Mas aqui entre nós, o bichinho está cá dentro e um dia, quem sabe, ele não se solta.&lt;br /&gt;Fiquei contente por saber que vais reiniciar a tua actividade literária. Deves aproveitar todo esse tempo de que dispões, de toda essa paz que te rodeia. Tens montes de valor e a tua imaginação, que eu sempre admirei, tem força suficiente para grandes voos, Vamos, minha querida, que o mundo espera por ti.&lt;br /&gt;Lembras-te da minha filha? A Zita tem agora 17 anos e é um encanto de moça. Todos dizem que parecemos duas irmãs e, como deves calcular, a minha vaidadezinha não deixa de se rejubilar.&lt;br /&gt;Ao olhar para a minha filha não posso deixar de recordar a minha juventude. Quão diferentes nós éramos! Os jovens de hoje assustam-me. São demasiado adultos, demasiado conscientes das realidades. Querem tomar parte activa na sociedade e não admitem serem relegados para segundo plano. Eles são importantes porque são o futuro e têm perfeita consciência disso. Têm uma palavra a dizer e querem-na dizer. Mas, apesar de todo o meu receio, motivado, talvez, pela vergonha de não ter tido a coragem que eles demonstram, considero este envolvimento da juventude um passo gigante na construção de uma sociedade melhor, mais humana, mesmo enfrentando o terrível espectro da droga; da prostituição e do desemprego.&lt;br /&gt;Que longe vão os tempos da nossa juventude em que a nossa alegria de viver se confundia com uma certa inconsciência das realidades. Apesar dos namoricos e dos terríveis desgostos amorosos que sofríamos inspirando a nossa ingénua e dramática poesia, a vida era, para nós, uma alegre brincadeira. Não agarrávamos as coisas e quando fazíamos alguma tentativa tudo se escapava entre os dedos. Faltava-nos determinação. Talvez fosse os efeitos de uma guerra cujos vapores ainda se não encontravam totalmente dissipados e nós quiséssemos a todo o custo, refugiarmo-nos no esquecimento do podre mundo em que tínhamos nascido. Santo Deus, o quanto nós errámos! Deixámo-nos dominar por uma indiferença e alimentamos assim uma sociedade moribunda carregada de preconceitos e tabus. Faltou-nos coragem para dizer não a toda uma subjugação moralista, divorciada já nesse tempo, da própria vida.&lt;br /&gt;Não vou repudiar a educação que tive, mas que ela baseava a sua essência na manutenção de princípios onde reinava o medo, o pecado e a liberdade de sermos nós mesmas. Ah, minha querida Teresa, que mundo maravilhoso que hoje teríamos se tivéssemos tido a coragem de dizer não. Nós emergimos dos escombros e não soubemos aproveitar essa oportunidade.&lt;br /&gt;A minha filha acusa-me de, como mulher, nada ter feito para transformar a sociedade. Estando nós, mulheres, numa situação maioritária nunca, até hoje, utilizamos essa força. A humanidade é formada por homens e mulheres, mas nós nunca fomos mulheres. Somos esposas, mães, prostitutas, secretárias, criadas, amantes e tudo o mais que os homens entendam por bem inventar, mas nunca mulheres. Ela tem razão. Nós temos sido sempre a sombra dos homens, aquela sombra sempre fiel e sempre a levantá-los nos momentos das suas quedas. Mas qual é o homem que levanta a mulher quando ela cai? À mulher a queda está-lhe proibida.&lt;br /&gt;Pouco me importa o que estas cartas possam significar, caídas que sejam em mãos estranhas. Elas são pedaços de um diálogo que há muito eu desejava construir comigo mesma. Estou cansada de ser uma surda-muda algemada ao silêncio, enclausurada nesta imensa selva de cimento armado &lt;strong&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111091985709245779?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111091985709245779/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111091985709245779' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111091985709245779'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111091985709245779'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/03/resposta.html' title='A Resposta'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111070946342279274</id><published>2005-03-13T10:22:00.000Z</published><updated>2005-03-13T10:24:23.423Z</updated><title type='text'>A ideia (2)</title><content type='html'>Mas deixemos para lá as recordações. A vida é, hoje, e o que foi, já não volta a ser.