Quinta-feira, Setembro 14, 2006

A Frase


Foi uma daquelas frases que se atiram para o ar num daqueles momentos de enfado, sem se pensar muito no sentido, nem sequer no conteúdo, coisa vaga, sem grande ou nenhuma essência: tudo isto é uma grande chatice! Uma frase que não diz nada, absolutamente, mas que não nos cansamos de repetir por dá cá aquela palha. Porquê é que eu francamente não faço a menor ideia. Há quem prefira suspirar, são aqueles que não conseguem dizer duas para a caixa. Três palavras com duas sílabas cada, é o máximo que o seu poder oratório consegue. Também existem aqueles que preferem ficar calados; engolem o enfado e vão consultar o signo para verem se a coisa vai durar.

Os astros regem o nosso destino e a Lua, Marte e Saturno, lá estão para ditarem as suas leis, exercerem influências e nos atirarem para as revistas e livrinhos da especialidade em leitura atenta e venerada, procurando os positivos, fechando os olhos aos negativos.

Não sou dos que dizem que não senhor, nunca leio essas coisas, uma treta. Claro que não sou excepção e todas as semanas, de uma forma disfarçada, como toda a gente fingindo que não, é certo e sabido, lá estou a espreitar o meu, Sagitário, para quem estiver interessado. Se lá disser que, por influência do astro tal, em conjunção com não sei o quê, no dia tantos de tal os meus humores são de caixão à cova, assim será, não falha e o melhor que eu tenho a fazer é ficar fechado em casa, o que não deixa de causar transtornos. Mas nestas coisas dos astros não há nada a fazer, as coisas são como são e pronto.

Quanto às frases que se atiram, as tais sem sentido, é mesmo para se não estar calado. Um solta a frase, com a utilização das mais variadas palavras e outras variantes gramaticais, dependendo estas do grau de cultura do fulano, e o outro, que nem sequer ouviu ou se ouviu não entendeu patavina, diz: É o quê? Poderá perguntar, menos avisado, o parceiro do lado. Por pura distracção, já se vê. E alguém vai saber? Nem mesmo o seu autor. O importante é que se tenha expelido um pouco de ar poluído pela chateação. Depois, muita coisa pode acontecer quando a gente está chateada.

Estava sentado com a Leonor, na esplanada do “Pic-Nic”, ali ao Rossio, iam para as cinco horas de uma tarde bem bonita, num princípio de Primavera. Sempre considerei esta estação do ano a mais importante, e não a penas bela, não porque goste de flores e elas nesta altura do ano nos ofereçam o colorido deslumbrante e o inebriador perfume – não sei por quanto tempo ainda, com todos estes constantes ataques à natureza, mas isso pertence a outro filme – é mais por causa das pessoas. Pode ser que não seja mais do que uma ilusão, às vezes acontece vermos aquilo que desejamos ver. O facto é que fico sempre com a sensação de que as pessoas são, como direi?, não, não é alegres, direi antes receptivas, abertas, talvez até mais humanas e, de quando em vez, com um pouco de sorte, ainda se consegue descobrir aqui e além, um sorriso. Mas não procurem demasiado pois pode muito bem acontecer que tudo isto não seja mais do que o fruto duma pontinha de poeta que por vezes me assalta. De qualquer maneira acho giro. E mais acharia se fosse verdade. Mas quem é que tem tempo de sorrir? Meio mundo preocupado em lixar o outro meio...!

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

A aldeia

Vou, pouco a pouco, sendo absorvida pelo extraordinário fascínio que esta terra irradia. Não é fácil ficar indiferente à beleza rude desta magnifica e sempre surpreendente, paisagem campestre e à simplicidade natural desta gente. Não podes imaginar, minha boa amiga, as mudanças psíquicas e até físicas que se operaram em mim, a partir do momento em que me vi integrada em todo este ambiente. Vejo e sinto as coisas, a própria vida, de uma maneira bem diferente. Foi como se, de repente, abrissem uma janela e todas as coisas, todos os objectos, ganhassem uma nova cor, uma nova luz, uma nova dimensão. Creio que a vida se tornou para mim mais intensa, mais vivida. Lembro-me que, muitas vezes, sentia-me assaltada por terriveis angústias sem que, aparentemente, nada o justificasse. Há muito que não sinto nada disso. Tudo se apresenta aos meus olhos com formas simples e naturais. É como se a inexistência de traumas nesta gente fosse contagiosa.
Sinto que, em cada dia que passa, vou ficando cada vez mais longe da cidade, dos seus caprichos, das suas psicoses. Disfruto de uma vida sã verdadeiramente inebriante. Fiz também uma descoberta interessante: o contacto directo com a natureza é excitante. Faço mais vezes amor. O Jorge até já me disse que tenho de ir passar uns tempos à cidade. Claro que é a brincar porque o malandro também gosta deste meu novo temperamento. Ainda ontem, quando ele chegou a casa, estava eu na cozinha a preparar um magnífico empadão de carne; nem te conto. Quando me foi dar um beijo já não o larguei. A culpa foi do empadão Vê-lo a crescer... a crescer.
- Mulher, trabalhei o dia todo e acabei de conduzir quarenta quilómetros aos trambolhões. Estou todo partido.
- Nem todo – Disse-lhe eu, pondo-lhe a mão entre as pernas. O patife podia estar todo partido, mas aquilo é que não estava, como facilmente comprovei. Não tenho a certeza, mas parece-me que nunca tínhamos experimentado a mesa da cozinha. Agradeci a mim própria o facto de ainda a não ter pronta. Resultado, o raio do empadão queimou-se. Estes ares puros transformam uma pessoa.
Estou irremediavelmente apaixonada por esta terra e por este povo. E pensava eu, nos primeiros tempos, que jamais me adaptaria a esta forma de vida! Toda esta lassidão, toda esta calma, toda esta forma profunda de viver. É, minha boa Isabel, aprendi agora a viver a vida com verdade. Não sou mais obrigada a rir sem vontade e a chorar a cada passo.
Quantas vezes desejo esquecer tudo o que aprendi, toda a cultura adquirida em livros e em intermináveis horas de estudo que me impede, muitas vezes, de absorver toda a pujança de vida que, em cada momento, me é atirada para os braços. Até hoje não consegui ensinar nada a este povo, eu é que tenho aprendido com eles. A verdadeira sabedoria está aqui, neles, onde a maioria não se sentou sequer nos bancos da escola. Li algures que a ignorância é o mais forte aliado da opressão. Que tipo de ignorância? A que é eliminada pelos livros ou a que a experiência da vida destrói? A vida autênticamente vivida é a mais eficiente e sábia escola que existe. Tudo nos ensina. A ignorância não existe. Não aqui.
Esta gente não passa nunca por cima da vida, eles absorvem toda a seiva que ela nos transmite. São eles que, dia a dia, a criam e, em cada hora, a recriam. Ao lançarem a semente terra fazem-no com toda a ternura e a força de um amante apaixonado. Eles derramam, gota a gota, o esperma da sua vontade, num gozo sentido. Puta de terra esta que só recebe e nada dá! Ah, terra bendita que belos são os teus frutos! Eles tratam a terra como tratam as suas mulheres. Com amor ou com raiva, mas nunca com indiferença ou ódio.
Nós, os da cidade, somos olhados como pessoas de um outro mundo, cujos hábitos, que não lembram ao diabo, os confundem. Não compreendem como é que havendo tanta gente na cidade, ninguém se conhece. Tentei uma vez explicar-lhes que era exactamente por isso. Seria quase impossível conhecerem-se uns aos outros. Pode ser, pode ser, mas ninguém olha na cara. Não sabemos se é por vergonha ou por mêdo. Se um está doente ninguém lhe acorre, se morre ninguém chora. Desisti.
Todos os que visitam a cidade, no regresso juram que nunca mais lá voltam. Na cidade tudo é a mais; povo, carros, barulho, loucura e mêdo. Só o sol é que é a menos. Todos aqueles prédios que nunca mais acabam, a gente só de olhar fica de cabeça zonza, não deixam o sol aquecer as pessoas. Ah, as montras são bonitas, sim senhora, lá isso são, só que uma pessoa não consegue descobrir para que servem todas aquelas coisas.
Aqui, tanto a morte como o nascimento, são acontecimentos de extrema importância na vida desta gente. Vivem cada um destes momentos com intensa religiosidade, eu quase que diria que com um paganismo místico, a que ninguém fica indiferente.
Tive, há dias, a extraordinária oportunidade de assistir ao nascimento de uma criança. Pensava eu saber tudo sobre o parto. Talvez devido a um certo sentimento masoquista, li tudo o que há sobre o nascimento de uma criança, desde que é fecundada atá ao momento em que é cortado o cordão umbilical. Sabia de cor todas as alternâncias físicas e emocionais que sofre uma mulher grávida. Mais uma vez os meus doutorados conhecimentos teóricos foram ultrapassados pela realidade.
De início as mulheres, da casa e vizinhas, mostraram-se muito renitentes em me deixarem assistir, mas a parteira com a sua incontestável autoridade intercedeu por mim e eu consegui assistir ao desenrolar de um acontecimento magnífico e divino na vida de uma mulher.
Sei o que estás a pensar, mas acredita que já ultrapassei essa minha mágoa. Do facto dei relevo numa das minhas cartas para ti, se bem estás lembrada.onfesso que, ao mesmo tempo que senti uma enorme ternura, passou por mim uns laivos de inveja.

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

As 5 manias

Contrariando o firme propósito de jamais falar da minha pessoa nos meus blogs, em consideração à Tmara, pessoa que merece toda a minha amizade e admiração, só por isso, aqui vão as tais ditas cujas, retiradas ao acaso num rol de milhentas.

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1. Não consigo escrever nas costas de uma folha de papel escrita e não suporto rasurar uma escrita. Se tenho de riscar uma palavra, rasgo e escrevo de novo.

2. Gosto dos papeis simetricamente alinhados

3. Dificilmente resisto à tentação de ler em voz alta.

4. Tenho um gozo imenso em construir os meus textos, falando quando passeio na rua. Isto, várias vezes, foi motivo de algum embaraço, pelo meu entusiasmo e, sem querer, elevar a voz. As Cartas Perdidas nasceram assim, numa noite em que passeava o meu cão.

5. Aprecio as coisas simples, mas odeio as fáceis.

Já agora passo o testemunho para:

Apenas Maria
Adryka
Lazuli

Silêncio Falado
Palavras de Ursa

Sábado, Fevereiro 04, 2006

Filomena

- Reconheço que as crianças são um mundo, mas elas nem sempre fazem eliminar a solidão. Há ainda os amigos, as idas ao cinema, ao teatro, sei lá, monte de coisas que uma pessoa pode fazer para quebrar a solidão.

