Depois da triste experiência que tive no tenebroso mundo da droga, a minha vida ganhou uma nova dimensão, transportando-me muito para além das quatro paredes cuidadosamente pintadas da minha casa. Aprendi que a vida não é um ritmado caminhar paralítico entre atapetadas veredas rodeadas de flores artificiais. Ela é feita de tropeções, quedas, altos voos, de merda e de jardins floridos. Eu vivia apenas numa parte da vida, naquela em que artificialmente nos envolvia numa redoma de sorrisos.
Decidi sair para a rua, conhecer o lado feio e mau das coisas, fazer parte de tudo isso, sujar os sapatos no vomitado quotidiano das desilusões. Transformei-me numa companheira de minha filha, uma sua camarada na luta quase heróica contra a droga.
Alguns dias depois de termos visitado aquele pobre rapaz, a Zita foi chamada de urgência. Corremos as duas para lá. Já ali se encontravam um médico e duas amigas. O rapaz estava a morrer. Já nada nem ninguém o conseguiria salvar. Tinha os olhos fechados e respirava com dificuldade.
- Não seria melhor levá-lo para um hospital? - Disse minha filha para o médico.
- Não vale a pena. Isto é uma questão de minutos. – Disse-o com a naturalidade da sua frieza profissional.
- Mas será que não podemos fazer nada? - Perguntou uma das moças que, com um lenço, limpava o rosto do jovem.
- Absolutamente nada. Ele já está praticamente morto.
Naquele momento entrou um casal que, piscando os olhos procurava ver na semiobscuridade do quarto, o que estava a acontecer. A mulher olhou para o canto onde o pobre rapaz se encontrava deitado e correu para lá. Deixou-se cair de joelhos junto da enxerga.
- Albertol... Alberto!... Meu filho!... Sou eu, a tua mãe. Olha, meu querido, a tua mãe está aqui! - Ela sacudia o frágil corpo tentando que ele abrisse os olhos, chamá-lo para a vida.
- Acalme-se, minha senhora. - Disse o médico. - Ele não a ouve.
- Meu querido filho! - Gritou a mulher, O pai encontrava-se encostado à parede, de olhos muito abertos, enquanto que pelas faces lhe corriam grossas lágrimas. Desde que chegara ainda não tinha dito uma só palavra.
- Porquê meu filho?... Porque fizeste isto? Doutor, ele é ainda uma criança. Salve-o, por amor de Deus! Salve o meu filho!
Ninguém respondeu. Não havia nada para dizer. De repente o rapaz abriu os olhos e fixou-os no tecto. Assim ficou durante alguns segundos. O seu corpo foi sacudido por um leve estremecimento e depois ficou quieto. O médico que se encontrava ajoelhado junto dele, vigiando-lhe o bater do coração, levantou-se.
- Acabou. - Disse num sussurro.
Naquele momento ouviu-se a sirene de uma ambulância a se aproximar. Era a que tínhamos chamado para o transportar para o hospital, numa desesperada esperança que algo pudesse ser feito. Ao fim de alguns minutos tudo tinha acabado.
Aguardou-se a chegada da polícia para que tomasse conta da ocorrência.
Os pais seguiram na ambulância acompanhando o filho morto e nós saímos para a rua, tentando respirar um pouco de ar puro. O médico já tinha partido e nenhuma de nós tinha coragem para falar.
A morte é sempre triste mas muito mais quando ela ocorre num jovem. E quantos mais estarão neste momento na mesma situação? Tremo só de pensar nisso.
Não consigo conceber a droga como solução, nem mesmo como fuga a um ”status” negativo, dos muitos que a vida frequentemente nos atira à cara. Não nego o prazer que ela proporciona, embora eu continue a considerar tratar-se de um prazer de base falsa. A droga para mim é como se fosse um patíbulo: em qualquer momento abre-se o alçapão e nós ficamos a baloiçar com o nó da corda apertado ao pescoço.
Em conversa com uma amiga, a Filomena; acho que não conheces; falámos sobre este aspecto da sociedade actual, que é a necessidade do recurso droga.
- Mas, minha querida, o tráfico e o consequente consumo de estupefacientes não é actual, O seu uso remonta de há muitos, muitos anos. Simplesmente ela hoje não está mais apenas nos salões e nas orgias da alta burguesia. Saiu para a rua, proletarizou-se. Na verdade, ela agora pertence ao povo. Tu sabes bem o que acontece a tudo o que cai na rua. O mal não está na droga, mas sim no seu uso excessivo e descontrolado. Tudo aquilo que ultrapassa a nossa vontade, a domina fugindo, assim, de qualquer controle, transformfa-se numa arma permanentemente engatilhada e apontada ao nosso peito.
- Eu vi aquele rapaz a morrer. Tão jovem, tão criança ainda, com tanta vida para viver! Foi um crime. Um crime nefando! E os criminosos continuam à solta.
- E vão continuar. Enquanto e onde existir poder de compra eles vão continuar. Enquanto as pessoas não forem esclarecidas eles vão continuar. O mal é eles venderem uma coisa que dá prazer, digam o que disserem, que transporta as pessoas para um mundo melhor, irreal, falso, mas melhor, à medida dos nossos desejos. Sei que é assim.
- Sabes? Sabes como? – Acho que não entendi de imediato o que ela me queria dizer.
- Experimentando, claro. Sempre que me encontro mais deprimida, quando a angústia se alia à solidão e tudo se transforma num peso insuportável, a “erva” consegue restabelecer o equilíbrio. Não sou, evidente, uma viciada. Ainda no sou... Pelo menos eu quero acreditar que não.
Olhei-a não querendo acreditar no que ouvia. De repente foi como se tivesse à minha frente uma desconhecida, pior do que isso, uma criminosa. Foi. Foi exactamente isso que eu senti. Ela adivinhou o que me ía no espírito. Nos seus lábios desenhou-se um sorriso triste.
- Até tu, que te encontras numa campanha de recuperaçao de drogados, olhas para mim como se fosse uma criminosa. Vês como eu tinha razão, quanto ao esclarecer das pessoas?
- Por amor de Deus, não pensei tal coisa! - Menti - Confesso que fiquei surpreendida. Porquê exactamente tu? És uma mulher forte, adulta e, segundo penso, realizada. Calcula que até cheguei a invejar-te muitas vezes.
- A mim? Pobre Isabel, como estás enganada a meu respeito. Estou muito longe de ser uma mulher por quem se tenha inveja. Muito pelo contrário. - Havia mágoa na sua voz. - Mas a verdade é que não fazes ideia da quantidade de pessoas que me dizem isso. Tu que tens sorte, dizem-me. É, tenho muita sorte. Não tenho um bando de filhos para aturar, um marido machista para suportar, um monte de complicações e trabalho lá em casa. De facto não tenho nada disso. Talvez seja essa, uma das razões porque me desvio sempre dos parques onde há crianças a brincar, ou então, paro numa montra de brinquedos e não consigo refrear as lágrimas. Que sabes tu, minha querida Isabel, da vida de uma mulher que tem como companhia apenas a solidão?