&lt;br /&gt;Sabes, achei a Clarisse muito estranha, diferente. Estranhamente diferente. Creio que ela deixou de ser aquela doce e ingénua Clarisse dos nossos tempos. Bem sei que, mais de quinze anos de casada, dois filhos e dobrado já os quarenta amadurecem uma pessoa, mas não no caso de Clarisse. Por mais anos que tivesse, Clarisse, seria sempre a doce e ingénua Clarisse. Estou convencida que algo aconteceu com ela.&lt;br /&gt;“Descobri na vida um novo colorido, uma nova vida, algo que eu considerava inacessível. Descobri que não podemos reger a nossa vida apenas entre o certo e o errado.”&lt;br /&gt;Foi a resposta de Clarisse à minha observação de a achar diferente. Uma resposta que podia dizer muito ou não dizer nada. Pensei em fazer-lhe perguntas mais directas mas algo me dizia que, naquele momento, o não devia fazer.&lt;br /&gt;Depois da Clarisse partir e porque a sua visita fez renascer em mim uma pontinha de saudade da sofisticada turbulência da cidade, fui ao guarda-roupa e mirei durante longo tempo todos os meus vestidos. Quando que terei eu novamente oportunidade de os fazer brilhar? Nessa altura já todos eles estarão fora de moda...&lt;br /&gt;Pelo meu quarto, arrumados e, de certo modo esquecidos, todos os ornamentos que fazem uma mulher bonita e vaidosa. As jóias, os vestidos, os perfumes, os sapatos de verniz e tacão alto, cada coisa no seu lugar, inertes e sem vida. Que longe vão os penteados complicados. Estás a ver-me com um vestido Dior, andando pela terra molhada do orvalho da noite, colhendo cenouras e hortaliças ou ir à feira por caminhos de terra batida e ali espreitar os dentes dos animais? Foi este o resultado de casar com um engenheiro com tendências para agricultor. O Jorge encontrou aqui, entre as batatas e as nabiças a sua verdadeira vida, o seu “eu” autêntico.&lt;br /&gt;Quanto a mim, acho que me estou a adaptar, embora com uma certa dificuldade, a toda esta paz, a toda esta pureza de vida. Aqui, nesta terra perdida entre montanhas, uma hora tem mesmo sessenta minutos. É certo que de quando em vez, sinto saudade da vida rápida, agitada e tantas vezes vazia da cidade, mas em cada dia que passa sinto que essa saudade vai diminuindo.&lt;br /&gt;Esta nossa correspondência é o elo que me poderá unir a um passado não muito longínquo, aquele passado que foi a nossa formação e que pretendia preparar-nos para o dia que hoje enfrentamos. Quantas vezes eu duvido da eficácia dessa preparação, sobretudo quando eu verifico o quanto diferente a realidade, daquilo que nos diziam. No é o medo de assumir a responsabilidade de uma idade adulta, nem o enfrentar da que nos faz, muitas vezes, vacilar, mas o descobrirmos o quanto fomos enganadas. Teria sido esse enganar constante fruto de uma ignorância ou simplesmente como protecção de algo que eles próprios não foram capazes de enfrentar e modificar?&lt;br /&gt;Deus sabe o quanto eu desejaria enfrentar plenamente toda a responsabilidade de mulher adulta, assumir a grandiosa responsabilidade de ser mãe. Este vazio que o tempo faz agigantar é a minha derrota de ser adulto, a minha terrível frustração de mulher, a certeza da minha incapacidade. Sei que não devo transformar numa tragédia uma necessidade psíquica, dizem-me isso vezes sem conta, mas então quais as nossas necessidades não satisfeitas que são uma tragédia?&lt;br /&gt;Não é muito fácil para mim falar neste assunto, mas tenho de arrancar de dentro de mim toda esta angústia, este desejo que jamais será satisfeito. Jorge não o confessa, mas sinto que, também ele sente o mesmo vazio, que esta falta de um riso de criança o faz sofrer. Deus não o quis, dizem-me, e por alguma razão assim é. Não me importo de aceitar a vontade de Deus, mesmo quando essa vontade significa uma tremenda mágoa, uma dor imensa, mas o que eu não aceito que Ele não me dê uma razão. Uma só. Ele que me explique porquê. Devemo-nos resignar aos desígnios de Deus por mais misteriosos e insondáveis eles sejam. E pronto, ponto final no assunto. No acredito, não posso acreditar que Deus, esteja Ele onde estiver, tenha de repente resolvido lembrar-se de mim e arbitrariamente determinado que eu não podia ser mãe. É estúpido demais para se acreditar! &lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111070946342279274?