- Eu sei. Claro que vou ao cinema, ao teatro, mas sem pre só. Quanto aos amigos... nao é fácil uma mulher só fazer amigos. São muito raros os casais convidarem-me. Compreendes, uma mulher não gosta de introduzir outra em sua casa, sobretudo sabendo que é uma mulher livre. Se as mulheres não olham para mim como uma inimiga, pelo menos vêem-me como uma concorrente. Quanto aos homens, todas nós sabemos que não são totalmente desinteressados. Mesmo os mais educados e amáveis não conseguem impedir-se de pensar em tirar o melhor proveito. Para eles uma mulher só é sempre uma mulher carente sexualmente. E então, quando o desejo surge, ninguém consegue garantir de se poder conservar sequer um camarada. Quantas vezes apenas isso que nós desejamos.

- Creio que tens razão. - Ainda não estava completamente penetrada no teor toda conversa. A imagem que tinha de Filomena tinha sido totalmente destruída naquele momento e eu fazia esforços para absorver e aceitar a nova. Seguia atentamente o curso do nosso diálogo e fazia tudo para que não se desviasse. - Tens razão. Mas há uma coisa que não compreendo. Tu és uma mulher jovem, bonita, fisicamente agradável, livre. É-te assim tão difícil arranjar uma companhia? Evidentemente que não vou dizer que comeces a levar homens para casa mas, que diabo, com algum podes acertar.

- Não duvido. Já tentei, claro que já tentei. Não tenho uma moral de rigidez monástica. Sou uma mulher perfeitagente normal. Simplesmente a aventura pela aventura é coisa que não me seduz. Durante uma noite, ou até mesmo durante algum tempo, é certo que esqueço a solidão, ou pelo menos se torna menos pesada, só que ele permanece para mim um estranho e a solidão é substituída por uma tremenda insatisfaçao, ao ponto que não não saber qual delas será pior. Não é de um amor de ocasião, se tal coisa existe, de que necessito. Do que sinto falta é de uma presença, de uma ternura que dure. Sobretudo de uma presença. Algo que seja, esteja e fique e eu sinta. A aventura de uma noite pode, é certo, preencher uma carência fisica, só que ao pequeno-almoço eu estarei novamente só. E assim estarei, só, continuamente só. Entrar em casa e vê-la deserta; ouvir apenas o ruído dos meus próprios passos a cortar todo aquele silêncio sepulcral. Ninguém para falar, ninguém para acarinhar. Rodeada de objectos inanimados, frios, distantes. Bonitos, é verdade, escolhidos com garridice, mas mortos. Tudo aquilo não é mais do que um espaço vazio onde flutuo horas infindas. Os móveis, os quadros, os “bibelots”, tudo eu encontro, mas não há ninguém para me acolher, para me falar, para se zangar, para sorrir ou para chorar, ou simplesmente para um proferir um olá. Eu sei que não vou ouvir jamais o ruído de uma chave rodando na fechadura. É como se estivesse no deserto, um deserto muito frio. Olho em volta e procuro encontrar vida, um pouco de calor; é então que falo sózinha para ter a ilusão de não estar ainda morta. O eco, apenas o eco das minhas desesperadas palavras eu obtenho como resposta. E é assim todas as noites, todos anos, durante anos. Deixo-me possuir pelo vazio da minha existência e sinto a inutilidade de tudo. Não sabes o que é não poder sentir o calor de um corpo junto ao meu, não ouvir a respiração de outra pessoa. Quando, alguma noite, de repente, o desejo me assalta, para o satisfazer apenas tenho um objecto frio de plástico que vibra por acção de uma pequena bateria. No meu quarto, durante alguns momentos, ouve-se o zumbido do pequeno motor misturado com os meus fracos gemidos de pálido prazer. É este o amor de uma mulher só. Ah, mas sou livre! Livre e invejada!

- Uma liberdade extremamente opressiva. - Disse eu, ainda siderada pelo que ouvira. Jamais tive à minha frente uma pessoa que falasse com tanta franqueza, com uma tal abertura de alma. Sentia-me emocionadíssima e ansiosa por ouvir mais.

- É. Mas invejam-me. Tu mesma; há pouco, invejavas a minha sorte de mulher livre. Aparentemente tenho tudo o que maioria das pessoas deseja: uma boa situação económica, uma profissão que gosto e que me realiza, ganho mais do que preciso e não tenho necessidade de me submeter aos desejos e caprichos de ninguém. Sou, numa palavra, livre, magnificamente livre. Mas que terrível e angustiante liberdade esta, Isabel! Livre… mas só.

- Porque não casas? - Perguntei.

- Não posso encarar o casamento como uma solução para um problema de solidão. Não, o casamento nem sempre destroi a solidão. Quantas vezes é ele próprio que o cria. A liberdade de que disfruto implica uma carga tremenda que eu transporto em cada hora do dia. Houve um momento na minha vida em que tive de optar: o casamento não me seduzia e eu tomei a decisão de enfrentar a vida com as minhas próprias armas. Tirei um curso contra a vontade dos meus pais e atirei-me de peito aberto para uma profissão dominada por homens. Durante anos a luta foi terrível, mas creio ter vencido em toda a linha. A falta de tempo para parar e pensar fez com que eu nunca sentisse solidão. Os homens passaram pela minha vida como adversários que teria de vencer ou como amantes de ocasião, simples objectos de uma necessidade. Em qualquer dos casos foi sempre numa situação de luta. Não era apenas a sua competência e experiência que eu tinha de vencer, mas também as suas ancestrais tendências machistas que, mesmo em homens evoluídos, acabava por vir à superfície. Fui sempre obrigada a dispender o triplo das energias para conseguir fosse o que fosse. Quase o mesmo se passava no amor. Quando convidava um homem para vir a minha casa, ele entendia sempre que o único objectivo desse convite era ir para a cama. Claro que muitas vezes era isso que eu queria, mas muitas outras era apenas um pouco de companhia, dois dedos de conversa, beber uns copos. Não podes imaginar os esforços que faziam, os mais educados, para não arrancarem as roupas a toda a velocidade e se atirarem a mim. E o mais engraçado é que todos, sem excepção, ficavam convencidos que, no fundo, me faziam um favor, só que a grande maioria não passavam de apressados, ineptos e egoístas. Quando, ingenuamente, me perguntavam se tinha ficado satisfeita e eu lhes respondia que não, chamavam-me de lésbica. Nunca ouvi um homem confessar que é inábil na cama. É claro que passei sempre a dizer que tinha sido formidável. O que me chocava era que eles o diziam com naturalidade, plenamente convencidos. Para eles uma mulher que vive sozinha, que enfrenta o mundo deles e vence, só pode ser isso. Tantas vezes eu ouvi esse nome que cheguei a duvidar de mim mesma. Teria eu, de facto aversão aos homens? Fiz duas experiências com mulheres e concluí que não. Sou uma fêmea autêntica e só o macho me completa. Esta é que é a pura verdade. Sou mulher e gosto de o ser.

- Mas toda essa solidão, toda essa angústia?

- É o que eu tenho de pagar pela minha liberdade. Há momentos em que considero um pagamento injusto, demasiado pesado. Por vezes não fácil ser uma mulher livre num mundo de homens. No conceito deles, uma mulher livre depois dos quarenta anos só pode ser uma de duas coisas: beata ou lésbica.

Filomena é uma mulher livre apesar de toda a carga, por vezes traumática, que é obrigada a transportar. Eu mesma, muitas vezes, desejei ser uma mulher livre; fazer o que me desse na gana, ir para onde me apetecesse, em qualquer momento, não ter que dár satisfações a ninguém, enfim, sentir-me livre, simplesmente nunca dissociei essa vontade do casamento. Creio que o que custa à mulher é ter de aceitar o casamento como uma prisão e sê-lo na verdade.

Desconheço as razões que levaram a Filomena a preservar uma liberdade que lhe é tantas vezes pesada e não me atrevo sequer a fazer juízos de valor sobre a sua vida.
Muitas vezes penso como reagiria se, de repente, me visse sozinha. Teria eu forças e coragem para criar uma nova vida, uma nova ambiência, uma nova forma de estar? Sei que sobreviria, pois a nossa vontade de viver é tão grande que nos impede de secumbir, seja em que circunstâncias forem. Mas será isso o suficiente? Sobreviver a uma situação não pode ser nunca uma solução. A vida é demasiada importante para que deixemos escapar um segundo sequer.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

A luta

Depois da triste experiência que tive no tenebroso mundo da droga, a minha vida ganhou uma nova dimensão, transportando-me muito para além das quatro paredes cuidadosamente pintadas da minha casa. Aprendi que a vida não é um ritmado caminhar paralítico entre atapetadas veredas rodeadas de flores artificiais. Ela é feita de tropeções, quedas, altos voos, de merda e de jardins floridos. Eu vivia apenas numa parte da vida, naquela em que artificialmente nos envolvia numa redoma de sorrisos.

Decidi sair para a rua, conhecer o lado feio e mau das coisas, fazer parte de tudo isso, sujar os sapatos no vomitado quotidiano das desilusões. Transformei-me numa companheira de minha filha, uma sua camarada na luta quase heróica contra a droga.

Alguns dias depois de termos visitado aquele pobre rapaz, a Zita foi chamada de urgência. Corremos as duas para lá. Já ali se encontravam um médico e duas amigas. O rapaz estava a morrer. Já nada nem ninguém o conseguiria salvar. Tinha os olhos fechados e respirava com dificuldade.

- Não seria melhor levá-lo para um hospital? - Disse minha filha para o médico.

- Não vale a pena. Isto é uma questão de minutos. – Disse-o com a naturalidade da sua frieza profissional.

- Mas será que não podemos fazer nada? - Perguntou uma das moças que, com um lenço, limpava o rosto do jovem.

- Absolutamente nada. Ele já está praticamente morto.

Naquele momento entrou um casal que, piscando os olhos procurava ver na semiobscuridade do quarto, o que estava a acontecer. A mulher olhou para o canto onde o pobre rapaz se encontrava deitado e correu para lá. Deixou-se cair de joelhos junto da enxerga.

- Albertol... Alberto!... Meu filho!... Sou eu, a tua mãe. Olha, meu querido, a tua mãe está aqui! - Ela sacudia o frágil corpo tentando que ele abrisse os olhos, chamá-lo para a vida.

- Acalme-se, minha senhora. - Disse o médico. - Ele não a ouve.

- Meu querido filho! - Gritou a mulher, O pai encontrava-se encostado à parede, de olhos muito abertos, enquanto que pelas faces lhe corriam grossas lágrimas. Desde que chegara ainda não tinha dito uma só palavra.

- Porquê meu filho?... Porque fizeste isto? Doutor, ele é ainda uma criança. Salve-o, por amor de Deus! Salve o meu filho!

Ninguém respondeu. Não havia nada para dizer. De repente o rapaz abriu os olhos e fixou-os no tecto. Assim ficou durante alguns segundos. O seu corpo foi sacudido por um leve estremecimento e depois ficou quieto. O médico que se encontrava ajoelhado junto dele, vigiando-lhe o bater do coração, levantou-se.

- Acabou. - Disse num sussurro.

Naquele momento ouviu-se a sirene de uma ambulância a se aproximar. Era a que tínhamos chamado para o transportar para o hospital, numa desesperada esperança que algo pudesse ser feito. Ao fim de alguns minutos tudo tinha acabado.

Aguardou-se a chegada da polícia para que tomasse conta da ocorrência.

Os pais seguiram na ambulância acompanhando o filho morto e nós saímos para a rua, tentando respirar um pouco de ar puro. O médico já tinha partido e nenhuma de nós tinha coragem para falar.

A morte é sempre triste mas muito mais quando ela ocorre num jovem. E quantos mais estarão neste momento na mesma situação? Tremo só de pensar nisso.

Não consigo conceber a droga como solução, nem mesmo como fuga a um ”status” negativo, dos muitos que a vida frequentemente nos atira à cara. Não nego o prazer que ela proporciona, embora eu continue a considerar tratar-se de um prazer de base falsa. A droga para mim é como se fosse um patíbulo: em qualquer momento abre-se o alçapão e nós ficamos a baloiçar com o nó da corda apertado ao pescoço.

Em conversa com uma amiga, a Filomena; acho que não conheces; falámos sobre este aspecto da sociedade actual, que é a necessidade do recurso droga.

- Mas, minha querida, o tráfico e o consequente consumo de estupefacientes não é actual, O seu uso remonta de há muitos, muitos anos. Simplesmente ela hoje não está mais apenas nos salões e nas orgias da alta burguesia. Saiu para a rua, proletarizou-se. Na verdade, ela agora pertence ao povo. Tu sabes bem o que acontece a tudo o que cai na rua. O mal não está na droga, mas sim no seu uso excessivo e descontrolado. Tudo aquilo que ultrapassa a nossa vontade, a domina fugindo, assim, de qualquer controle, transformfa-se numa arma permanentemente engatilhada e apontada ao nosso peito.

- Eu vi aquele rapaz a morrer. Tão jovem, tão criança ainda, com tanta vida para viver! Foi um crime. Um crime nefando! E os criminosos continuam à solta.

- E vão continuar. Enquanto e onde existir poder de compra eles vão continuar. Enquanto as pessoas não forem esclarecidas eles vão continuar. O mal é eles venderem uma coisa que dá prazer, digam o que disserem, que transporta as pessoas para um mundo melhor, irreal, falso, mas melhor, à medida dos nossos desejos. Sei que é assim.

- Sabes? Sabes como? – Acho que não entendi de imediato o que ela me queria dizer.

- Experimentando, claro. Sempre que me encontro mais deprimida, quando a angústia se alia à solidão e tudo se transforma num peso insuportável, a “erva” consegue restabelecer o equilíbrio. Não sou, evidente, uma viciada. Ainda no sou... Pelo menos eu quero acreditar que não.

Olhei-a não querendo acreditar no que ouvia. De repente foi como se tivesse à minha frente uma desconhecida, pior do que isso, uma criminosa. Foi. Foi exactamente isso que eu senti. Ela adivinhou o que me ía no espírito. Nos seus lábios desenhou-se um sorriso triste.

- Até tu, que te encontras numa campanha de recuperaçao de drogados, olhas para mim como se fosse uma criminosa. Vês como eu tinha razão, quanto ao esclarecer das pessoas?

- Por amor de Deus, não pensei tal coisa! - Menti - Confesso que fiquei surpreendida. Porquê exactamente tu? És uma mulher forte, adulta e, segundo penso, realizada. Calcula que até cheguei a invejar-te muitas vezes.

- A mim? Pobre Isabel, como estás enganada a meu respeito. Estou muito longe de ser uma mulher por quem se tenha inveja. Muito pelo contrário. - Havia mágoa na sua voz. - Mas a verdade é que não fazes ideia da quantidade de pessoas que me dizem isso. Tu que tens sorte, dizem-me. É, tenho muita sorte. Não tenho um bando de filhos para aturar, um marido machista para suportar, um monte de complicações e trabalho lá em casa. De facto não tenho nada disso. Talvez seja essa, uma das razões porque me desvio sempre dos parques onde há crianças a brincar, ou então, paro numa montra de brinquedos e não consigo refrear as lágrimas. Que sabes tu, minha querida Isabel, da vida de uma mulher que tem como companhia apenas a solidão?

Terça-feira, Dezembro 20, 2005

FELIZ ANO NOVO

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Que todos os desejos, mesmo os mais simples e insignificantes, mas sempre tão importantes, se realizem em pleno, em 2006.

Quinta-feira, Dezembro 08, 2005

Clarisse - A narrativa

Tinha visto o casamento como uma fuga à tristeza e à solidão da minha vida por culpa dela, só que toda a angústia não estava nas coisas mas em mim mesma, pelo que não havia fuga possível. Ela fizera de mim um farrapo humano. Foram uns miseraveis anos!
Aquele pequenino ser que crescia dentro de mim seria a tábua a que eu me iria agarrar desesperadamente. Na dor do parto eu gritei de esperança. Durante dois anos o meu filho foi todo o meu mundo. Com ele ocupava todos os meus tempos livres que eram, afinal, todo o tempo. Depois veio e segundo e com ele a notícia que não voltaria a ter mais filhos. Pouco me importou porque eu sofri muito com aquele. A minha vida perigou muito durante o parto.
Mas porque estou eu a recordar tudo isto? Será que estou procura de uma justificação? Sentir-se-à a minha consciência culpada tão lá no fundo que eu disso não me aperceba? E depois, porque será que nós, mulheres, temos sempre de nos sentirmos culpadas por sermos felizes e esta necessidade, quase inata, de nos justificar, a nós próprios e aos outros? Só que eu, Teresa, juro, não me sinto culpada.
O destino atirou-me para os braços uma experiência nova, uma experiência violenta, reconheço-o, mas fascinante. Descobri nestes três meses que a vida é suja, pôdre, bela, sublime. Não tenho mais dentro de mim do que a metade; aquela metade que ela moldara a seu bel-prazer. Descobri que a vida está dentro de cada um de nós, mas que só é vida completa quando a transmitimos a outro, quando a partilhamos. E eu, boa amiga, em cada segundo que passo nos seus braços, recebo e dou vida que criamos e recriamos naqueles momentos. Amo o amor e não sinto vergonha. Pela primeira vez na minha vida esqueci a vergonha. Amo o meu corpo nu porque é belo. Bani de dentro de mim a hipocrisia, soltei as correntes que me aprisionavam a falsos conceitos de vida, de estar e ser. Agonio-me quando me vêm dizer que o importante o diálogo entre o homem e a mulher. Estou horas sem dizer uma palavra, ouvindo apenas as nossas respirações serenas e sinto-me transbordante de felicidade. Sinto o corpo docemente cansado e o espírito vogando entre nuvens. Será isto condenável? Pois então que me condenem!


Eu não. Eu não a vou condenar. Clarisse vive uma nova vida e, como a própria vida, não sabemos quanto tempo vai durar. E nós sabemos o quanto importante é o tempo.

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Casada

O peso do seu corpo esmagava o meu e abri ainda mais as pernas, não para lhe facilitar mas apenas porque um dos joelhos me estava a magoar. Tive a sensaçao de que havia algo que não estava certo. Tu tinhas afirmado que todos os meus gestos se iriam processando com naturalidade, sem esforço, sem que eu tivesse sequer necessidade de pensar nisso. Seria tudo instintivo. Creio que falaste em excitação, desejo ou qualquer coisa parecida. Que se estaria a passar de errado? Eu tinha feito esforço para abrir as pernas e tinha feito esforço para o aceitar em cima de mim. Naquele momento tudo o que se passava comigo, dentro de mim, ao redor era apenas puro sofrimento.

Quando me senti penetrada não aguentei mais e gritei. Gritei de mêdo, de raiva, de nojo e de ódio. Oh, céus, quanto ódio senti naquele momento! As lágrimas corriam-me pelas faces mas ele não parava nem cedia. Ouvi-o dizer palavras desconexas, das quais não apanhei qualquer sentido. Uma dor forte percorreu-me a espinha no preciso momento em que o seu corpo se abateu sobre o meu. E todas as vezes que se seguiram nessa noite a dor se repetiu sempre. Já não gritava, limitando-me a morder os lábios até fazer sangue. De manhã havia sangue no lençol e no travesseiro.

Cheguei a odiar-vos, aos dois, nessa noite. A ti por me teres enganado ao dizeres que tudo seria fácil e a ele por me ter feito sofrer tanto. Uma grande e bela noite de amor, onde o prazer e a ternura se transformariam num sublime extâse que jamais esqueceria. Meu Deus, o quanto a realidade fora diferente! Nos momentos em que a ternura dominava eu sentia-me serena, mas logo que o desejo se apossava dele tudo desaparecia e eu voltava a tremer de terror.

Durante o dia tudo era maravilhoso. Os longos passeios, as visitas aos museus, as idas ao teatro, tudo era para mim um encanto pois tudo era novidade. Sempre enclausurada eu nada conhecia a não ser igrejas. Mas logo que se aproximava a noite todo o meu corpo começava a ser sacudido pelo medo. Algo me dizia que era estúpido reagir assim; todas as mulheres passaram pelo mesmo, todas as minhas amigas tinham adorado, por que reagia eu de uma forma tão diferente?
Alguns meses depois nada em mim se tinha alterado, O meu marido considerou que era já tempo demais e o melhor seria consultar um médico. Não é possivel depois de vários meses de relações sexuais eu continuar a sentir dores. Recusei de início, dizendo que com um pouco mais de tempo tudo entraria na normalidade, mas ele não aceitou e marcou-me uma consulta com um médico amigo. Que vergonha senti ao ser examinada de uma forma tão intima ele.

- A minha querida amiga é uma mulher perfeitamente normal. Fisicamente não há justificação alguma para sentir as dores que diz ter, nem para qualquer espécie de frigidez. Mas eu, não duvido das suas palavras; sei que diz a verdade. Como também não se tratar de um caso raro.
Acredita, minha amiga, que é muito mais frequente do que imagina. Como sabe, muitos dos transtornos físicos que sofremos têm as suas origens no nosso psíquico. A noite de núpcias é uma experência extremamente importante na vida de uma mulher, sobretudo quando ela é possuida por uma grande sensibilidade e, se não houver da parte do marido um máximo de cuidado, muita ternura e paciência, pode causar profundos traumas, cujas consequências, entre outras, são a frigidez e as dores imaginárias. Em muitos dos casos não exactamente imaginárias, são mesmo reais. A cura não difícil, apenas requer colaboração e paciência da parte da doente. Consulte um psiquiatra. Vera que muito em breve tudo isso vai desaparecer Entretanto, aproveito a oportunidade para a informar, se é que ainda não sabe, que está grávida.