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111070946342279274/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111070946342279274' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111070946342279274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111070946342279274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/03/ideia-2.html' title='A ideia (2)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8321717.post-111066011240911702</id><published>2005-03-12T20:40:00.000Z</published><updated>2005-03-13T10:21:36.206Z</updated><title type='text'>A ideia (1)</title><content type='html'>Há já algum tempo que ando a mastigar a ideia de escrever-te, querida Isabel mas, por este ou aquele motivo tenho adiado e os dias vão passando. Não que eu tenha muitos afazeres mas, tu sabes, há sempre esta ou aquela coisa que interfere na nossa vontade. Faltava-me um empurrão e ele veio da Clarisse, que resolveu fazer-me uma visita de alguns dias.&lt;br /&gt;Soube por ela que estás óptima e que conseguiste arranjar uma ocupação. Formidável esse teu passo para uma certa independência além, claro, da fuga que representa vida doméstica sempre asfixiante e alienante. Felizmente que não é apenas na vida social que surgiram transformações. Também a familiar sofreu alterações nas condições de vida e de atitudes. Só que na maioria das vezes isso não representa qualquer vantagem, mas sim uma grande sobrecarga. Tudo o que a mulher consegue que se relacione com a sua independência, com a sua afirmação como ser humano, tem de o pagar e nem sempre fácil esse pagamento.&lt;br /&gt;Certo que o homem se adaptou ao novo papel da mulher, não a considerando como uma serva ou como uma vestal. Somos companheiras, camaradas ou, como dizem agora os nossos filhos, compinchas.&lt;br /&gt;Tens, segundo parece, uma actividade interessante. Com a tua extraordinária capacidade para línguas e tua sensibilidade, a tradução literária é um trabalho onde te deves sentir às mil maravilhas. Ao fim e ao cabo encontramo-nos ambas no mesmo campo, pois também eu resolvi reiniciar a minha actividade de escritora, após tantos anos de interrupção. E, acredita, que não encontraria melhor lugar do que este.&lt;br /&gt;A aldeia onde vivemos verdadeiramente fascinante, com todo aquele magnetismo rude e simples da natureza. Tenho o lugar ideal para o meu trabalho literário mas, com este ar absolutamente liberto de poluição e esta paz, se não mantenho uma rígida disciplina, nem te conto, fico mais gorda que sei lá quê. Mesmo assim, com todos os cuidados e algumas insónias, já tenho uns quilitos além da conta.&lt;br /&gt;Até que conseguisse libertar-me da permanente falta de tempo, do movimento sempre contínuo, de toda a efervescência com que a cidade nos algema e subjuga, eu considerava tudo isto de uma pasmaceira verdadeiramente estupidificante. Não foi fácil a adaptação. O Jorge, esse, está nas suas sete quintas, apesar de, todos os dias ter de fazer mais de quarenta quilómetros para ir para a fábrica e outros tantos no regresso, alguns deles por verdadeiros caminhos de cabras.&lt;br /&gt;De início ainda ía umas quantas vezes por semana até à vila, mas confesso que essas viagens deixaram de me entusiasmar. Estás a ver, cinema duas vezes por semana e em dias santificados, lojas a venderem arreios para burros, chitas para vestidos e saias para mulheres de barriga grande. Um horror!&lt;br /&gt;As voltas que a vida dá! Nós, as inseparáveis, mil juras formadas, que nada nem ninguém conseguiria afastar, vivem agora tão longe e tão separadas. Tanto sonho esfumado, tanto desejo esquecido, tantas esperanças perdidas, apenas por que nas nossas vidas surgiu um homem a quem inventaram o nome de marido e nos afastou de tudo o que até então constituía o nosso mundo. Um mundo furiosamente defendido pela nossa tenacidade louca de jovens sedentas de vida. Um mundo trocado por um assustado e desconhecido sim. &lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;(Vidas Cruzadas)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8321717-111066011240911702?l=gregueria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gregueria.blogspot.com/feeds/111066011240911702/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8321717&amp;postID=111066011240911702' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111066011240911702'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8321717/posts/default/111066011240911702'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gregueria.blogspot.com/2005/03/ideia-1.html' title='A ideia (1)'/><author><name>Alexandre de Sousa</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://alexbento.no.sapo.pt/272a.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>