A confirmação da minha gravidez, de que eu já desconfiava, deu-me uma grande alegria, mas também um medo tremendo. Eu desejava aquele filho! Tinha casado há sete meses mas o casamento continuava a nada me dizer.

Logo que regressamos da nossa viagem de núpcias, o meu marido voltou ao trabalho. Eu limitava-me a passar os dias fazendo futilidades, ler livros inúteis, preencher horas perdidas, suspirar e aborrecer-me. Todos os dias ía à igreja. Isso eu não podia falhar. Todos os dias pedia perdão porque na véspera tinha cedido aos desejos pecaminosos de meu marido. É ridiculo, eu sei, mas esta é a verdade. Não era fácil para mim libertar-me do fanatismo religioso em que ela me educou.

- Será que não podes escolher outra hora para fazeres as tuas rezas? — Dizia o meu marido, sempre que me via ajoelhada ao lado da cama, fazendo as minhas orações. Passei a subir mais cedo para o meu quarto.

- Tu sabes bem que eu também sou religioso, frequento como tu a igreja, mas acho que tu exageras. Lembra-te que já não vives com a tua mãe.

Não, eu já não vivia com ela, mas o seu fantasma continuava a povoar a minha vida, omnipresente, dominando com tenazes de ferro a minha vontade. Queria afastá-la do meu pensamento, esquecer tudo o que me tinha injectado mas não conseguia. Depositei todas as esperanças no breve nascimento do meu filho.

Via no seu nascimento o preenchimento da minha vida vazia, onde eu tentaria concentrar toda a minha vontade. Por ele eu tinha de modificar a minha maneira ser. Não queria por nada deste mundo que fosse igual a mim. Nunca!

Domingo, Novembro 20, 2005

Noite de núpcias

Tinha 26 anos quando namorei pela primeira vez, se é que aquilo se pode chamar namoro, e foi com aquele que hoje é meu marido. Dezasseis anos mais velho, facto que levou à aprovação. Foi como se tivesse aberto um mundo novo. Pelo menos assim o pensei. Namoramos um ano e oito meses, O tempo de trocarmos palavras sem sentido e de tratarmos dos papéis para o casamento. Ela estava sempre presente, uma estátua sem vida, fria, silenciosa, fitando-nos com o seu olhar de aço, frio, acutilante. Sempre considerei absolutamente natural a sua presença junto de nós, não me passando nunca pela cabeça porque é que ele nunca tinha dito nada em contrário e aceitava que ela estivesse sempre nos vigiando. Apesar de desejar que os dias passassem depressa, não existia dentro de mim qualquer espécie de nervosismo ou ansiedade. Durante todos aqueles meses tudo foi calmo e dolente, um deixa andar. Estava consciente que a minha ligação com o Ronaldo não era exactamente um namoro como eu sabia que devia de ser. Uns beijos que mal roçavam os lábios, um aperto de mão um pouco mais demorado e tudo ficava por aí. Tinha um desejo, quase não sentido, e jamais reconhecido, que os dias passassem depressa, apenas porque isso significaria sair daquela casa, que era sinónimo de liberdade. Isso era, para mim, na altura, o mais importante.
Na véspera do casamento, fez-me sentar junto a uma imagem da Virgem que uma vela iluminava.
- Creio ser minha obrigação ter uma conversa contigo agora que vais entrar numa nova vida. Pouco tenho para dizer porque pouco há para dizer. És uma mulher cristã, devota, temente a Deus, porque foi essa a educação que eu me esforcei por dar. De nada estou arrependida e dou graças a Deus por tanto me ter iluminado. Confesso que gostaria muito mais que tivesses dedicado inteiramente a tua vida a Deus. Estou convencida que serias muito mais feliz e terias a suprema felicidade de seres a esposa do Senhor. Mas Deus decidiu o contrário e eu submeto-me à Sua vontade. Vais entrar no mundo maldito dos homens e que isso sirva como expiação dos teus pecados. É mais uma prova que terás de vencer. Quero que recordes sempre que as alegrias da vida são armadilhas tecidas pelo Diabo e delas deves fugir sempre. As mulheres vieram ao mundo para sofrerem e a isso nos devemos resignar. Que seja tudo para glória de Deus. Deves obedecer a teu marido. Ele é um homem temente a Deus e frequenta a Igreja. Será bom para ti. Mas quero que fixes bem que obediência absoluta só a Deus é devida, não aos homens. Quando algo contrariar a tua consciência cristã deves recusar e ser firme nessa recusa. A carne é a podridão da humanidade e nunca, ouve bem, nunca a ela deves sucumbir. Se tal acontecer lembra-te que as profundezas do inferno esperam por ti e jamais terás paz no resto dos teus dias. Rezemos pela última vez juntas, pedindo à Virgem Maria que ilumine os teus passos e abençoe o teu novo lar.
Nem mais uma palavra. Rezámosa durante mais de três horas e quando me fui deitar ía com o terror na alma. Na noite seguinte, àquela mesma hora, teria a meu lado um homem de que pouco ou nada conhecia, assim como desconhecia o que me esperava. Não a parte física, mas como iria reagir como mulher.
Recordei a conversa que tivemos as duas, às escondidas, uns dias antes. Ela tinha-me proibido ver-te. Perguntei-te como seria e se ía doer. Ela dizia que era pecado pensar naquilo, mas eu não conseguia tirar isso do pensamento.
- Ora, Clarisse, não acredites nessa história da dor, -Respondes-te entao. - Ela é mais psíquica do que física mas, se alguma dor sentires ela se dissipará no prazer que irás sentir. Vais casar com um homem mais velho que é, muito provavelmente, experiente. Ele saberá como agir. Apenas uma coisa terás de fazer: não lutar. Nem com ele nem contigo mesma. Deixa que tudo se passe com naturalidade. Afinal até se trata da coisa mais natural do mundo. E tenho a impressão que também do outro.
Quantas vezes perguntei a mim mesma porque é que as coisas para mim têm de ser mais difíceis do que para as outras mulheres? Porque hei-de ser diferente?
Aquela noite foi muito, muito difícil. Quando chegámos ao hotel era já noite e, depois das formalidades na recepção, que me fizeram sentir bastante embaraçada pois pensava que toda a gente me olhava a sabia o que iria acontecer, subimos para o quarto.
- Minha querida, vou deixar-te por alguns minutos. Se me dás licença vou lá abaixo ao “bar” comprar cigarros. Entretanto, peço-te, não esperes por mim e deita-te. Não demoro mais do que dez minutos. – Disse-me, logo que ficámos sós. Agradeci-lhe intimamente por aquela delicadeza. Apercebeu-se que eu estava apavorada e quis que me aprontasse sózinha. Esta cena de que eu, então, fiquei tão satisfeita, hoje parece-me extremamente ridícula. Mas naquela altura não sei como reagiria se ele logo me abraçasse e me despisse.
Logo que saíu, desfiz rapidamente as malas e tirei a camisa de noite que ambas tínhamos comprado às escondidas. Tinha levado também as que ela tinha comprado. Eram as coisas mais horrorosas que se possa imaginar. Despi-me e vesti a camisa de noite. Olhei-me ao espelho e fiquei vermelha de vergonha. Ela praticamente não tapava nada do meu corpo. Que iria ele pensar de mim? Senti vontade de a despir e usar uma das outras, mas resisti. Fiquei sentada na cama, pensando se deveria ou não seguir o teu conselho e tirar as cuecas.
- Não sejas parva, rapariga! Porque raio é que tu hásde ficar com elas, não me dirás? Ou será que preferes que seja ele a tirar-tas? Isso às vezes é excitante. Se assim é, então deixa- as ficar. Eu, cá por mim, deixo sempre. Adoro que ele mas tire, e se for com os… pronto, eu calo-me!
Acabei por as tirar. Quando, alguns minutos depois ele regressou, já eu me encontrava deitada na cama com as roupas puxadas até ao pescoço e, apesar do calor de uma noite de verão, eu tremia toda. Sorriu, aproximou-se da cama e deu-me um beijo na testa. Ele só me tinha beijado na boca uma única vez e fora frente ao padre no altar, depois do sim. Um beijo leve e rápido.
Vejo-o dirigir-se para a casa de banho e fechar a porta e ali ficou alguns minutos. Quando reapareceu vinha com o seu pijama de seda vestido. Quando se aproximou da cama eu, sem querer - teria sido mesmo? - olhei para as calças e vi-lhe o volume do sexo. Estava ainda em descanso, mas mesmo assim fez com que eu tremesse mais. Fechei por instantes os olhos. Senti que ele se sentava na beira da cama e apagava a luz. Afastou a roupa e deitou-se a meu lado. Eu estava deitada de costas, com os braços ao longo do corpo, sem fazer o mínimo gesto. Aguardava. Começou por beijar-me as faces, procurando em seguida a boca que eu, continuando a tremer, entreabri. Os seus braços rodearam o meu corpo e eu, depois de vacilar durante alguns segundos, também me abracei a ele. Senti que uma das mãos me percorria muito lentamente todo o meu corpo. Desceu até às coxas, subindo depois até parar, e aí ficar, num dos seios. Eu permanecia abraçada a ele sem fazer nenhum gesto. Os seus movimentos foram-se alterando, sendo agora mais rápidos e precipitados. Atirou com as roupas da cama para trás e despiu-me a camisa de noite. Numa semi-inconsciência soergui um pouco o corpo e facilitei o movimento. Nem sequer a tinha visto. Por uma nesga da janela entrava um fio de luz, vindo da iluminação da rua e dos anúncios luminosos. Embora de uma forma difusa eu via tudo o que se passava. Ao mesmo tempo que fechava os olhos com força, amaldiçoava a janela. Devia tê-la fechado. Esquecimento estúpido! Uma falta que tentaria não repetir na noite seguinte. As suas mãos tinham abandonado o meu corpo e, pelos movimentos, adivinhei, mais do que vi, que despia a pijama. A sua mão direita voltou a percorrer-me o corpo, parando desta vez, no meu sexo. Acariciava-me a púbis e, de quando em vez um dos seus dedos tocava-me nos lábios. Pela primeira vez uma mão que não a minha, acariciava aquele sítio. Estremeci. Naquele momento tentei lembrar-me do que me tinhas dito e abri um pouco as pernas. Logo ele se aproveitou para se deitar em cima de mim. Senti o seu sexo duro.
Ao sentir a sua mão acariciando-me a vagina, recordei uma conversa que tive quando estudantes. Todas vocês tinham-se já masturbado e repetiam amiudadas vezes. Fora uma conversa brejeira, levada muito pouco a sério, onde, cada uma, tinha falado da sua técnica. Perguntaram-me como eu fazia. Corei e não respondi. Todas vocês se riram. Disseram que eu deveria ter inventado uma técnica nova e não a queria divulgar. A verdade que eu nunca tinha feito isso.
Nessa noite, na solidão do quarto e depois de ter rezado mais de uma hora, reconstrui toda a conversa da tarde. Comecei a sentir o meu coração a trabalhar mais depressa e uma onda de calor a percorrer-me o corpo. Quase sem disso me aperceber a minha mão começou a descer. Toquei-me com a ponta do dedo. Todo o meu corpo estremeceu numa onda de prazer e abri a boca. Cada movimento era uma descoberta e eu já não conseguia parar. A partir de um dado momento tive ganas de gritar e assustei-me. Parei de repente verdadeiramente aterrorizada, esperando ver a porta do meu quarto abrir-se rompante e ela parada na ombreira, fixando-me com os seus olhos frios e maldosos. Meu Deus, que estava eu a fazer?! Todo o meu corpo era percorrido por violentas convulsões. Levantei-me da cama e corri para a casa de banho. Lavei a cara e as mãos com água fria. Logo que regressei ao quarto, ajoelhei-me ao lado da cama e rezei cheia de angustiado fervor, pedindo perdão a Deus por ter cedido à tentaçao do demónio e ter praticado aquele pecado mortal. Convenci-me que Deus não me perdoaria e que iria morrer. As labaredas do inferno esperavam por mim. Tinha nessa altura 17 anos. O resto da noite fora horrivel pois passei-a a acordar alagada em suor. Fora a primeira e a última que fizera tal coisa. Tudo isto me passou pela mente, rapidamente, no momento em que senti a sua mão acariciar-me a púbis, enquanto com movimentos desencontrados procurava penetrar-me.

Sábado, Agosto 20, 2005

Percorrendo o caminho

Ensinaram-me a não querer nada da vida. Viémos a este mundo como penitência para, através do sofrimento, ganharmos o direito de alcançarmos o reino de Deus. Dela só podemos aceitar o que a nossa consciência concordar e as leis de Deus nâo condenarem. Durante anos e anos não ouvi outra coisa. Agora, volvidos tantos anos, tantos anos perdidos!, descobri que não quero nada da vida, apenas quero fazer parte dela, porque eu sou a vida.”
Estas foram as palavras escritas pela mão de Clarisse na sua última carta.
É pecado, não pecado! Foi a lei que, desde que nasci sempre regeu a minha vida. Só agora reconheço as tentativas que o meu pai fez para me mostrar que o pecado não existe. Pobre pai! Nem isso, ele conseguiu fazer com coragem. Se o fizesse, talvez hoje eu fosse uma mulher feliz, possuir uma felicidade construída por mim própria e não a encontrar num quarto de uma miserável pensão.
O pecado não foi criado por mim, o conceito da sua existência foi-me injectado anos a fio, desde que eu comecei a tomar cousciência das coisas, talvez até antes. Não sei se, neste momento o eliminei, mas a realidade é que não pensei mais nele. Ser a carne mais forte do que o espírito? Ora, pouco me importa! Sou feliz e quero continuar a sê-lo! Tal como meu pai, só muito tarde eu consegui sorver as primeiras gotas da vida. A minha sede grande e eu não vou parar de beber. Não enquanto não ficar saciada. E será que ficarei algum dia? Haverá alguém saciado da vida?
Esta aventura, terrível e fantástica, trans formou-me numa mulher diferente e eu adoro a mulher que hoje sou. Nasceram dentro de mim duas coisas maravilhosas: amor e vida e eu não permitirei que nada neste mundo as consiga destruir. Pouco me importa o que venha acontecer, conquanto eu continue a ter dentro do meu coração e do meu corpo esta tão grande felicidade.
Sabes tu, Teresa, o que é rir? Sim, tu sabes. Para ti o riso é tão natural como o sol nascer todos os dias, como o ar que respiras. Eu nunca soube o que era rir, O riso era pecado em minha casa. Hoje o riso brota de mim como uma fonte de águas cristalinas, como as lavas de um vulcão em permanente actividade. É tão bom rir, Teresa! Um dia, era eu ainda criança, o meu pai fez umas graças que me fizeram rir às gargalhadas. De repente sentimos que o ar gelou na sala. Ela olhava-nos da porta, com a reprovação severa no olhar a nos fulminar. Fez-se um silêncio aterrador. Estávamos ambos sentados no chão.
- Clarisse, vai para o teu quarto. Só de lá sairás quando eu o permitir.
Toda encolhida, tremendo de mêdo, corri para o meu quarto. Sabia que nesse dia ficaria sem jantar e que teria de ficar horas, de joelhos, a rezar, até quase perder a consciência.
- Já disse dezenas de vezes que esta casa é uma casa decente. Sabes perfeitamente que não admito imoralidades aqui dentro. Se é teu desejo viver em pecado, não o posso eu impedir, mas exijo que não conspurques uma inocente criança com as tuas sujas e imorais brincadeiras. Se não és capaz de te respeitar a ti próprio, suplico que faças um esforço e respeites os outros. A tua filha é uma inocente e pura criança e eu não vou permitir que a envolvas em princípios pecaminosos. – Ouvi-a dizer a meu pai com ódio na voz.
- Mas...
- Não há nada para dizer. Se não és capaz de viver sem ser em pecado, peço-te que tenhas um mínimo de honestidade e o faças longe desta casa.
Ele não se atreveu a abrir mais a boca. Olhou-a apenas com uma infinita tristeza. A partir desse dia ele não voltou a fazer graças para mim e eu não voltei a rir. Nunca mais.
Nestes três meses eu tenho recordado toda a minha vida. Faço-o sem qualquer esforço, as imagens vão surgindo espontanemente. Nesses momentos choro de pronfunda tristeza por tanta coisa perdida, até mesmo das mais insignificantes.
A adolescência, foi para mim, um autêntico suplicio numa constante angústia. Aprendi a disfarçar todos os traços da minha feminilidade a despontar. Usava blusas e camisolas largas para se não notar os seios, as meias grossas e feias que me deformavam as pernas e as saias muitos centímetros abaixo dos joelhos. Tinha quinze anos quando ela, um dia, veio ter comigo e deu-me um embrulho.
- Toma. Tens aí duas coisas para usares. Recordo-te que serás tu que os terás de lavar, dentro, é claro, dos princípios da decência, já do teu conhecimento. - Queria dizer que os teria de lavar e secar às escondidas. Adivinhei logo que se tratava de roupa íntima. Em minha casa era rigorosamente proibido expor as roupas íntimas. Era o meu pai que lavava as suas cuecas. Começou no dia seguinte em que acabaram as relações sexuais entre eles.
- Eu não volto a colocar as minhas mãos nas tuas porcarias. Nunca mais. Cada um de nós terá de lavar os seus pecados. É a nossa penitência. Espero que o faças com a devida decência. - E o meu pai passou a lavar as suas cuecas e a escondê-las. Uma norma que nunca foi alterada. Um dia ele esqueceu-se delas a secar. Quando ela as descobriu, transformou-as em farrapos e atirou-as ao lixo.
Quando, já sózinha no quarto, desembrulhei o embrulho que me tinha dado, vi dois soutiens. Eram de pano grosso, feitos em casa de maneira bastante grosseira, sem qualquer espécie de forma. Experimentei um. Como já calculava, estava apertado demais.Ela assim os mandara fazer. Eram horrivelmente feios. Chorei em silêncio. A partir desse dia eu já não tinha mais necessidade de camisolas largas; mesmo com as mais justas os seios desapareciam com aqueles panos terrivelmente apertados.
Conversar com rapazes era algo que nem em sonhos me atrevia. Nem podes imaginar a inveja com que olhava as raparigas da minha idade indo a bailes, passeando com rapazes da mesma idade, namorando, rindo. Ela vigiava-me constantemente e, se por qualquer razão me atrazava, um minuto que fosse era submetida a um terrível interrogatório que acabava, inocente ou não - para ela não existia a inocência - em horas seguidas a rezar. Quantas vezes eu fui prejudicada nos meus estudos, por causa dessas horas de oração. Tinha que depois recompensar pela noite dentro com uma luz de quinze velas. (Vidas Cruzadas)

Quinta-feira, Julho 28, 2005

A partida

Depois de ter saído, a megera continuou a chicotear os ouvidos e a alma da pobre Clarisse com tudo o que de porco, pôdre e peçonhento existia dentro de si, do seu espírito estupidamente retrógrado. Disse-lhe que a mulher tinha nascido imunda e pecadora e a prova estava ali.Só através de muito sofrimento e muita fé em Deus é que a mulher conseguirá limpar todas as impurezas com que nasceu. Deus só cria coisas belas e aquilo que ela agora tem não é obra de Deus. Ela nunca deverá falar naquilo. Nunca!

Lembro-me bem que, todos os meses, durante o período, a Clarisse sofria hornivelmente. Os seus períodos não eram nem regulares nem normais. Tinha dores e enxaquecas terríveis, que muitas vezes a faziam desmaiar e, tudo isso, ela sofria em silêncio e em segredo. Acabou por se convencer que aquilo era obra do Diabo, um pecado. Só muito mais tarde é que se convenceu que era tudo absolutamente natural na vida de uma mulher, mas o mal já tinha sido feito e ela muito dificilmente conseguiria libertar-se dele.

O enfeudamento familiar aos mais rígidos e tacanhos princípios religiosos, transformados em fanatismos dogmáticos, afastados das realidades mais simples da vida, transformou a Clarisse numa mulher traumatizada, carregada de tabus e medos pueris. Era a mais desprotegida de todas, pois em nada fora preparada para enfrentar as mais variadas ciladas da vida. A sua educação, psiquicamente deformada, não a preparou para enfrentar e receber toda a pujança da vida, do que ela tem de maravilhoso e terrível.

Seu pai era um homem fraco. Bom, mas fraco. Subjugado em absoluto à tirania religiosa da mulher, sem forças nem coragem para a enfrentar, refugiava-se no silêncio e no afastamento, criando dentro de si um mundo irreal, onde sempre se mantinha. As coisas passavam e ele não as via. Funcionário medíocre, fazia da sua vida uma constante mediocridade.

Depois do nascimento de Clarisse, a sua vida como marido alterou-se por completo. A mulher tinha sofrido horrivelmente durante o parto, tendo a sua vida perigado. Fora uma luta titânica contra a morte que os médicos tiveram de travar para que ambas se salvassem, tudo porque ela teimava na recusa em cooperar no parto. Para a salvarem, a ela e à criança tiveram de operar em condições quase trágicas. Os médicos não conseguiram compreender o porquê de tudo aquilo, pois ela era uma mulher perfeitamente normal e poderia ter tido um parto extremamente simples. Ela culpou o marido desse sofrimento e não perdia nunca a oportunidade de lho lembrar.

A partir desse dia, o seu corpo se fechou e as relações sexuais deixaram de existir naquele casal. Rondavam ambos os 38 anos quando se casaram. Três anos depois nasceu Clarisse. Não foi concebida num acto de amor, mas de um solitário relacionamento sexual. Uma vez por semana, sexta-feira, debaixo das roupas da cama que a tapavam até ao pescoço, ela erguia a espessa e grossa camisa de noite, fechava os olhos, braços estendidos ao longo do corpo, aguardava. O homem tirava o sexo do pijama e servia-se. Em rigoroso silêncio. Não lhe era permitido exteriorizar o prazer que sentia, se é que sentia algum. Uma vez no início, isso aconteceu. Um ligeiro gemido e um respirar mais pesado. Ela atirou com ele de cima de si, levantou-se num rompante da cama e, numa voz fria, chamou-lhe: Porco! Abandonou o quarto e foi dormir no sofá, na sala. No dia seguinte ela antecipou-se-lhe e fechou à chave a porta do quarto. Durante mais de um mês o pobre do homem dormiu na sala. Nem uma única vez as suas bocas se abriram para falarem sobre o incidente. Nunca mais ele gemeu de prazer. Tudo se desenrolava no mais absoluto siêncio, havendo mesmo o extremo cuidado para que a cama não rangesse.
Durante anos, tentando desesperadamente compreender a mulher, ele foi-lhe fiel, sempre dominado pelo sentimento de culpa, embora bem lá no fundo ele não encontrasse razão alguma para a sua existência.

Um dia conheceu uma mulher que lhe sorriu. Ele, timidamente, correspondeu ao sorriso. Tinha 40 anos e era divorciada. Encontraram-se algumas vezes e um dia ele ganhou coragem para a convidar para uma bebida. As palavras voam e os sentimentos descem. Ele falou. Falou como há muitos anos o não fazia. As palavras saíam em torrentes, imparáveis, as ideias claras, límpidas. Não era mais o funcionário medíocre. Ela escutava sempre sorrindo. Convidou-o a ir a casa dela. Recusou de início, com mêdo, sem saber exactamente de quê. Ela insistiu e ele acabou por aceitar. Tremia como um colegial.

Voltaram a conversar até perderem a noção do tempo. Num dado momento, ela levantou-se, estendeu-lhe a mão e, muito baixinho, diz-lhe, vem! De mãos dadas, em silêncio caminharam para o quarto.

Sem uma palavra, com o seu eterno sorriso nos lábios, muito lentamente, ela começou a despir-se. Ele tremia sem conseguir desviar os olhos daquele corpo perfeito a desnudar-se. Já nua permaneceu frente a ele para que a pudesse observar bem. O seu corpo era lindo e ela tinha orgulho nele. Sentiu-se feliz ao ver nos olhos dele uma profunda admiraçao, que não era mais do que uma singela e muito sentida homenagem à beleza do seu corpo. Foi ela que o ajudou a despir-se. Deixou-se cair em cima da cama e, estendendo-lhe uma mão, puxou-o para cima dela. De mansinho abriu-se e esperou. Muito lentamente a vida começou a agitar-se dentro dele e inebriado de felicidade penetrou-a. Ela soltou um fraco suspiro de prazer e torneou o corpo dele com as pernas e os braços. O sexo dele ganhou força e ele gritou. Gritou como até então nunca o fizera. Gritou de prazer, nunca sentido, de raiva tanto tempo contida, de imenso amor inexplorado. Pelas suas faces já sulcadas de umas quantas rugas, copiosamente, as lágrimas caíam-lhe, molhando o peito dela. Ele chorou durante todo o acto de amor e continuou a chorar mesmo depois do fim. Assim continuou durante longos minutos, em seus braços, sexo apaziguado ainda dentro dela, ouvindo, entre beijos, palavras sussurradas de amor e carinho.
A partir desse dia, ele dividia a sua vida entre a filha e a companhia daquela mulher. No seu espirito começou a desenhar-se a vontade de partir e só a sua filha, o medo de a deixar só, nas mãos daquela mulher, o impedia. E ele passou longo tempo entre alguns momentos de vida nos braços de uma mulher de eterno sorriso e a morte gelada da sua casa sombria. Até que um dia, enquanto a mulher se encontrava na igreja, atirou com os poucos trapos que tinha para uma velha mala e partiu. Só muitos anos mais tarde que Clarisse soube dele. Trabalhava em electrónica, o seu sonho, e era um homem feliz. Deixara de ser um funcionário medíocre numa mediocridade de vida. (Vidas Cruzadas)

Domingo, Julho 24, 2005

Explicar o inexplicável

Prometi a mim própria não fazer juízos de valor sobre Clarisse. Creio que o fundo da questão não é saber se está errado ou certo. Ela foi envolvida por uma onda que, a par e passo, a vida nos arremessa. Clarisse foi, desde sempre, uma frustrada e nós não podemos saber a que paradoxismos uma frustração nos pode levar. Ela diz que alcançou uma liberdade interior com que jamais tinha sonhado. Se assim é, não vamos pôr em perigo essa liberdade com juízos subjectivos, ou expecular sentimentos que não vivemos.

A situação que enfrenta abala por completo os alicerces de uma mentalidade a que foi submetida durante toda a sua vida. Talvez por isso ela não consiga ver com clareza e objectividade o que se está a passar dentro de si e ao seu redor. Não existe apenas um choque psíquico mas também um forte abalo emocional físico.

Clarisse tem a nossa idade e casou mais tarde do que qualquer uma de nós com um homem mais velho quinze anos, procurando encontrar nele a continuidade da protecção e do carinho que seu pai sempre lhe dedicara. No fundo, talvez Clarisse não quisesse um marido, mas um pai que estivesse afastado das influências fanaticamente beatas da mulher.

- Se fosse só eu e o meu pai, eu seria uma rapariga muito feliz. - Desabafou ela centenas de vezes, quando éramos jovens. Sempre que o dizia olhava para o lado com medo que a mãe a pudesse ouvir.

Encontrou no marido um homem já realizado e completamente absorvido pelos seus negócios, uma vida preenchida e dominada pela sua profissão. Um homem permanentemente ocupado, com a cabeça lotada de negócios, lucros, reuniões, trabalhando doze ou mais horas por dia, O casamento foi para ele mais um negócio bem sucedido. Ele tinha necessidade de uma mulher bonita, culta, que não fizesse má figura nas inúmeras recepções a que tinha de comparecer e que soubesse receber com a fina elegância da mulher de um homem tão importante. Nio lhe era permitido, na sua posição, ser solteiro. Não era bom para os negócios. Encontrou na Clarisse a mulher ideal para os fins em vista. Mais um negócio levado a efeito com êxito não esquecendo, claro, o respectivo lucro. Se a somar a tudo isto, ter a possibilidade de expor uma mulher bonita e, com isso, provocar inveja, podia afirmar que ganhara em todas as frentes.

Nada existe de extraordinário neste fenómeno familiar. Ele uma constante em casais pertencentes a um elevado extracto social, sobretudo quando este é mantido através de uma violenta actividade profissional do marido. Nasce e cresce o abandono. A participaçao da mulher confina-se a ser o elemento decorativo na promoção social do marido, a máscara da respeitabilidade que ele necessita. Que recebe em troca? Uma independência económica e a satisfaçao dos seus caprichos femininos. Um bom investimento.

Cá fora, ele encontra sempre uma jovem bonita e fácil sempre pronta a fazer aquilo que as esposas recusam, ou o que eles pensam que assim será. É nesses breves encontros que conseguem a restituição do equilíbrio psíquico, saciado que foi o apetite sexual, pelo que, em casa, não sentem essa necessidade. Transformam toda a actividade amorosa no lar em esporádicos e fastidiosos cumprimentos do dever. Tudo isto tem fundamental importância no desenvolvimento de uma frustração profunda numa mulher.

Clarisse, além da decepção já existir dentro de si, é uma mulher extremamente sensível, romântica e muito religiosa. Sempre o foi. Creio que ela se refugiava na religião por urna questão de fuga e não por sentida fé. Talvez por isso ela se tenha deixado sempre ultrapassar, mantendo-se à margem de tudo o que a vida nos oferecia.

Deves estar recordada, minha querida Isabel, da tremenda tragédia no dia em que, pela primeira vez, lhe veio a menstruação. Em qualquer uma de nós isso já tinha acontecido e muito tínhamos conversado sobre isso, pelo que ela estava inteirada de como tudo se passava. É engraçado que até nisso ela foi atrasada. Santo Deus, que tragédia! Fomos nós que tivémos de a acalmar e tratar. Mas a sua verdadeira tragédia não era o acontecimente em si, mas o mêdo da mãe descobrir.

-Tu és doida, rapariga! A tua mãe é uma mulher e sabe muito bem o que isso é. Aliás ela já devia ter conversado contigo sobre este assunto. - Disse eu, achando estúpido e exagerado todo aquele pavor.

- Eu não vou para casa! - Exclamou ela, entre lágrimas. Todo aquele terror era mesmo verdadeiro, não se tratava de nenhuma pieguice de menina histérica.

- Isso é a maior parvoíce que ouvi até hoje! - Tentava através de uma certa agressividade, fazê-la esquecer aquele mêdo. - Claro que vais para casa. Ninguém foge pelo simples facto de lhe vir a menstruação. Isso absolutamente natural e até devias ficar contente. Mas se queres, se isso te dá coragem, eu não me importo de te acompanhar a casa.

- Por favor! - Implorou. Senti pena dela, embora continuasse a não compreender a razão de todo aquele terror.

Tentei fazer o meu melhor para conseguir que se acalmasse e acredita que não foi nada nada fácil, principalmente quando nos aproximávamos de casa. Ela tremia como varas verdes.
Fui eu que tive de contar mãe o que se passava, pois ela não conseguiu abrir a boca. Escutou-me em silêncio. Principiava já a sentir-me incomodada, pois ela não falava nem se mexia. Sentada de costas muito direita, olhos fitos em frente, mais parecia uma estátua. E depois aquela quase escuridão da sala, a dar-nos uma sensação terrifica de um cenário de um filme de terror.

Quando acabei de falar, esperei o que seria natural numa mãe: um gesto de carinho. Nada. Daquela mulher mumificada não saíu absolutamente nada. Nem um único som. Nem sequer os olhos se desviaram do vazio. Só ao fim de alguns segundos, que me pareceram uma eternidade, desviou os olhos para a filha, que se mantivera de cabeça baixa, encostada ao móvel escuro. Para mim não se dignou a olhar uma única vez. Numa voz metálica e rouca ao mesmo tempo, que me deixou gelada, tive a sensa ção que a voz lhe saía por entre os dentes, não da garganta. No seu rosto de mármore não se viu o mais pequeno sorriso, o mais leve sinal de vida.

- Entras neste momento no mundo miserável da mulher. A partir de agora não és mais uma criança e, como tal, mais do que nunca terás de te proteger das diabólicas tentações do Diabo, se não queres ir parar às profundezas do inferno. O passo que deste foi, infelizmente, contra a minha vontade, mas não se pode contrariar as leis da natureza. Deus as criou para nos colocar à prova e a elas nos devemos submeter com a devida humildade e resignação. Em cada segundo da nossa vida de pecadoras devemos erguer os olhos ao céu e elevar o nosso coração numa permanente oração para que Ele nos perdoe e nos dê as forças necessárias para derrotarmos as tentações demoníacas, em Sua honra e glória. Àmanhã vais comigo à Igreja da Nossa Senhora do Sagrado coração para que o senhor padre te ouça em confissão e te dê a penitência devida, não só pelo que agora aconteceu em ti, como para te livrar de maus pensamentos. Falarei logo com o teu pai para que arranje uma pessoa de extrema confiança para te levar e trazer do liceu. É nosso dever como cristãos devotos e como pais proteger os nossos filhos das maldades dos homens, e das más companhias.

Tive a sensação que a última frase era mais dirigida a mim do que á filha. Em que século é que o estupor da velha pensava que vivia? Senti uma enorme vontade de lhe dizer das quentes e boas, mas quem iria sofrer seria a Clarisse e resolvi manter-me calada, com bastante sacrifício diga-se. (Vidas Cruzadas)

Domingo, Julho 17, 2005

A conversa final

- Jesus! Como tu estás! Sentes-te mal? — Não tive tempo de responder. Vomitei ali mesmo.
Para que me pudesse recompor, caminhámos durante algum tempo ao ar livre. Quando, finalmente, entrei no carro, eu quase não tinha forças para conduzir. Seguimos em silêncio cada uma de nós mergulhada nos mais desencontrados pensamentos. Zita sugeriu que fossemos tomar um chá.
- Foi terrível, não foi? - Comentou a minha filha, enquanto lentamente sorviamos o chá aromático. Nunca este me soube tão bem como naquele momento. - Felizmente que aquele é o único caso grave que temos.
- Mas porque não o levam para o hospital? Ele vai morrer ali.
- Esta a fazer todos os possíveis para o salvar. Ele recusa-se em ir para o hospital. Se o levássemos força, além de se tornar ainda mais difícil salvá-lo não conseguiríamos uma eficaz desabituaçao, sobretudo psicológica.
- Meu Deus, mas no meio de toda aquela imundíde, ele não tem hipótese alguma de se salvar!
- Nós estamos a tentar. Aquilo que lhe levei é morfina, mas preparada. Ele não deixa que nenhum médico se aproxime, mas nós estamos a tratá-lo com a ajuda de especialistas. Não tem sido nada fácil, porque ele recusa tudo que não seja a sua dose. Ele não sabe mas as doses que lhe damos são cada vez mais fracas e com substitutos. Mas é impossível como será o dia de amanhã. Lutamos, mas tenho receio que não exista futuro.
- Mas o rapaz não tem família?
- Tem, mas também se recusa a recebê-la. Tem perfeita consciência do estado em que se encontra e tem vergonha. Ou raiva, ainda não tenho a certeza. Nós conseguimos convencer os pais a manterem-se afastados. Qualquer alteração emocional pode-lhe ser fatal.
- Que idade tem ele?
- A minha idade. É muito jovem. Não levou um ano a chegar àquele estado. Começou no haxixe e passou rapidamente para as pesadas. Nós trazíamo-lo vigiado e quando ele deixou de aparecer, nao foi difícil descobri-lo. Aquela cave tem sido o lugar onde alguns grupos de jovens se refugiam. Do grupo, o Berto é o único que ainda não conseguimos recuperar. Três deles estão internados num centro de recuperaçao e os outros quatro frequentam a consulta externa. O Alberto tem-nos escapado sempre. Eu creio que sei das razões que o levam a afundar-se cada vez mais. Simplesmente não consegui ainda entrar dentro dele, fazer uma profunda análise das razões que o levam à recusa. Ele sabe perfeitamente que está a auto-destruir, sabe que não tem hipóteses de salvação se se mantiver numa recusa sistemática de internamento. Nós podemos eliminar a dependência física através de uma diminuição gradual das doses, mas isso não significa que o salvemos. Tem de ser desenvolvido um profundo trabalho de no campo psicológico para que seja ele próprio a expulsar a necessidade psíquica. É um trabalho que sócom a colaboração activa e voluntária dele se pode realizar. O psicólogo nada pode fazer se o doente não ajudar. Sem isso nada feito.
- Ainda me custa a acreditar! Tao jovem ainda!
- Sabes o que que me apetecia fazer? Era passeá-lo por todas as ruas desta cidade, por todas as cidades deste país. Ir a todas as escolas, a todas as fábricas, a todo o lado e colocá-lo frente dos olhos de toda a gente e principalmente em cima das secretárias dos ministros. Isto é uma luta terrível que não pode ser travada por pequenos grupos isolados. Não apenas. Chego muitas vezes a ficar desesperada de tanto remar contra a maré.
- Até dá a impressão que não há interesse em acabar com a droga! – Disse eu, num desabafo.
- Não é impressão, é certeza! As fontes de receita que a droga proporciona são incalculáveis. Quem é que pode ter interesse em acabar com uma tão fabulosa mina de oiro?
- Também não devemos ser assim tao radicais, O governo não se tem poupado a esforços para tentar debelar este flagelo. E isto não apenas no nosso País. – Respondi eu com uma enorme e santa ingenuidade.
- Estás a brincar comigo? Não vou dizer que seja uma tarefa de fácil controlo, assim como seria utópico pensar na eliminaçao pura e simples do tráfico de estupefacientes. Ninguém é tão ingénuo assim. Simplesmente nós temos perfeita consciência que nada de sério e profundo é levado a cabo. Os tipos que estão metidos neste negócio são indivíduos com um extraordinário poder económico e fabulosamente imaginativos. Lutam com muitas armas e a que mais utilizam por ser, no fundo, a mais barata e fácil, é a corrupção. A corrupção, mãe, existe em todo o lado. Ela faz parte integrante do género humano. Todos nós temos um preço. Esta é a verdade. Não existem excepções em parte alguma. Quantos são os que estão neste momento na prisão. Nem sequer a arraia miúda, os paus mandados, aquecem o lugar. Todos sabemos o que é a política e o que são os políticos. Actualmente ninguém tem tempo para ser idealista, e na política todos os meios são bons. Até o fechar de olhos. Até a abertura de uma conta bancária. O importante mesmo é a caça ao voto e isso custa dinheiro.
- Há políticos honestos.
- Claro que sim. Indique-me um.
- És demasiado pessimista.
- Não, mãe, sou apenas realista e não vejo apenas aquilo que eles querem que eu veja. Houve um tempo que era assim, mas os tempos mudaram e nós evoluímos. Uma evolução bem contrária do gosto da maioria dos nossos políticos, que gostariam muito mais de nos verem a aplaudir de boca aberta e olhos fechados. Nós já não acreditamos em ídolos nem em super-homens.
- Deixemos a política para eles. - Disse eu, tentando mudar o rumo da conversa.
- Isso foi o que nós fizemos durante muitos anos. Eles sempre falaram por nós e, em boa verdade, ainda hoje continuam a tentar fazê-lo. As guerras que existem por esse mundo fora, foram os políticos que as fizeram em nome do povo, repara bem, em nome do povo, mas sem que o povo tivesse manifestado uma única vez a sua opiniao.
- Não sabia que tinha uma filha comunista.
- Só me faltava ouvir esta! Comunista? Comunista porquê? Porque falei no povo? Meu Deus, mas isso é o que nós somos! Todos nós. Haverá alguém melhor do que nós mesmos para falarmos dos nossos próprios interersses? O ser-se pela justiça social, pela paz, pelo amor, pela liberdade, pela cultura, pela igualdade entre homens e mulheres, é ser comunista? Não sou comunista, mas estou cansada da justiça do funil.
Não me atemoriza discutir política, mas confesso que ela nunca foi do meu agrado. Sempre a considerei demasiado falsa, demasiado febril. Este divórcio talvez se deva a um certo desencanto, a um sentimento de impotência perante aquilo que nos dizem e aquilo que é feito. Os políticos lutam pelo poder e depois lutam para o manter. Como é que eles vão ter tempo para cumprirem o que prometeram? Esta realidade temo-la nós à frente dos olhos, todos os dias e continuamos a não querer vê-la. Depois foram muitos anos de forçada ignorância.Ora, desculpas esfarrapadas, eu sei, minha boa amiga.
A luta contra a droga é uma luta titânica e, muitas vezes, inglória. Quando uma doença se transforma em fonte de lucro é quase impossível a sua cura. De qualquer maneira, naquele preciso momento decidi entrar na luta. Não sei o que vou fazer ou o que posso fazer, mas sei que tenho de fazer qualquer coisa. Disso eu tenho a certeza. A imagem daquele farrapo humano não me sai do pensamento.
Minha boa amiga, foi colocada perante os meus olhos uma nova visão da vida, que me fez envergonhar da minha condição de burguesa cómoda e egoísta. Nunca, até hoje, tive consciência do vazio da minha vida. Pela mão de minha filha aprendi um novo conceito de sociedade. Uma sociedade furiosamente indiferente e cega a tudo que possa ameaçar a rítmica ondulação da sua existência e dos valores por ela defendidos. Ela precisa do indivíduo para se firmar e manter, explora-lhe as fraquezas e aproveita-se das qualidades, mas nao o considera nunca como tal.

Quarta-feira, Junho 15, 2005

Descida aos infernos

- Covardia? Será que os loucos internados no manicómio são covardes? Não, mãe, os drogados não são covardes. Doentes. São apenas doentes que precisam de tratamento. Não podemos fazer uma análise tão superficial do problema. Seria simples de mais e extremamente cómodo dividir a humanidade em heróis e covardes. No fundo talvez seja isso que se pretenda. Encontramo-nos inseridos numa sociedade extremamente exigente, fazendo com que a nossa capacidade de resposta se esgote muitas vezes. Se uns têm acesso a fontes de reabastecimento temos de reconhecer que o mesmo não acontece com muitos outros. Quando um jovem, de repente, descobre que não tem qualquer objectivo, que sente o chão a fu gir-lhe debaixo dos pés e, o que é mais grave, ao olhar em volta depara com uma sociedade decadente e egoísta, nada mais lhe res ta do que refugiar-se num mundo de ilusão onde ele tem a certeza de que todas as suas dúvidas e problemas se irão dissipar numa onda de prazer. Quando, ao tentarem o diálogo com os pais estes ou não se encontram em casa ou se estão é sem paciência para os escutar, ou então a discutirem enntre si, que lhes resta? Não tem sido nada fácil o nosso trabalho. São muitas as frentes de luta e qual delas a mais difícil!... Não se trata apenas de recuperar um drogado, é preciso também tentar eliminar a ignorância dos pais. O nosso pequeno grupo é ajudado por professores, médicos e psicólogos, mas só recorremos a eles quando os nossos amigos assim o desejam. Quando tal acontece é sinal que o nosso esforço foi recompensado, pois se inicia o percurso final na recuperação. Inicialmente procuro interessá-los pelos estudos e faço com que participem no máximo de actividades desportivas. Depois procuro falar com os pais, tentando obter deles uma racional colaboração. Aliás é aí que se desenvolve com mais intensidade a minha actividade. Esta experiência tem-me ensinado o quanto é difícil dialogar com os mais velhos. É como se de repente eles erguessem uma muralha na defesa das suas posições de mais velhos. É visível o medo que sentem em perderem uma cómoda estabilidade, embora falsa, que a idade, e só isso, lhes concedeu. Depois vem a recusa, cega e irracional. Impossível acontecer-lhes! Aos seus filhos nunca! Essas coisas só acontecem aos filhos dos outros! São sempre agressivos no início, mas depois acabam por se acalmarem e perguntam porquê. Colocam-me à frente dos olhos as suas consciências puras. Jesus Cristo, nós fizemos tudo, nunca lhe faltou nada. Depois vem o ataque de paradoxismo, para se seguirem as ameaças de morte, pancada e cadeia. Só depois de acusarem meio mundo e tentarem destruir o outro meio é que ganham a calma necessária para me ouvirem e reconhecerem que não é nada disso que se pretende. Na generalidade acabam todos por colaborarem connosco, embora com uma certa dificuldade.

Continuámos a conversar durante horas. A redescoberta que eu fazia de minha filha enchia-me de felicidade. Sentia-me possuída por uma gigantesca onda de ternura e a minha vontade era cobri-la de beijos. Meu Deus, como a amava!

Nós estamos sendo absorvidos por uma onda de insegurança colectiva. Ninguém sabe o que lhe vai acontecer no dia de amanhã. Se nós, os mais velhos, tentamos lutar contra essa insegurança com as armas que a experiência dos anos nos deu; um jovem, por desarmado, facilmente poderá sucumbir a qualquer um dos infindáveis ardis que os chacais dos lucros tão habilidosamente tecem. Nao é fácil resistir à promessa de um mundo maravilhoso. A curiosidade cresce, a experiência nasce, a prova é feita e são perdidas as forças para retroceder caminho. Quando a consciência atira com um grito de alerta já é tarde demais.

Depois daquela conversa, eu ofereci-me para a ajudar em tudo o que fosse preciso e de que eu fosse capaz. A minha filha sorriu-me, respondendo-me que teria nisso muito prazer. Seria uma maneira de colocar à prova a minha coragem. Só mais tarde é que compreendi o que ela queria dizer com aquilo. Santo Deus, como é possível que um ser humano possa descer tanto!

Não podes imaginar, querida amiga, o pavoroso espectáculo que se oferece aos nossos olhos, um jovem, que nem disso temos a certeza, deitado numa imunda enxerga, sem forças sequer para abrir os olhos, o corpo sacudido por espasmos, gemendo por mais uma dose. Uma dose que tem de lhe ser administrada senão ele sofrerá dores horríveis. Terrível, simplesmente terrivel!

Zita levou-me à cave de um prédio a ameaçar ruína. O cheiro a urina e a excrementos era tão forte que, logo que entrámos, senti-me agoniada.

- Respira devagar que logo te habituas. – Disse minha filha. - A alfazema não chega a todo o lado.
- Naquele instante não liguei à ironia.

- Mora aqui muita gente? - Perguntei, tapando a boca e o nariz com um lenço.

- Várias famílias em cada andar. É um prédio degradado. Não existem esgotos, nem qualquer espécie de instalações sanitárias, nem luz eléctrica. As pessoas fazem as suas necessidades em baldes que despejam num baldio aqui perto. Isto que aqui vês é a outra face da medalha, aquela que toda a gente burguesa procura não ver. Mas ela existe e vai continuar a existir enquanto o egoísmo for maioritário na terra.

- Afinal que viémos aqui fazer?

- Vim trazer a dose do Alberto.

- Como?!...

- Depois de sairmos conto tudo. Agora peço-te que permaneças calada e quieta, vejas o que vires. Observa apenas e faz todos os possiveis para que a tua presença se não faça notada. É muito importante. É preciso que ele se mantenha calmo.

Descemos por umas escadas escuras com cuidado para não escorregarmos na porcaria pegajosa de cada degrau. O cheiro era nauseabundo. Entramos num pequeno cubículo, onde a luz do dia mal entrava por uma pequena janela de vidros partidos. No principio no consegui ver nada, de tão escuro. Depois, já habituada, vi a um canto, a forma encolhida de um corpo, deitado numa enxerga. Não se moveu quando entramos e eu fiquei com a certeza que estava morto. Minha filha aproximou-se, ajoelhando-se junto do vulto.

- Berto... Berto, sou eu, a Zita. - Eu quase a não consegui ouvir de tão baixinho ela falou. Daquela forma escura saiu uma espécie de estertor. - Queres agora? Eu preparo-te.

Zita afastou-se um pouco e procurou algo junto da enxerga. Da sua bolsa tirou um frasco. Quando a vi com uma seringa na mão estremeci. Com uma calma impressionante, espetou a agulha na borracha do frasco e extraiu uma pequena quantidade de liquido esbranquiçado. Premiu o êmbolo e tirou o ar da seringa. Ajoelhou-se novamente e estendeu-a ao vulto. Adivinhei mais do que vi, ele mexer-se e uma mão esquelética agarrar na seringa. Quando ele se virou, levei a mâo à boca para abafar um grito de horror, ao mesmo tempo que mordia nos lábios até os sentir sangrar. Aquilo não era um rosto de um ser humano, quanto mais de um jovem! Indescritível, minha que querida amiga, indescritível! Os olhos encovados e sem vida, os ossos espetados na pele de uma cor violácea. Horroroso!

Enquanto ele, com a mão trémula, segurava a seringa, Zita levantou-lhe a manga da camisola, deixando ver aquilo que outrora fora um braço de um jovem. Desde o punho e até onde a camisola permitia ver, era tudo uma autêntica chaga, coberta de crostas. O pobre desgraçado tentava espetar a seringa, mas ela resvalava na dureza das crostas. Aquilo devia-lhe provocar dores horríveis. Começou a gemer de desespero por não conseguir encontrar um milímetro para espetar a agulha. Num movimento de raiva lá conseguiu que ela penetrasse através da chaga endurecida. Não conseguiu ver bem, mas creio que ele entortou a agulha. Muito lentamente começou a premir o êmbolo e injectou todo o líquido que estava na seringa. Foi Zita que lha retirou do braço pois ele já não teve forças para o fazer. A viagem tinha começado. Ela tapou-o com o cobertor imundo. Levantou-se, olhando-o com infinita tristeza.

- Vamos. – Disse-me. - Já não fazemos aqui nada. Dentro de algumas horas, virá outra pessoa dar-lhe mais uma dose.

Não respirei até que alcancei a rua e sentir o sol da primavera aquecer-me os ossos. Eu tinha acabado de regressar do inferno. Se existe inferno, tenho a certeza que devera ser exactamente como aquilo. Eu devia estar de uma palidez cadavérica.

Terça-feira, Junho 07, 2005

A procura continua

Que podia eu dizer? A conversa levara um rumo com o qual eu não contara. Senti-me esmagada pela lógica calma dela, mas ao mesmo tempo feliz por tal acontecer. Ao ouvi-la senti dentro de mim uma onda de orgulho. Tive a certeza que não havia razão para sentimentos de culpa. A minha missão de mãe e educadora não fora um fracasso. Foi exactamente isso que lho confessei. Ela sorriu e atirou-se para os meus braços. Durante largos minutos ficamos as duas abraçadas, chorando e rindo ao mesmo tempo.

- Tu és uma tonta, mãe! Todas as mães são umas tontas quando perdem a confiança nos filhos.

- Adoro-te, minha querida!

- Também eu te adoro, apesar de me sentir um pouco desgostosa. Eu não merecia essa tua falta de confiança.

- Perdoa-me, minha querida. Não quero justificar-me, mas tenta colocar-te por um momento no meu lugar. Não é fácil a uma mãe admitir que tenha errado, em relação aos filhos. Por vezes é tão difícil compreender os jovens.

- Apenas porque vocês já esqueceram o tempo da vossa juventude. Das vossas incertezas e frustrações. Nem sempre o fosso que existe entre as gerações é cavado pelos jovens. A insegurança é uma coisa terrível, mãe, e ela não existe apenas em nós.

- Diz-me, querida…tu não... quer dizer...

- Fala, mãe. Queres saber se eu me drogo? Descansa a tua consciência que eu não me drogo. Não me drogo nem nunca me droguei. Mas posso dizer-te que sou quase uma perita em estupefacientes. Pertenço a um grupo de estudantes que resolveu iniciar uma campanha activa anti-droga. Tentamos recuperar aqueles cuja recuperação ainda é possivel. Tem sido um trabalho árduo, muito difícil, mas que me tem apaixonado vivamente. Têm sido experiências terríveis as que tenho vivido nestes últimos meses. Odeio a droga, mãe! Odeio-a com todas as forças da minha alma! É inimaginável a degradação física e moral a que a viciação pode levar. Gostaria que tudos pudessem ver com os seus próprios olhos o estado a que um ser humano pode chegar por causa da droga. Tem sido um trabalho terrível, um desafio constante.
Inebriada de felicidade, esquecida da razão principal daquela conversa, mas com uma pontinha de remorso no coração, eu escutava com religiosa atenção. Sentia-me orgulhosa de ser mãe daquela maravilhosa criatura.

Ela falava com quente entusiasmo. Com todo aquele entusiasmo tão habitual nela, que sempre imprime em tudo o que faz. Enquanto existirem jovens como ela a esperança de um mundo melhor continuará acesa.

- A vida, mãe, não é aquilo que nós vimos no nosso vai e vém quotidiano, rápido e rotineiro. A vida não é apenas o desabrochar de uma flor, o sorriso simpático, uma ida ao cinema ou o conforto da nossa casa. A vida, mãe, também é o chafurdar na merda, de que nós, burgueses perfumados procuramos sempre nos afastar. Eu mergulhei nesses excrementos da vida até ao pescoço. Vomitei muitas vezes. Ainda hoje, sempre que tenho de enfrentar a podre realidade me sinto agoniada. Todas as vezes que submerjo das catacumbas da degradante miséria em que esses jovens vivem, ou, se preferires, se encontram, eu sinto uma raiva muito forte cá dentro. Lá em baixo, tento deitar cá para fora todo o amor de que sou capaz e com tal intensidade o faço que, quando regresso à superfície venho completamente vazia, esgotada, com uma única excepção: o ódio. É verdade, o ódio ressurge com toda a sua violência e força. Ódio por toda esta desumanização em que todos nós nos encontramos. Pela nossa indiferença, pela nossa falta de amor. Já não somos humanos, somos umas bestas a quem alguém afivelou a canga do egoísmo.

- Não somos tão desumanos assim. A acção que desenvolves é prova evidente do contrário. Não pretendo culpar nem desculpar ninguém mas parece-me que não podemos arcar com as culpas pela covardia de uns quantos. (Vidas Cruzadas)